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A fonte maligna da juventude
As células malignas, em sua loucura irresponsável,
guardam o segredo que mais gostaríamos de descobrir.
Na célula-ovo que deu origem a cada pessoa, reuniram-se os 30
mil genes característicos da espécie humana: metade chegou
com o espermatozóide, e a outra os aguardava no óvulo
da mãe. Nele, os genes maternos formaram pares com os paternos,
ordenadamente, para codificar, uma por uma, todas as características
responsáveis pelo que somos.
Ao se preparar para a primeira divisão da vida, essa célula
primordial tratou de copiar os 30 mil pares de genes para dividi-los
em dois pacotes iguais: um para cada célula-filha. Estas, sucessivamente,
fizeram novas cópias dos 30 mil genes e se dividiram quatro,
oito, 16, 32 vezes e, assim, até chegar aos 70 bilhões
de células do organismo adulto, contendo cada uma delas o pacote
completo de instruções armazenadas nos 30 mil genes que
herdamos dos pais.
Se todas as células contêm os mesmos genes (todos), o que
faz uma célula da pele ser diferente de uma do pâncreas
ou de um neurônio cerebral?
Já nas primeiras fases do embrião, são liberadas
substâncias que vão agir especificamente em cada grupo
de células, nelas ativando certos genes e apagando a expressão
de outros. Numa orquestração impecável, cada célula
migra para um local determinado do embrião, onde passará
a exprimir exclusivamente os genes necessários para o exercício
de sua futura função. Nas que formarão a pele,
é ativado o gene responsável pela produção
de queratina, proteína importante para revestir e impermeabilizar
a superfície do corpo, e silenciado o gene que as obrigaria a
produzir insulina, por exemplo. No pâncreas, acontece o oposto:
o gene da insulina é ativado e o da queratina, amordaçado.
O mesmo processo de divisão celular prossegue depois do nascimento,
para a renovação permanente dos tecidos do corpo: copiar
os genes todos e distribuir o pacote completo para cada célula
nova. Como durante a divisão celular podem ocorrer espontaneamente
pequenos erros (mutações) inerentes a qualquer mecanismo
de cópia, nossas células dispõem de mecanismos
de reparação muito eficazes para impedir que as células-filhas
nasçam diferentes da que lhes deu origem.
Por questão probabilística, o passar dos anos e a exposição
a agentes químicos ou físicos, no entanto, podem provocar
mutações sucessivas nos genes de determinada célula
impossíveis de serem reparadas. A imensa maioria dessas mutações
desconcerta o funcionamento celular de tal forma que se torna incompatível
com a vida: a célula morre e é eliminada.
Ocasionalmente, porém, algumas mutações se acumulam
justamente nos genes que controlam o mecanismo de divisão celular.
Há genes que ativam a divisão das células normais
(são os oncogenes) e outros que se contrapõem à
ação deles: bloqueiam o processo de divisão (são
os genes supressores). A ação ajustada desses dois grupos
de genes é que mantém o equilíbrio preciso entre
o número de células que morrem e que nascem todos os dias
em nosso corpo.
A transformação maligna ocorre quando se acumulam determinadas
mutações nos oncogenes, que ativam a multiplicação
celular, ou nos genes supressores, que deveriam silenciá-los.
Nessas condições, a célula passa a multiplicar-se
excessivamente como se tivesse voltado ao estágio embrionário,
mas sem o controle harmonioso que existia nessa fase. O resultado é
a formação de um agrupamento microscópico de células-filhas,
clones da mãe desvairada que lhes deu origem.
À medida que as divisões prosseguem e as células
que nascem se empilham desordenadamente umas sobre as outras, no entanto,
a nutrição se transforma num problema crucial. Para resolvê-lo,
as células malignas produzem proteínas capazes de atrair
a formação de novos vasos sanguíneos em sua direção.
Em pouco tempo está formada uma rede de capilares que irrigam
o tumor microscópico, garantindo-lhe acesso aos nutrientes.
Mas a estratégia tem um preço: a irrigação
traz para o local os glóbulos brancos responsáveis pela
defesa imunológica. Lá, eles reconhecem aquele agrupamento
desobediente às leis do organismo como estranho e disparam contra
ele uma resposta enérgica. Ao serem atacadas, as células
malignas lançam mão de todos os disfarces possíveis:
da produção de proteínas que bloqueiam a maquinaria
de guerra dos glóbulos brancos à estratégia de
se fingirem de mortas para despistar o inimigo.
Quando conseguem sobreviver, entra em ação uma de suas
principais armas secretas: a capacidade de se desgarrar do tumor inicial,
esgueirar-se para dentro dos vasos, cair na circulação
e se aninhar em outros tecidos, formando focos de metástases
à espreita do momento propício para cumprir seu destino:
multiplicar-se. Ao contrário das células normais, que
só conseguem se dividir no órgão de origem, as
malignas conseguem fazê-lo em qualquer outro. Numa metástase
óssea, por exemplo, o que cresce dentro do osso são células
malignas mamárias, prostáticas ou pulmonares, de acordo
com o local de origem do tumor primário.
A capacidade de multiplicação das células malignas
não tem limite. Elas se dividem sem pensar no futuro, predatoriamente,
a ponto de provocar a morte do próprio corpo que lhes deu origem.
Células normais cultivadas em laboratório nascem, crescem
e obrigatoriamente morrem, como nós. As malignas, não.
Se não lhes faltarem nutrientes no meio de cultura, multiplicam-se
sem parar, por décadas e décadas, até o final dos
tempos. São imortais; esse é o segredo que escondem de
nós.
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