| "A faxina é a espinha dorsal da cadeia. Além
do trabalho braçal de distribuir as três refeições
do dia e de organizar a limpeza diária dos pavilhões,
seus membros são responsáveis pela manutenção
da ordem dentro da cadeia, pelas negociações entre partes
rivais e, quando não há outra saída, também
têm o poder de dizer quando e como alguém deve morrer.
Drauzio – Como funciona a faxina? Existem
quantos “faxinas” por pavilhão?
Faxina – Bem, aqui tem 300 pessoas.
Drauzio – No pavilhão inteiro?
Faxina – No pavilhão inteiro. A rotina
deles é uma só: “pagam” o café da
manhã, a bóia e a janta.
Drauzio – Como é que um cara entra
na faxina? Se eu chego aqui, preso, e digo que quero trabalhar na
faxina, eu sou aceito?
Faxina – Não, não é assim.
É de uma forma barganhada. Tem que ser uma pessoa de atitude,
uma pessoa que, se por acaso tiver de matar um ou dois, ela vai mandar
matar. É uma função, dentro da cadeia, das mais
perigosas. É uma máfia, tipo uma família, entendeu.
Mexer com um é mexer com todos.
Drauzio – E como é que o cara chega
a chefe? Como se sobe na hierarquia? Por que não são
todos iguais na faxina, não é?
Faxina – Não, de jeito maneira. É
tipo um exército, cada um exerce um grau acima ou abaixo do
outro. O chefe da faxina, primeiro, precisa ter cacife, ele tem que
ter uma situação verbal boa. Mas hoje em dia está
cada vez mais difícil encontrar ladrão de palavra na
cadeia. Porque alguns confundem a profissão com a vida, com
a relação com os companheiros. Eu sou ladrão
na minha vida, mas não sou malandro. Eu vejo uma rapaziada
de 18, 19 anos que não respeita ninguém. Outro dia,
mesmo, estavam fumando crack na frente das visitas. Tem muito réu
primário no sistema. Eles não têm o mesmo tratamento
que os ladrões mais velhos.
Drauzio – Um homossexual pode entrar para
a faxina?
Faxina – Não, não tem condições.
Porque tem que ser tipo um gladiador, mesmo. Uma pessoa que não
pode deixar dúvidas sobre seu andamento. Ele não pode
ir para o seguro ou fazer dívida de droga, por exemplo. O faxina
tem que ser respeitado. Às vezes, até recebe uns presentinhos
por causa disso.
Drauzio – A faxina também faz a
mediação de problemas, não é verdade?
Faxina - Faz, sim. É quase impossível,
dentro deste lugar, agradar a gregos e troianos. Mas eu procuro, com
aquele jogo de cintura, agradar uns, agradar outros e agradar a mim
mesmo que é o mais importante, né. Então, eu
fico só urubusservando, como eu digo, as pessoas com quem posso
contar, porque dentro da faxina tem todo tipo de pessoa. Tem o malandrão,
o malandrinho, aquele que se alguém matar vai segurar o crime.
Tudo isso tem que ser pensado pelo faxina na hora de tomar uma decisão
que envolva as vidas dos seres humanos.

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