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Alexandre Azevedo é médico psiquiatra, membro do Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares (AMBULIM) do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.

Síndrome alimentar noturna

Drauzio Gostaria que você falasse sobre as pessoas que se alimentam normalmente durante o dia, algumas são até frugais, mas que acordam de madrugada e atacam a geladeira com voracidade.
Alexandre Azevedo – A síndrome alimentar noturna é uma doença que vem sendo estudada nos últimos anos. Ela acomete pessoas que seguem, sem nenhum esforço, hábitos alimentares normais durante o dia, mas, à noite, duas ou três horas depois de terem adormecido, despertam com a necessidade de ingerir algum alimento. Em geral, nessas ocasiões, ingerem alimentos hipercalóricos, como os doces e os ricos em gordura, que não fazem parte da dieta usual desses pacientes. Às vezes, nem é por compulsão, porque a quantidade ingerida não é grande, mas sentem-se obrigadas a comer alguma coisa para voltar a dormir. Caso não o façam, ficam com insônia. Muitas chegam a sair durante a noite, se não encontram nada em casa. Só assim conseguem tranqüilizar-se e dormir de novo. Uma das características dessa síndrome é que, uma vez alimentadas, o retorno ao sono é rápido.

DrauzioAs pessoas têm sempre consciência do que estão fazendo nesses momentos?
Alexandre Azevedo – Nem sempre. Trabalhos mostram que alguns pacientes têm consciência total do evento; outros têm lembrança parcial e há os que não se lembram de nada e só vão descobrir o que aconteceu, na manhã seguinte, porque encontram um pacote de bolacha na cama, um prato de comida sobre a mesa, a cozinha em desordem, ou o companheiro/a lhe diz: “Você acordou de madrugada, falei com você, mas você não me ouviu. Foi até a cozinha, depois voltou para cama e dormiu outra vez”.

DrauzioA síndrome alimentar noturna pode ser considerada uma espécie de sonambulismo?
Alexandre Azevedo – É um distúrbio do sono chamado de parassonia (“comportamento ou evento psicológico anormal que ocorre durante o sono e na transição entre sono e vigília”), que se enquadra na classificação de sonambulismo. Não se sabe, porém, se é realmente sonambulismo porque outros distúrbios do sono são diagnosticados em quem apresenta tal comportamento.

Drauzio – Anos atrás, um artigo publicado sobre a síndrome alimentar noturna, afirmava que a liberação de certos mediadores cerebrais desses pacientes varia no decorrer do dia, e que, liberados à noite, provocariam a necessidade de comer.
Alexandre Azevedo – Entre outras causas, o sono normal depende da liberação adequada de duas substâncias: da melatonina – derivado da serotonina responsável pelo início e manutenção do sono - e da lipitina, produzida pelas células gordurosas e responsável pela sensação de saciedade, que não nos deixa sentir fome enquanto estamos dormindo. Pessoas que despertam no meio da noite para comer apresentam nível menor na produção de melatonina e de lipitina durante a madrugada e estariam sujeitas à insônia. Não se sabe, porém, se elas despertam por causa da sensação não consciente de fome fisiológica, ou se despertam e aí, sim, essa sensação vem à consciência. No entanto, é provável que a liberação desses dois mediadores cerebrais esteja mesmo relacionada com a síndrome alimentar noturna.