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Sintomas Drauzio – O acidente vascular cerebral é uma das doenças que podem apresentar os mais variados sintomas porque eles dependem da área do cérebro atingida pela hemorragia ou pela falta de circulação. Quais são os sinais mais freqüentes dos assim chamados derrames cerebrais? Eli Evaristo – As pessoas conhecem relativamente bem os sintomas do infarto do miocárdio: dor no peito que se irradia para o braço, pescoço ou maxilas, sudorese, falta de ar, etc. Diante deles ninguém hesita em procurar atendimento médico-hospitalar com urgência. No entanto, em se tratando de AVC, como a apresentação dos sintomas é muito variada, a dificuldade em reconhecê-los é maior e, portanto, maior é a demora para buscar atendimento num hospital, o que agrava o problema. De modo geral, acidentes vasculares cerebrais provocam alterações motoras, assim como dormência e formigamento que, com freqüência, acometem apenas um lado do corpo. A pessoa pode sentir ainda súbita fraqueza muscular (total ou parcial) ao segurar um objeto, mexer a mão, a perna ou o rosto. Podem ocorrer também alterações da visão como redução do campo visual, ou enxergar um lado meio nebuloso ou escuro ou a perda total da visão de um dos olhos. Outro sintoma comum são as alterações da fala. Os familiares notam que a fala do paciente se tornou arrastada ou percebem sua dificuldade de articulação ou de expressão. Ele sabe o que quer dizer, está compreendendo, mas na hora de expressar-se, não consegue fazê-lo. Acima de tudo, é de extrema importância destacar que os sintomas dos acidentes vasculares se instalam subitamente. A pessoa foi dormir bem e acordou com um problema motor, por exemplo, ou estava trabalhando e de repente não conseguiu realizar determinada atividade. Dor de cabeça, vômitos ou perda de consciência são sintomas que podem ocorrer ou não, e são mais comuns nos quadros hemorrágicos do que nos isquêmicos. Drauzio – Diante dessa variedade de quadros, eu me preocupo especialmente com os casos em que os sintomas motores não são visíveis, embora o AVC tenha atingido regiões mais nobres do cérebro como as que controlam a memória, a inteligência, o raciocínio matemático, etc. Eli Evaristo – Existem áreas do cérebro relacionadas com certas funções que, quando acometidas por AVC, produzem alterações que podem não ser notadas nem pelas pessoas ao redor nem pelo próprio paciente. Exemplos disso são as alterações de percepção de certas partes do corpo, a chamada agnosia, mais comum no lado esquerdo do corpo (uma lesão no lado direito do cérebro faz com que tenham menos importância as coisas que acontecem do lado esquerdo), a agnosia visual (dificuldade para reconhecer objetos ou semblantes de pessoas conhecidas) e distúrbios de memória diferentes daqueles que se instalam lenta e gradativamente com o passar dos anos porque ocorrem de forma abrupta e não são percebidos no momento em que surgiu o problema. No entanto, não se pode deixar de mencionar que a somatória de pequenos acidentes vasculares pode também ser a causa desse esquecimento considerado normal, melhor dizendo, desse prejuízo cognitivo lento e progressivo que vai aparecendo com a idade. Drauzio – Você falou em pequenos AVCs. Em geral, sempre que pensamos em acidentes vasculares, imaginamos um quadro dramático: a pessoa perdeu o movimento num lado do corpo, deixou de falar, entortou a boca. Mas, há pequenos acidentes vasculares que caminham sem que ninguém perceba nem mesmo o próprio doente e que podem ser múltiplos, especialmente quando os fatores de risco são mantidos, por exemplo, a pessoa continua fumando. Quais as conseqüências desses microderrames cerebrais? Eli Evaristo – Existe um tipo de acidente vascular isquêmico, que chamamos de lacuna porque provoca uma lesão pequena dentro do cérebro, mais comumente visto em pessoas com fatores de risco como a hipertensão arterial, que pode ocorrer várias vezes sem a pessoa perceber ou porque não sente nada, ou porque o quadro dura pouco tempo, ou porque as alterações se normalizam depois de alguns dias. No entanto, esses pequenos acidentes somados vão acometendo a memória, a forma de andar - os passos ficam mais curtos - e comprometem o equilíbrio. Além disso, o AVC lacunar múltiplo prejudica a deglutição – a pessoa engasga com muita freqüência – e provoca maior labilidade emocional (a pessoa fica mais emotiva). Essas alterações são sutis e vão aparecendo conforme esses pequenos infartos cerebrais ocorrem. Drauzio – Eles podem levar à deterioração progressiva das funções cognitivas, da inteligência, por exemplo? Eli Evaristo – Sem dúvida. O AVC lacunar múltiplo é uma das causas desse prejuízo cognitivo, embora não seja a mais freqüente. Aquilo que as pessoas chamam popularmente de esclerose e nós médicos chamamos de demência pode ser resultado de múltiplos e pequenos infartos ocorridos nos vasos do cérebro. |
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