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Esper Kallás é médico infectologista, professor na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, antiga Escola Paulista de Medicina, onde é responsável pelo laboratório de doenças infecciosas. Defendeu tese de doutorado em imunologia de doenças infecciosas na Universidade de Rochester, Estados Unidos.

Boas e más notícias sobre o combate ao HIV

Nos últimos anos, e pela primeira vez desde o início da epidemia, na década de 1980, as notícias sobre AIDS ganharam tom mais otimista graças, principalmente, ao tratamento com antivirais que em muito melhorou as condições de vida dos infectados.

Passado o entusiasmo inicial diante do aumento da expectativa de vida dos soropositivos, as conclusões do último Congresso Mundial de AIDS realizado em Barcelona, neste ano de 2002 levam a crer que a medicina e a ciência estão no caminho certo para o controle da epidemia em médio prazo. Até lá, porém, há fortes indicações de que o quadro epidêmico se agravará.

Atualmente, os índices de contaminação atingem a marca de 15 mil ao dia e devem continuar crescendo. Além disso, já morreram 20 milhões de pessoas em todo o mundo por causa dessa doença e estima-se que haja 40 milhões de infectados.

A situação africana é trágica. Em países como a África do Sul, por exemplo, a epidemia, que continua se alastrando, já provocou redução populacional. Por outro lado, a extrema pobreza do continente como um todo inviabiliza o tratamento com antivirais, uma vez que o custo médio por pessoa varia entre 10 e 15 mil dólares/ano.

A situação é grave também na Índia, na China e nas ex-repúblicas soviéticas, regiões com maiores índices de crescimento do número de casos.

Dados apresentados em Barcelona dão clara idéia das dificuldades a enfrentar. Neste ano, a previsão de gastos dos países pobres com a prevenção à AIDS é de 1.2 bilhão de dólares. O número considerado ideal pelas autoridades no assunto é 4.8 bilhões/ano, uma verdadeira utopia para a realidade econômica desses lugares.

Nesse quadro de poucos recursos, o Brasil é apontado como exemplo a ser seguido. A política de quebra de patentes de remédios e a fabricação de genéricos conseguiu não só baratear os medicamentos como oferecer tratamento gratuito com antivirais. Como resultado, desde de 1996, caiu em 50% o número de casos fatais e as previsões feitas, em 1990, sobre o avanço da doença não se concretizaram. O próprio Ministério da Saúde chegou a afirmar que, em 1992, haveria 1.2 milhão de soropositivos. Dados recentes, porém, apontam para a metade desse número: cerca de 600 mil contaminados no país.

Sob a luz das informações advindas do último congresso mundial, o médico infectologista Esper Kallás faz uma avaliação sobre o desenvolvimento da infecção nestes últimos vinte anos. Nesta entrevista, explica a origem da infecção por HIV no homem, afastando especulações fantasiosas a respeito do assunto. Trata também de conquistas importantes para o tratamento com antivirais e aponta as maiores dificuldades para o controle da epidemia: o crescimento vertiginoso dos casos de mulheres infectadas, a tendência mundial ao relaxamento do uso de preservativos e a necessidade de convencer os pacientes que tomam antivirais a não suspenderem o tratamento para evitar que surjam versões cepas do vírus mais resistentes e com maior poder de transmissão.