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Inimigo traiçoeiro
Em São Paulo, estamos cada vez mais obesos;
no Brasil, também.
Pesquisa conduzida pela Secretaria Estadual da Saúde, resumida
no jornal Folha de São Paulo pelo jornalista Ricardo Westin,
mostra que, em 14 anos, o número de homens obesos na cidade aumentou
97,3% e que, entre as mulheres, o aumento foi pouco menos alarmante:
61,3%.
Os números foram colhidos com base em dois levantamentos realizados
entre homens e mulheres com idade entre 15 e 59 anos: o primeiro em
1987 e o outro no período 2001/2002. Os participantes tiveram
a circunferência de suas cinturas medidas à altura do umbigo
e o peso corpóreo anotado para o cálculo do Índice
de Massa Corporal (IMC).
O IMC é um índice calculado dividindo-se o peso pela altura
elevada ao quadrado (IMC= Peso / altura x altura). Genericamente, consideramos
obesas as pessoas com IMC superior a 30 e como portadoras de sobrepeso
aquelas com IMC na faixa entre 25 e 29,9.
Em 1987, no primeiro inquérito, 6,1% dos homens paulistanos eram
classificados como obesos; em 2001/2002, a porcentagem subiu para 12,4%.
Já para as mulheres, os índices foram de 9,3% para 15%,
respectivamente.
Nesses14 anos, o número de homens com IMC na faixa do sobrepeso
aumentou de 28,3% para 35,5%. Entre as mulheres, diminuiu de 27,8% para
22,9%.
Tomados em conjunto, os índices mostram que 48% dos homens e
38% das mulheres paulistanas estão acima da faixa de peso saudável.
Conseqüências nefastas
Engordar não é privilégio dos paulistanos, entretanto.
De 1989 a 1997, a proporção de chineses com sobrepeso
duplicou nas mulheres e triplicou nos homens. Segundo a Organização
Mundial da Saúde (OMS), existe no mundo mais de 1 bilhão
de adultos com sobrepeso e 300 milhões com obesidade.
Por aumentar o risco de diabetes, hipertensão arterial, doenças
cardiovasculares, doenças articulares, distúrbios psiquiátricos
e de certos tipos de câncer, a OMS considera a obesidade uma das
dez maiores ameaças à integridade da saúde no mundo
e uma das cinco principais nos países industrializados. Estudo
recente conduzido pelo Rand Institute concluiu que a obesidade está
mais intimamente ligada ao aparecimento de doenças crônicas
do que viver na pobreza, fumar ou beber. Os autores desse estudo calculam
que o fato de ser obeso implica envelhecimento precoce equivalente a
20 anos.
Tendência genética
Vistos no passado como indivíduos preguiçosos e glutões,
as pessoas obesas são consideradas pela medicina moderna como
portadoras de genes que favorecem a obesidade num ambiente de fartura
alimentar. Na verdade, a herança da tendência à
obesidade não é diferente daquela que explica porque existem
pessoas altas e outras de baixa estatura.
Os genes envolvidos na obesidade controlam a produção
de moléculas que, por meio de mecanismos neuroendócrinos,
regulam o balanço energético do organismo.
Para dar idéia da complexidade desse equilíbrio, basta
lembrar que uma pessoa ingere em média 10 milhões de calorias
durante uma década. Se pretender manter o peso constante nesse
período, ela será obrigada a ter um gasto energético
que permaneça no limite de 0,17% das calorias ingeridas. Isto
é, não deve ficar aquém nem ultrapassar o total
de 17 mil calorias nesses dez anos (cerca de cinco calorias por dia).
Não há qualquer evidência de que sejamos capazes
de atingir essa precisão extraordinária através
de mecanismos conscientes.
Mecanismo da fome
Comer é um comportamento motivacional complexo que obedece à
ação de vários hormônios (lepitina, insulina,
grelina, PYY, etc.), a desejos conscientes, a fatores sensoriais como
cheiro, gosto e estímulo visual, ao estado emocional e outros.
O estímulo da fome é, provavelmente, tão intenso
quanto o da sede.
Graças à eficácia dessas ações bioquímicas,
a espécie humana sobreviveu a 5 milhões de anos de escassez
alimentar. No decorrer deles, nosso organismo aprendeu a disparar mensagens
moleculares irresistíveis toda vez que emagrecemos: o metabolismo
basal cai dramaticamente, e surgem estímulos potentes para consumirmos
mais alimentos.
Ao contrário, quando engordamos, os sinais opostos são
quase imperceptíveis: não há aumento significativo
do metabolismo basal, nem estímulo para aumentar a atividade
física, nem perda de apetite. Indiferente aos padrões
da moda, o corpo protege seus depósitos de gordura com unhas
e dentes com o objetivo de manter ou retornar ao maior peso já
atingido.
Tal sabedoria adquirida em tempos de penúria ficou traiçoeira
em época de fartura.
Embora existam redes de neurônios que integram os sinais responsáveis
pela necessidade bioquímica de comer com centros cerebrais superiores,
a partir dos quais podemos expressar a vontade consciente de ingerir
menos alimentos, a balança pende descaradamente a favor do controle
involuntário do apetite.
A biologia, no entanto, não consegue explicar a epidemia mundial
de obesidade que se instalou nos últimos 30 anos: o ambiente
exerceu papel decisivo. A atual possibilidade de viver sentado e a disponibilidade
de alimentos densamente calóricos são fatos novos, sem
paralelo na história da humanidade.
Num mundo sedentário, com alimentos deliciosos ao alcance da
mão, considerarmos a obesidade um problema de caráter
é pura ignorância. Perder peso é empenhar-se numa
batalha contra a biologia da espécie humana. Só os obstinados
são capazes de vencê-la.
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