Dr. Nilson Roberto de Melo é
médico e chefia o Serviço de Planejamento Familiar
do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade
de São Paulo.
Dispositivo intra-uterino Drauzio – Quando o DIU
começou a ser usado como contraceptivo? Nilson Melo – O primeiro relato sobre um dispositivo
intra-uterino elementar foi feito por Avicena, no século VI
d.C. Se as camelas engravidassem durante a travessia do deserto, os
árabes das caravanas morreriam. Então, para evitar que
isso acontecesse, colocavam pedras, que funcionavam como contraceptivo,
no útero desses animais. Depois, no
século XVII, a estratégia era colocar pequenos objetos
no interior ou no colo do útero. Mulheres da nobreza, por exemplo,
podiam ter o útero cravejado de esmeraldas e brilhantes.
Entre 1930 e 1939, simultaneamente, Grafenberg, na Alemanha, e Ota,
no Japão, idealizaram um dispositivo para ser colocado no interior
do útero, mas os relatos de infecção fizeram
com que fosse abandonado durante a Segunda Guerra Mundial.
Na verdade, o grande marco na utilização do DIU moderno
foi o ano de 1960, o mesmo em que a pílula anticoncepcional
começou a ser comercializada. Numa reunião em Nova York,
um pesquisador chamado Oppenheimer mostrou a importância que
o DIU teria na anticoncepção. Nessa época, o
dispositivo idealizado era de plástico e parecia uma serpentina.
Esse plástico continha bário, portanto podia ser radiografado.
Como não existia ultra-som, ser radiopaco era importante para
verificar se não havia nenhuma perfuração no
útero. O DIU possuía, também, uma cauda que ficava
fora do colo uterino e ajudava a ver se estava no lugar.
Drauzio – E os DIUs mais modernos, o que têm
de diferente? Nilson Melo - O DIU moderno feito com cobre foi idealizado
por Jaime Zíper, um chileno ainda vivo. Os antigos eram grandes
e provocavam muita cólica e muito sangramento. A redução
do tamanho e a colocação de cobre afastaram esses inconvenientes
e reduziram a taxa de gravidez. Em forma de T, com 380 milímetros
quadrados de cobre, seu índice de falha está entre 0,5
e 0,6 casos por cem mulheres/ano (imagem 2). Drauzio – Como o DIU é colocado? Nilson Melo – De preferência, o DIU deve
ser colocado no período menstrual por razões bastante
simples. Primeira, porque a mulher não está grávida;
segunda, porque está sangrando e o colo do útero fica
mais amolecido.
Com o histerômetro (hístero significa útero e
metro, medida), o médico mede o comprimento do útero.
Vamos supor que tenha dado 8cm. Como o dispositivo vem acompanhado
de uma escala, ele introduz o DIU no fundo do útero da mulher
respeitando essa medida e retira o êmbolo que utilizou na colocação,
deixando apenas a cauda do lado de fora. O passo seguinte é
verificar se o dispositivo está intra-útero ou não.
Atualmente, esse controle foi facilitado pela ultra-sonografia, uma
técnica mais precisa e segura de observação.
Como a colocação do DIU, às vezes, é um
pouco dolorosa, preconiza-se tomar um antiinflamatório ou antiespasmódico
uma ou duas horas antes.
Drauzio – Não há necessidade
de anestesia? Nilson Melo – Em geral, é colocado sem
anestesia.
Drauzio – Se, um dia, a mulher quiser retirar
o DIU é só puxar esse fio? Nilson Melo – Basta prender o DIU com uma pinça
especial e tracionar que ele sai.
Drauzio – Quanto tempo o DIU pode permanecer
dentro do útero de uma mulher? Nilson Melo – Já foi provado que o DIU
pode permanecer por doze anos no interior do útero com altíssima
eficácia. No entanto, ele pode acarretar alguns inconvenientes
como o aumento do sangramento durante a menstruação
e do período menstrual em torno de um dia. Esses sintomas são
mais comuns nos primeiros três meses. Depois, a tendência
é a normalização do tempo e da intensidade do
sangramento e o desaparecimento da cólica menstrual.
Drauzio – Qual é o preço dos
DIUs modernos? Nilson Melo – Os modernos, feitos de cobre,
custam mais ou menos R$50,00 e a taxa que o médico cobra para
colocá-lo varia de um profissional para outro. Se considerarmos,
porém, que pode ser mantido no útero durante 12 anos,
é um preço ridículo.
Em termos populacionais, ele pode sair para os órgãos
governamentais até por um dólar, porque a quantidade
necessária é tão grande que faz cair o preço.
Se pensarmos o que isso representa para a saúde pública,
é um valor absolutamente irrisório.
Drauzio – Como funcionam os DIUs que contêm
hormônio? Nilson Melo – Os dois principais hormônios
femininos são o estrogênio, responsável pelas
características femininas, como o crescimento das mamas, por
exemplo, e a progesterona, produzido depois da ovulação
para assegurar a manutenção de uma possível gravidez.
O DIU que contém hormônio (registrado pela cor verde
na imagem 3) pode ficar durante 5 anos dentro do organismo da mulher
e o modo de colocação é semelhante ao do tradicional.
Muda apenas um pouco o tipo de aparelho de inserção.
O hormônio que utiliza é derivado da progesterona, chamado
levonorgestrel - por isso, é conhecido como DIU de progestagênio
ou levonorgestrel – e a quantidade liberada dentro do útero
é de 10 a 20 vezes maior do que na corrente sangüínea.
Portanto, sua ação é local e os efeitos colaterais
são mais raros.
Como a progesterona pode tornar mais fina a camada que reveste o útero,
ou seja, o endométrio, a tendência é que de 30%
a 40% das mulheres deixem de menstruar depois de um ano usando esse
tipo de DIU e outros 30% apresentem sangramentos freqüentes que
duram mais do que 14 dias. Portanto, o intervalo entre um e outro
fica reduzido a apenas 15 dias
Drauzio– Qual a vantagem do DIU com hormônio
em relação ao que não contém? Nilson Melo – Por liberar um derivado da progesterona,
em geral, esse DIU melhora as cólicas menstruais, o que é
um ponto a seu favor. Além disso, é indicado para mulheres
com sangramento abundante durante a menstruação, para
as portadoras de miomas ou de endometriose, doença que dificulta
a gravidez, porque provoca a atrofia da camada interna do útero.
Embora o médico não possa prometer a ausência
total da menstruação, ele é adequado para as
mulheres que não querem mais menstruar, pois no final do primeiro
ano de uso, de 30% a 40% delas param de menstruar e, no final do segundo,
essa porcentagem sobe para 50%, 60%.