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Genética
Intolerância ao leite
Ver o filho tomar um copo de leite faz a alegria da mãe,
seja qual for a idade de ambos. Essa fama nutricional do leite obedece à lógica
de aparência cristalina: somos animais mamíferos. Além
disso, ele é um bálsamo para o estômago incendiado
por excessos alimentares, alcoólicos ou nicotínicos. Para
arrematar, é fonte inigualável de cálcio, indispensável
para a formação do esqueleto e para impedir que mais tarde
a osteoporose acabe com ele.
Os vegetais, principalmente as verduras de folhas escuras, como o brócolis,
podem fornecer 250 miligramas de cálcio diárias para quem
faça uso generoso deles. Mas, essa quantidade é insuficiente
para as exigências do organismo: um grama por dia. Como um copo
de leite, iogurte ou uma fatia de queijo contém de 250 a 300 miligramas,
com os laticínios fica mais fácil atender aos reclamos
da fisiologia.
Por outro lado, certas filosofias dietéticas avessas às
demandas da metodologia científica contra-indicam a ingestão
de leite e derivados, com o argumento de que nenhum outro mamífero
o faz na vida adulta. De fato, mamíferos adultos não costumam
mamar, porque não aprenderam as técnicas de pecuária
que nossa espécie domina há nove mil anos.
Mas, por mais esdrúxulas que possam parecer essas filosofias,
cabe reconhecer que cerca de 50% da população adulta mundial
apresentam cólicas abdominais, flatulência e diarréia
ao ingerir leite. Esses casos são especialmente freqüentes
entre asiáticos e habitantes do leste africano.
Para digerir a lactose existente no leite, o organismo depende da presença
de uma enzima, a lactase, sob a ação da qual a lactose é quebrada
em açúcares de moléculas menores. Durante a fase
de amamentação, todos os bebês produzem lactase em
quantidades adequadas, capacidade que será perdida pelos que se
tornarão intolerantes ao leite no futuro.
A capacidade de digeri-lo na vida adulta surgiu graças a mutações
nos genes que silenciam a lactase. Com a domesticação do
gado, numa época em que a fome vivia à espreita, nossos
antepassados portadores dessas mutações levaram a vantagem
do acesso fácil a um alimento de alto teor calórico que
lhes aumentava a chance de sucesso reprodutivo.
Cinco anos atrás, foi identificada uma mutação genética
que regula a expressão de lactase, responsável pela boa
digestão de leite em adultos finlandeses e outros europeus do
norte.
Curiosamente, a mesma mutação aparecia em freqüência
bem menor em povos com dietas ricas em laticínios, como os do
Oriente Médio e do sul da Europa, e estava ausente na maioria
das populações africanas que se dedicam ao pastoreio.
Atualmente, um grupo liderado por Sarah Tishkoff, da Universidade de
Maryland, colheu amostras de sangue de 470 habitantes da Tanzânia,
Quênia e Sudão, pertencentes a 43 grupos étnicos
distintos, para estudar os genes responsáveis pela expressão
de lactase.
Os resultados, que acabam de ser publicados na revista Nature Genetics,
revelaram a presença de três mutações distintas
no mesmo fragmento da molécula de DNA em que ocorre aquela diagnosticada
nos europeus do norte.
Em seus portadores, a ingestão de leite era acompanhada por aumento
das taxas de açúcar no sangue, demonstração
indireta da capacidade de digerir lactose.
As mutações descritas foram detectadas em freqüências
variáveis nos africanos testados; a maioria deles apresentava
apenas uma, mas outros chegavam a ter duas e até mesmo as três.
Através de técnicas de análise comparativa de DNA,
os geneticistas calcularam que essas variações surgiram
no continente africano num período de 3.000 a 7.000 anos atrás.
Seus portadores levaram tanta vantagem nutricional e reprodutiva que
elas se disseminaram rapidamente na população, no melhor
estilo darwinista.
Os achados sugerem que podem existir outras mutações ainda
desconhecidas e que a habilidade de digerir leite não é simples
questão de ser capaz ou não. A herança genética
responsável por ela é mais complexa do que se imaginava,
e pode explicar os diferentes graus de tolerância a que os adultos
se referem quando tomam um copo de leite.
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