Fragmentos das entrevistas que deram origem ao livro







Confira a história
inédita de um
travesti no Amarelo


Crítica do filme









  No Amarelo
  A consulta
  Galega
  Silêncio na
  galeria

 

  Bárbara
  Xalé
  Faustino
 
 



No Amarelo

Conheci Bárbara gripada, de calça justa e um nó na blusa acima do umbigo. Tinha um brinco só, uma borboleta colorida tatuada no pescoço e um morango na nádega esquerda, parcialmente escondido pela calcinha de renda.

Foi no lugar mais lúgubre do Carandiru: o Amarelo, galeria escura de paredes úmidas, com vinte celas de cada lado do corredor central, no último andar do Pavilhão Cinco. Para lá vão os marcados para morrer, gente que desrespeitou as leis do crime: estupradores, delatores, uma multidão de craqueiros insolventes e ladrões que ludibriaram comparsas ou deitaram na cama da mulher de algum companheiro preso.

No Amarelo, as celas têm dois metros e pouco de largura por três metros de comprimento e ficam trancadas as vinte e quatro horas do dia. O visitante que vem pela galeria não tem acesso visual ao interior. A porta de entrada é de ferro maciço, com um pequeno guichê central fechado por dentro. Através dele, a malandragem esgueira a cabeça para bisbilhotar, trocar uma idéia cara a cara com o vizinho e passar mercadoria pelo fio de barbante.

A pintura encardida das celas exibe as manchas das cabeças que nela encostaram. No alto da parede oposta à porta, meia dúzia de grades grossas constitui o único acesso ao mundo exterior. A paisagem são as janelas das outras três faces que completam o quadrilátero interno do pavilhão e um pedaço de céu no alto.

Naquela época, cumpriam pena no Amarelo quase seiscentos homens para lá transferidos por livre e espontânea vontade. Sete, oito, doze, às vezes, num espaço restrito, nublado de fumaça de cigarro. Ociosos, sentados no chão durante o dia e deitados em colchonetes de espuma à noite; um corpo para lá, outro para cá, invertidos, a cabeça de cada um voltada para os pés do companheiro, porque dois malandros jamais dormem com os rostos virados um para o outro.

Sol, apenas aos sábados, das oito ao meio dia. Nesse dia, o pavilhão inteiro amanhece fechado para que eles possam descer ao pátio sem risco. Mesmo assim, muitos abrem mão desse direito, preferem continuar trancados. São homens precavidos, empenhados em sair com vida da cadeia.

Às segundas-feiras, com o auxílio do enfermeiro voluntário Paulo Preto, homem livre como eu, e do Faustino, um preso do Amarelo, eu atendia os habitantes do setor. Quando chegávamos ao quinto andar, um funcionário abria as duas portas que dão acesso à galeria central e nos trancava lá dentro. À noite, para sair, gritávamos para ele trazer as chaves.

A consulta

Atendíamos num cubículo da galeria central, logo na entrada do Amarelo. Cabia uma mesinha bamba encostada no fundo e três bancos toscos: um para mim, outro para o Paulo Preto e um terceiro para o doente. Não havia privacidade, a porta permanecia aberta por causa do calor abafado. Faustino pegava o monte de fichas médicas e postava-se à soleira da porta. Na galeria, três ou quatro de seus auxiliares organizavam a fila, mandavam apagar o cigarro e abaixar o volume das vozes. Os doentes eram disciplinados. Esperavam o convite para sentar e expor suas agruras: coceira de sarna, feridas purulentas, febres, tosses e sofrimentos do espírito. Na maioria, garotos de vinte a trinta anos com os dentes estragados e o corpo marcado de tatuagem e cicatriz de cirurgia.

Bárbara, gripada, apareceu para me consultar numa tarde de verão. Não veio só, antecedia-a, cerimonioso, Xalé, um ladrão de caminhão de carga, mulato, três correntes de ouro no pescoço. Na soleira, ele e Faustino cochicharam poucas palavras. O pernambucano esperou o ladrão que estava sendo atendido sair e fez Xalé entrar. Bárbara veio atrás dele, com a unha do indicador entre os dentes, feito colegial. Era alta, de olhos azuis e queixo comprido.

