Contra a vida

Drauzio – Você
não acha que os indivíduos que se opõem a esse
tipo de pesquisa em nome de uma pretensa defesa da integridade da
vida, na verdade estão agindo contra a vida porque impedem
que pessoas, estas sim vivas, tenham condições de defender-se
de doenças gravíssimas, como essa a que você se
referiu?
Mayana Zatz – Sem dúvida. Quem proíbe
esse tipo de pesquisa é contra a vida. Eu queria ver se alguém
com o filho na cadeira de rodas, sabendo que ele está condenado,
teria a coragem de olhar nos olhos dessa criança e dizer: “Olha,
o embrião congelado é mais importante do que a tua vida!”
Por isso, defendo que é preciso ouvir as pessoas portadoras
dessas doenças, porque representam um drama enorme que a população
desconhece. Quando se fala em tratamento, em geral se pensa em Parkinson
e Alzheimer, doenças extremamente importantes, mas que acometem
pessoas mais velhas. O drama maior enfrentam as crianças e
jovens que estão morrendo e das quais se está tirando
a única esperança de tratamento.
Drauzio – Considerar que um óvulo
fecundado por um espermatozóide num tubo de ensaio, depois
de três ou quatro divisões, é uma vida com o mesmo
direito da criança que está na cadeira de rodas, sentindo-se
cada vez mais incapacitada, é revoltante. Nesse caso, não
seria exagero encarar a masturbação masculina como um
genocídio em potencial.
Mayana Zatz – Nesse sentido, toda a vez que
a mulher menstrua também perde a chance de ter um óvulo
fecundado e está desperdiçando uma vida naquele momento.