Aids: Tratamento
Impacto do tratamento
Efeitos colaterais
Início do tratamento
Retirada dos medicamentos
Vírus mutante


Assuntos relacionados a AIDS






BUSCA

Dr. Adauto Castelo Filho, médico infectologista e epidemiologista clínico, é professor de Infectologia na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo.


Retirada dos medicamentos


DrauzioVocê recebe um paciente com 150 células CD4, portanto sujeito a uma série de infecções. O tratamento eleva o número dessas células para 550. Isso permite suspender a medicação por algum tempo ou ela deve ser mantida pela vida afora?
Adauto Castelo – Essa é uma discussão muito importante para entender a magnitude do problema. Quando o médico diz para um homem de 25 anos que terá de tomar anti-retroviral pelo resto da vida, pode estar fazendo uma prescrição por 55 anos, o que é um tempo demasiado longo. Minha experiência mostra que boa parte desses pacientes apresenta fadiga de tomar a medicação em alguns momentos e interrompe o tratamento com ou sem sua anuência. Consciente dessa realidade, nos últimos 6 anos, passei a propor aos meus quatrocentos e poucos pacientes que suspendêssemos a medicação juntos, mas mantivéssemos acompanhamento regular para impedir que as CD4 caiam para a faixa de risco.
Ensaios clínicos controlados mostram que essa conduta é absolutamente segura para indivíduos com número de CD4 acima de 500 e que, de preferência, nunca tenham apresentado contagem inferior a 200. Nesse caso, a interrupção do tratamento faz com que caiam muito rapidamente.
Tenho observado que essa conduta tem alguns aspectos bastante positivos. Primeiro: a possibilidade de viver um período sem tomar remédios é um estímulo grande para a adesão ao tratamento. Segundo: suspender por um certo período remédios que estão longe de serem isentos de toxicidade é uma oportunidade que não deve ser subestimada. Terceiro: num país como o nosso, não é desprezível a redução de custo que isso representa. Por outro lado, jamais saberia que um paciente meu não precisava mais de remédios porque o CD4 nunca ficou abaixo de 500 e tinha imunidade suficiente para manter a carga viral circulante bem baixa se, em 16 de janeiro de 2000, não tivéssemos interrompido juntos o tratamento. Isso não vale para todos. Em três meses, alguns deles chegam à linha de risco, enquanto outros passam seis, oito meses sem necessidade de tomar remédios.
Insisto, porém, em duas recomendações importantes: 1) é arriscado interromper o tratamento de pacientes que chegaram a níveis de CD4 muito baixos; 2) pacientes que interrompem o tratamento precisam repetir o exame de sangue para avaliar o número dessas células a cada dois meses. Como nem sempre o teste está disponível na rede pública, não creio que interromper o tratamento seja conveniente para os pacientes que dependem dela.