Mistério da diferenciação

Drauzio – Vamos
imaginar que por alguma razão, experimento científico
ou tentativa de tratamento de uma doença, seja necessário
colher essas células totipotentes que são capazes de
diferenciar-se em qualquer tecido. O potencial teórico de possibilidades
de tratamentos com essas células é tão variado
que, pessoalmente, não consigo sequer enxergar seus limites.
Você poderia explicar como essas células retiradas do
embrião se transformariam em tratamento para as mais diversas
doenças?
Mayana Zatz – É preciso deixar o embrião
chegar à fase de blastocisto, isto é, com 64 células,
o que leva no máximo cinco dias. É fundamental deixar
claro o processo para as pessoas entenderem o que pretendemos.
O blastocisto é um montinho de células menor do que
a ponta de uma agulha, e ninguém está pensando em destruir
embriões, muito menos fetos. A idéia é cultivar
essas células em laboratório de maneira que se diferenciem
no tecido desejado.
O corpo humano, porém, guarda um mistério que ainda
não foi decifrado. Como se sabe, depois da fecundação,
a célula se divide em duas, de duas em quatro, de quatro em
oito e assim sucessivamente até atingir a fase de algumas centenas
de células com o poder de diferenciar-se em qualquer tecido.
No entanto, em determinado momento, elas recebem uma ordem e umas
se diferenciam em fígado, outras em ossos, sangue ou músculo,
por exemplo. Daí em diante, todas as suas descendentes, de
acordo com essa mesma ordem, continuarão diferenciadas: a célula
do fígado só vai dar origem a células do fígado;
a do sangue, só a células do sangue. Não descobrimos,
ainda, como funciona essa ordem que a célula recebe para diferenciar-se
nos diferentes tecidos.
Em nossas pesquisas, estamos utilizando células-tronco do cordão
umbilical e cultivando-as junto com células musculares. Como
trabalho com doenças neuromusculares, quero que elas se diferenciem
em músculo.
Drauzio – Como está sendo desenvolvida
essa pesquisa?
Mayana Zatz – Na verdade, estamos fazendo duas
pesquisas. Uma estudando só os resultados do contato, da vizinhança
entre a célula-tronco e a célula muscular. A segunda,
cultivando a célula muscular e utilizando o meio de cultura
para colocar a célula-tronco ainda indiferenciada a fim de
verificar se naquele meio existem os fatores necessários para
sua diferenciação em célula muscular.
Como já disse, meu interesse nesse tipo de célula vem
do meu trabalho com doenças neuromusculares. Há pessoas
que nascem normais, mas a partir de determinada idade começam
a perder musculatura por defeito do músculo ou dos nervos que
deveriam estar enervando aquele músculo. Nas formas mais graves,
a doença acomete meninos de 10, 12 anos que perderam a massa
muscular e estão numa cadeira de rodas. Nosso objetivo com
a pesquisa é, a partir de células-tronco, tentar substituir
o tecido muscular que está se perdendo, o que de certa forma
é uma maneira sofisticada de se fazer um transplante.
Drauzio – Você tem feito isso a partir
de células colhidas do cordão umbilical?
Mayana Zatz – Essas são as únicas
células que posso conseguir. Infelizmente, a lei não
permite o trabalho com células embrionárias.