O ladrão de carga me apertou a mão com um sorriso desajeitado e perguntou se eu faria a gentileza de atender a moça. Pedia desculpas por trazer alguém que não morava no Amarelo, mas a jovem havia passado a noite em claro, de tanto que tossia. Falou e se retirou rápido, deixando a impressão de que o pedido lhe trazia embaraço.

Bárbara sentou no banco à minha frente. Faustino pediu licença, trancou a porta e esperou do lado de fora. Ficamos ela, Paulo Preto e eu. Tinha dor no tórax e os pulmões carregados de secreção. Receitei antibiótico e uma injeção de analgésico que eu mesmo apliquei. Assegurou que eu podia injetar sem medo, pois ela era natural, nem uma gota de silicone nas nádegas, só um pouco na face e nos seios. Quando a agulha penetrou acima do morango tatuado, ela deu um gritinho estridente. Só de aflição, conforme fez questão de ressaltar.

Passado o quadro gripal, Bárbara voltou muitas vezes. Nunca sozinha. Xalé acompanhava-a até a porta, mas não entrava; deixava-a aos cuidados de Faustino, que repetia o ritual de passá-la à frente de quantos houvesse na fila, trancar a porta e ficar do lado de fora.

A consulta médica constituía rara oportunidade para Bárbara sair do xadrez. Passava os dias de porta fechada, folheando revistas femininas, esmaltando as unhas, tricotando um tapete interminável, cuidando da coleção de artistas grudados na parede e cozinhando coisas gostosas para quando o marido chegasse. No começo, reclamava da solidão, sentia-se presa duas vezes. Mas Xalé insistia em que lugar de mulher de cadeia casada era dentro do xadrez, para evitar derramamento de sangue. Com o tempo, ela se conformou. Afinal, um ladrão que não lhe deixava faltar nada tinha direito de ser exigente.

Não viviam juntos. Homens de respeito podem visitar mulheres de cadeia em seus xadrezes; morar com elas, jamais! A menos que não se importem em colocar a masculinidade sob suspeita.

Bárbara era a primeira-dama do pavilhão. Só podia receber visitas de duas ou três companheiras do quarto andar. Das outras, Xalé não gostava; acusava-as de serem sem-vergonhas, loucas para fofocar sobre a vida alheia. Em relação aos homens, o respeito era total. Não havia malandro que não baixasse o olhar diante dela. Até mesmo Faustino, homem de confiança de Xalé.

Galega

Um dia, uma novata conhecida como Galega veio parar na cadeia. Foi morar a quatro celas do xadrez de Bárbara. Chegou precedida por sua fama de mulher perfeita, modelo na Itália, cobiçada em todos os distritos policiais por onde passou. Diziam que tinha muita classe.

Galega chegou na cela com duas sacolas de plástico, sentou na cama e caiu num choro convulsivo diante das companheiras. Inconsolável! Jurava que iriam matá-la naquela noite. Não tinha como escapar. Diante de tamanho desespero, foram chamar Xalé, o único com autoridade capaz de acalmá-la.

Xalé entrou no xadrez e a encontrou em prantos, com o rosto escondido entre as mãos. Parou ao lado dela, as outras se retiraram e encostaram a porta. Ofereceu-lhe o lenço e esperou acabar a choradeira. Ela, então, contou ter passado dois anos casada com um traficante na cadeia de Barueri. Davam-se bem, a união só terminou porque ele foi transferido para o Pavilhão Oito do Carandiru. Depois de três meses sozinha, ela se casou com outro. Agora viera parar na mesma cadeia do marido enciumado. Tinha certeza de que ele viria matá-la naquela noite.

Xalé recomendou que ficasse tranqüila, o malandro rejeitado não ousaria invadir o pavilhão para fazer-lhe mal. Galega enxugou os olhos e perguntou se, caso ela lhe revelasse uma coisa muito íntima, ele seria capaz de guardar segredo. Contou que havia feito uma operação para mudar de sexo, na Itália. Essa cirurgia era o inferno da vida dela, na prisão. Os homens enlouqueciam!

Ainda em pé diante dela, Xalé pediu para ver. Ela estranhou, ver como? Ele foi claro: se ia protegê-la, custava mostrar o sexo? Galega abaixou a calça e tirou a calcinha.

