Entrevista com Delegado
da Polícia Civil
As entrevistas com detentos apresentam o interior da cadeia da forma
mais crua possível. Porém, quando o objetivo é
ter uma visão geral do mundo do crime e da malandragem, a melhor
coisa é falar com um agente penitenciário ou um policial.
Nessas conversas, pode-se ter noção mais exata dos diferentes
tipos de bandidos reunidos dentro da mesma carceragem. Do pé-de-chinelo,
que nada levou da vida do crime, àqueles profissionais que
podem até passar uma temporada na cadeia, mas o fazem da forma
mais comportada possível para, em seguida, retornar à
liberdade e à “profissão” de assaltante.

Drauzio – Como funciona
a organização para um assalto a banco?
Delegado – Normalmente, um dia antes do assalto
eles vão se recolher cedo, porque é um momento em que
eles estão mais vulneráveis. O encontro é sempre
no nascer do sol, às 5 horas mais ou menos. Esse pessoal trabalha
em cima dos vigilantes da empresa de segurança. Eles são
refinados, até. Dão uma mixaria para o cara que “deu
a fita”, e um abraço. Mas, geralmente, só um tem
acesso às armas. Os outros não sabem onde elas ficam.
Drauzio – Arma é poder?
Delegado – Arma é poder. Então,
apenas um sabe onde estão as armas. Eles usam sempre uma pessoa
de fé, alguma senhora, sobre a qual não paira nenhuma
suspeita, freqüentadora de igreja, viúva, etc. Pagam como
se fosse um aluguel. Pois bem, essa pessoa pega as armas, eles se
encontram e partem para o assalto “trepados”, armados.
Eles são muito ousados, às vezes chegam a armar assaltos
no Norte do país.
Drauzio – E o carro?
Delegado – O ladrão de banco não
rouba carro. Ele paga pelo carro na véspera e só põe
a mão nele naquele momento. Depois do assalto, abandona o veículo
poucas quadras longe do banco. Geralmente, trocam por um carro dirigido
por mulher com uma criança dentro, para despistar. Por isso,
é que as chances de a polícia pegar um bando de ladrões
de banco estão nessas 5 ou 6 horas de duração
de um assalto, desde a preparação até a fuga.
Porque, depois, se eles conseguirem... fica difícil. Eles mudam
para outro Estado, com documento frio, montam algum comércio,
geralmente, em nome de um laranja. São cidadãos respeitáveis.
Drauzio – E como é o trabalho de
vocês num dia de assalto?
Delegado – – Nós ficamos sempre
atentos. Porque você precisa de uma estrutura relativamente
grande para fazer um assalto a um banco. É preciso um caminhão
ou um ônibus e um carro de pinote que, geralmente, é
uma Saveiro ou uma Fiorino. É nessas horas que você consegue
pegá-los. Mesmo assim é difícil porque eles têm
sempre um esquema para não cair em cana. Se for preciso, eles
pulam do carro em que estão fugindo, pegam um ônibus
ou até um avião. Depois, quando estão se estabelecendo
em um lugar, pressentem que a casa pode cair e decidem fugir de novo,
deixando tudo para trás. Eles levam uma vida difícil
também, nós sabemos. Um informante meu dizia que o dinheiro
dele valia pela metade, porque sempre tinha que abandonar alguma coisa
para sair de pinote.
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