Aids: Tratamento
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Dr. Adauto Castelo Filho, médico infectologista e epidemiologista clínico, é professor de Infectologia na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo.


Impacto do tratamento


DrauzioNo início, que impacto as primeiras drogas (AZT, DDI, etc.) contra AIDS usadas isoladamente tiveram na evolução da doença?
Adauto Castelo - O impacto foi muito pequeno. A partir do momento em que era introduzida a medicação, o máximo que se conseguia era aumentar a sobrevida do paciente por cerca de seis meses, talvez um ano, não mais do que isso, quando a resposta era favorável. Ou seja, não havia a perspectiva de mudar o curso da doença com a monoterapia, não só porque não existia o conceito da necessidade de combinar as drogas, mas porque elas não eram suficientemente potentes naquela ocasião e a associação de uma droga com a outra podia ser até antagônica.

Drauzio Quando surgiram as primeiras drogas com a capacidade de reverter o quadro dos doentes em fase final de evolução, foi um momento de glória na Medicina. O que mudou  desde a implantação dos novos esquemas de tratamento?
Adauto Castelo – Uma das poucas coisas das quais nos podemos orgulhar no setor da saúde, neste Brasil de 2006, é a implantação do programa de tratamento da AIDS. Obviamente, não foi um ato nem a decisão isolada de nenhum governo e, sim, a imposição de uma sociedade civil organizada que expôs claramente suas reivindicações e conseguiu a distribuição gratuita das drogas que compunham o coquetel. Não adiantava nada (como não adianta nada até hoje na maioria dos países africanos e asiáticos) dispor de remédios potentes, se os portadores do HIV não tivessem acesso a eles.
Nos congressos internacionais, invariavelmente, o exemplo brasileiro é citado duas ou três vezes nas apresentações iniciais, o que nos enche de orgulho. Às vezes, porém, a facilidade em obter os medicamentos no serviço de saúde faz a pessoa esquecer da luta que foi conseguir esse benefício. Na verdade, muitos dos que se empenharam nessa batalha sequer chegaram a desfrutar de tal conquista.
O impacto do tratamento com a associação de drogas promoveu a mudança de paradigma da doença. Antes era possível apenas postergar o momento da morte. Agora, existem a perspectiva de uma vida muito próxima do normal e a vantagem de que a complexidade dos medicamentos está ficando cada vez menor.