Dias depois, uma amiga apareceu no xadrez de Bárbara. No meio da conversa, perguntou como andava o casamento. Ela respondeu que ia bem, embora as visitas dele tivessem rareado porque andava muito ocupado. Também, pudera, tanta patifaria naquele pavilhão! A amiga, com o rosto disforme pelo deslocamento do silicone barato, contou condoída que a ocupação do encarregado-geral era outra: a Galega, aquela putinha. Xalé não saía do xadrez dela.

Bárbara correu enlouquecida atrás da outra. Encontrou-a debruçada na pia do xadrez, aplicando tintura ruiva no cabelo. Agarrou-a pelos cabelos molhados, as duas rolaram pelo chão com o vidro de tintura. A galeria se encheu de curiosos. Xalé não estava entre eles. Avisado do tumulto, mandou dizer que não se metia em briga de mulher.

Três dias depois, ele apareceu no xadrez de Bárbara. Ela virou o rosto arranhado para a parede. Ponderado, como sempre, Xalé pediu que ela não ficasse triste, homem era assim mesmo. Ele continuava gostando dela, mas não era de ferro. Que diferença fazia se tivesse outra? Nada faltaria para Bárbara. Em seu coração só havia espaço para ela. No entanto, se preferisse ficar sozinha, normal, ele saberia compreender, mas ela teria que viver por conta própria. Não tinha cabimento separarem-se e a ex-mulher continuar no xadrez de propriedade dele. Definitivamente, caridade não era seu negócio, explicou.

Bárbara havia nascido vinte e sete anos antes, na periferia de Belo Horizonte. Aos quinze anos, começou a tomar hormônio feminino e fugiu da casa dos pais evangélicos com uma amiga mais escolada. Foram parar em Palmas, no Tocantins, trabalhar na prostituição. Quando percebeu que ali não teria futuro, veio para o Sul, de carona num caminhão. Na estrada, ao avistar São Paulo, o motorista lhe disse que tomasse cuidado naquela terra filha da puta. Ali não se podia confiar em ninguém. Mais tarde, ela daria valor ao conselho, conforme contou.

Várias vezes, foi presa por vadiagem, posse de droga e pequenos furtos, até matar um senhor de terno cinza que tentou jogá-la para fora do carro, sem pagar. Foi condenada a dezoito anos de cadeia.

Bárbara admitia ter nascido para o casamento. Gabava-se de não lhe haver faltado marido nas cadeias por onde passou e de que suas uniões eram estáveis. Só terminavam quando o consorte era libertado e não retornava para visitá-la. Contava esses casos com voz sensual, abaixando os cílios longos, repetidas vezes, para aparentar doçura.

Xalé tinha um desses sorrisos que expõem a alma da pessoa. A mãe, dona Zelinda, tinha criado cinco filhos sozinha, com o salário de doméstica, na Zona Norte de São Paulo. De todos os filhos, tinha sido justamente em Xalé, o mais velho, que ela havia depositado suas melhores esperanças. No final, acabou sendo ele o único a enveredar pelo caminho do crime. Religiosa, dona Zelinda fez de tudo para afastá-lo dessa vida, mas acabou convencida de que o destino do filho era aquele e permaneceu a seu lado, o tempo todo. Para vê-lo na prisão, madrugava na porta com as sacolas de comida, sem faltar um domingo sequer, até que a morte a colheu de surpresa no vagão de um trem lotado.

Xalé era o encarregado-geral da Faxina do Pavilhão Cinco.

Na rotina diária, os faxineiros distribuem as três refeições de xadrez em xadrez, lavam a galeria, a escadaria e o pátio para as visitas do final de semana. Para ser admitido na Faxina é preciso anuência do grupo, a administração não tem o poder de fazer indicações. Tradicionalmente, por necessidade de organização, o grupo elege um encarregado-geral para comandá-lo. Eleito por mais de duzentos companheiros, esse homem é aceito por todos como o líder inconteste do pavilhão. Desafiar sua autoridade é enfrentar o exército que o escolheu para chefiá-lo. Aliás, chamar um encarregado-geral de chefe não o lisonjeia, ao contrário: para a malandragem, quem tem chefe é índio.

