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Mercurocromo, Merthiolate e outras crenças
O que arde cura, dizia minha avó. Com o dito,
justificava o ardor causado pelo álcool que ela derramava na
carne viva dos meus machucados. Depois, assoprava, espalhava mercurocromo,
e eu voltava para o futebol da rua com a canela pintada de vermelho.
Nessa época, a popularidade do mercurocromo era enorme. Dos esfolamentos
superficiais aos cortes profundos, a recomendação era
unânime: corre para passar mercurocromo.
Mais tarde, surgiu o Merthiolate e abalou a hegemonia do mercurocromo.
Era um pouco menos vermelho, é verdade, mas em compensação
vinha com uma pazinha de plástico grudada na parte interna da
tampa, pronta para aplicar o líquido diretamente na ferida.
Além disso, o Merthiolate ardia feito fogo. Tivesse minha avó
vivido um pouco mais, sem dúvida teria abandonado o mercurocromo
e aderido ao Merthiolate.
Embora essas duas preparações dominassem o mercado dos
"desinfetantes de ferimentos" por muitos anos, é bom
lembrar que concorrência não lhes faltava: água
oxigenada, álcool canforado, água boricada, arnica, pó
de café e uma infinidade de pomadas como a Maravilha Curativa
do Dr. Humphrey, Minâncora, Hipoglós e muitas outras, que
povoavam os armários dos banheiro para atender à demanda
dos acidentes domésticos.
Quando o Ministério da Saúde resolveu proibir produtos
que contêm mercúrio em sua formulação, o
leitor reclamou no jornal: "Que mal pode haver neles, se minha
avó já os usava?".
Sem querer menosprezar a sabedoria da avó de ninguém -
muito menos a da minha -, é preciso dizer que, apesar de serem
mulheres prendadas, prestimosas, que nos encheram de carinho, nossas
vovós não entendiam nada de bacteriologia. Não
sabiam que as bactérias mais agressivas são capazes de
crescer no vidro de mercurocromo e que a pazinha de Merthiolate que
pincelou o machucado traz para dentro do recipiente bactérias
que sobreviverão até serem semeadas na ferida seguinte.
A conduta atual diante de esfolamentos, arranhões, cortes superficiais
ou profundos pode ser resumida em duas palavras: água e sabão!
E mais nada.
Se o ferimento for superficial, basta lavá-lo com água
corrente por alguns minutos para retirar completamente os resíduos
aderidos a ele e esfregar delicadamente com sabão. Do mais caro
sabonete ao sabão do tanque, todos servem; não faz a menor
diferença. O importante é esfregar até fazer bastante
espuma, sem pressa.
Se o ferimento for mais profundo, com perda de sangue, o procedimento
deve ser exatamente o mesmo, porém precedido por compressão
do local com um pano limpo até estancar o sangramento. Nunca
se deve aplicar torniquete, colocar pó ou pomada no local, mas
apenas comprimir o tempo necessário para estancar o fluxo sanguíneo.
Depois, água farta e sabão à vontade para matar
as bactérias.
No caso das queimaduras, também não passe nada: coloque
a área queimada numa bacia com água na temperatura ambiente
ou diretamente embaixo da torneira por cinco minutos ou mais. Só
isso! Nunca passar pomada, manteiga, esfregar no cabelo e muito menos
aplicar gelo. As pomadas para queimadura podem provocar reações
alérgicas ou aderir firmemente ao local, causando mais sofrimento,
e o contato direto do tecido queimado com o gelo só serve para
agravar o dano às células. Se surgirem bolhas no local
queimado, não as fure! Deixe que o líquido nelas contido
seja absorvido naturalmente.
Existe apenas uma situação em que os especialistas recomendam
fazer curativo em queimadura: quando a área lesada é mais
extensa e dolorosa. Nesses casos, cobrir a região queimada com
um pano limpo pode aliviar a dor. Para evitar que o pano grude nos tecidos
queimados, o local deve ser previamente coberto com uma fina camada
de vaselina.
Essas medidas simples evitam complicações infecciosas,
alergias, podem ser adotadas imediatamente no próprio local em
que o acidente ocorreu e custam muito barato. Por isso vá até
o armarinho do banheiro e jogue no lixo todos os desinfetantes para
ferimentos e pomadas para queimadura.
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