Se alguém quiser matar o inimigo, cavar um túnel, extorquir o companheiro, fazer entrar uma partida grande de crack, cobrar dívida com violência, torturar estuprador ou decidir de quem é o direito de posse de determinado xadrez, qualquer acontecimento extraordinário, por mais irrelevante que possa parecer, deve contar com a aprovação prévia do encarregado-geral. É com ele que a administração negocia em caso de abalo na ordem interna.
 
Na entrada, Faustino estava invariavelmente à nossa espera e demonstrava alegria em nos encontrar. O prazer era mútuo, conseqüência de vários anos de colaboração respeitosa. Ele já havia cumprido dezoito anos de uma pena de trinta e sete, por haver mutilado um conterrâneo de Pernambuco, entre outros crimes sobre os quais mantinha absoluto silêncio.

No dia da agressão, Faustino vinha de braço dado com a mulher quando um desafeto encorpado saiu do bar com um faca na mão, disposto a cobrar uma pendência antiga. Faustino não se acovardou, mas a mulher entrou em pânico, a gritar por socorro. Sem saber se a acudia ou enfrentava o inimigo, Faustino se distraiu e levou uma facada no peito, dada com força, para pegar no coração. Sangrando muito, saiu correndo com a mulher. O outro não se deu ao trabalho de persegui-lo. Faustino deixou a mulher em casa e, com a desculpa de que precisava fazer curativo no hospital, voltou à cena do crime, enfraquecido pelo sangramento. O inimigo, com o copo de pinga, contava vantagem no balcão. Faustino parou diante dele, com a camisa empapada de sangue e as mãos na cintura, desarmadas. O conterrâneo riu, puxou a faca e perguntou que desgosto profundo ele havia tido na vida para fazer tanta questão de morrer. Sem mover um músculo do rosto, Faustino puxou o revólver e atirou na coxa do outro. Ato contínuo, obrigou-o a ajoelhar-se para continuar vivo. O pernambucano obedeceu, suplicante. Faustino, pegou o ferro de abaixar a porta do bar e desferiu uma pancada seca na cabeça do adversário humilhado. O rapaz perdeu os sentidos. Munido da mesma faca que havia pretendido ferir-lhe o coração, Faustino cortou fora os dois antebraços do adversário, à altura dos cotovelos. Terminada a amputação, voltou-se para os fregueses silenciosos no fundo do bar e declarou que não havia tomado aquela atitude por mal, fizera-o apenas para evitar que aquele sem-vergonha voltasse a esfaquear outra pessoa.
 
Silêncio na galeria

Meses depois, num dia de chuva torrencial, Paulo Preto e eu chegamos ensopados na cadeia. Faustino não nos esperava no quinto andar contra o escuro da galeria. O funcionário abriu a porta: Chiquinho, Marcelo, Dentão e Morcego, os presos que ajudavam com os doentes, formavam uma roda ensimesmada na porta da sala de atendimento. A galeria em silêncio. Mau sinal.

Na noite anterior, depois que os xadrezes foram trancados, Bárbara pediu para um carcereiro amigo levá-la à cela de Faustino. Precisava tomar uma injeção para dor, urgente, não agüentava mais! Parece que demorou mais do que devia no xadrez do enfermeiro. Dizem que não era a primeira vez que o fazia. Só que desta vez cometeu a imprudência de confidenciar a uma amiga querida.

Pela manhã, Faustino recebeu recado para atender um asmático crônico, no terceiro andar. Quando entrou no xadrez, o enfermeiro não encontrou o doente acamado. Deve ter pressentido o que estava para acontecer, porque voltou-se rápido para sair. Seus olhos perceberam, nesse momento, que não havia saída: doze homens com facas fechavam a passagem. Disse a eles que, tudo bem, aceitava o final, só não queria morrer esfaqueado como porco. Com uma corda ágil no pescoço, atenderam-lhe o último desejo.

Desci com o Paulo Preto. Faustino jazia na galeria rodeado por homens em silêncio, como costumam se comportar diante da morte. Tinha a expressão congestionada e os olhos arregalados. No pescoço, a marca do laço fatídico.

Então, o cabelo branco de Jacinto abriu caminho entre os que contemplavam o falecido. O velho maconheiro se ajoelhou ao lado do corpo do vizinho de vila, cerrou-lhe os olhos, cruzou-lhe as mãos sobre o peito e nelas enrolou um terço de contas brancas. Fez o sinal-da-cruz e saiu de cabeça baixa pela galeria.