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Febre amarela
Senti no corpo o que está nos livros: febre
amarela é doença grave. Fiz uma viagem ao rio Cuieras,
afluente do Negro, quatro horas de barco de Manaus, onde coordeno um
projeto da Unip de pesquisas botânicas e de bioprospecção
através do qual preparamos extratos de plantas para serem testados
contra células malignas e bactérias resistentes a antibióticos,
na tentativa de identificar atividade farmacológica em nossa
flora.
Saí de São Paulo numa quinta à noite. Durante a
madrugada, navegamos Rio Negro acima para amanhecer no local de trabalho.
Nos dois dias seguintes, acompanhei a equipe de botânicos e mateiros
do projeto no caminho pela mata até as parcelas estudadas.
Como existe malária na região - doença para a qual
não há vacina e que já acometeu vários membros
de nossa equipe -, tomei os cuidados habituais de vestir camisa de manga
comprida, boné e de borrifar inseticida nas partes descobertas
do corpo.
Sábado à noite me despedi da equipe e retornei a São
Paulo. Na madrugada de domingo para segunda, acordei com quase 40 graus,
calafrios e dor forte nas costas. Achei que havia contraído dengue
numa viagem ao Nordeste na semana anterior.
Na quinta-feira, fui internado no hospital Sírio-Libanês,
toxemiado, febril, enfraquecido e com dores nas costas sensíveis
apenas à morfina. Dois dias depois, o Instituto Adolfo Lutz confirmava
o diagnóstico de febre amarela adquirida na floresta amazônica,
conforme demonstravam os genes do vírus.
Febre amarela não tem tratamento específico. Na fase inicial
o vírus se multiplica pelo organismo e acomete maciçamente
o fígado - é uma das causas de hepatite fulminante. Como
conseqüência da insuficiência hepática, os fatores
responsáveis pela coagulação do sangue se alteram
e podem surgir sangramentos (inclusive no cérebro).
A partir do fim de semana seguinte à instalação
da doença, as provas de função hepática
se deterioraram a ponto de eu entrar em pré-coma hepático.
Para complicar, os fatores de coagulação indicavam que
poderiam ocorrer hemorragias a qualquer momento. Os médicos que
me acompanhavam, amigos de longa data pelos quais tenho profundo respeito
profissional, mantiveram-me a par dos resultados conforme ficou acertado
entre nós, de início. Apesar das palavras cautelosas com
as quais se referiam à evolução desfavorável,
não era difícil identificar suas expressões aflitas,
indisfarçáveis para quem as conhece de perto.
Num fim de tarde, eu me sentia tão fraco, nauseado, com tanta
dor nas costas, já um pouco alheio à presença de
minha mulher e de minhas filhas, que comecei a pensar: na fase da doença
em que me encontro a mortalidade chega a 70%; objetivamente, meus exames
indicam que corro risco alto de estar entre eles; subjetivamente, nunca
me senti tão mal; é possível que eu entre em coma
hepático e perca a consciência nas próximas horas.
Não fiquei desesperado com essa perspectiva, no entanto. O mal-estar
insuportável, a dor e a nuvem cinzenta que me embotava o cérebro
vinham associados a uma tranqüilidade fatalista difícil
de imaginar para quem está com saúde. A morte impõe
resignação quando chega devagar.
Pensei na ironia de certos descuidos com a preservação
da vida: minha vacina contra a febre amarela estava vencida há
mais de 20 anos. Para aplacar a consciência, me lembrei de haver
viajado quase cem vezes ao rio Negro sem ter ouvido falar que existisse
febre amarela por lá. A doença é de fato rara:
no ano de 2004, a Vigilância Epidemiológica registrou apenas
cinco casos no Brasil (dos quais sobrevivemos um rapaz do Paraná
e eu). Mas essas justificativas não me trouxeram consolo. E daí?
Em que isso mudava meu destino?
E a ironia maior: a sensação de ridículo. Passei
boa parte da vida envolvido em trabalhos educacionais nos jornais, rádio
e TV, procurando informar e convencer as pessoas de que é preciso
preservar a saúde. Desde os tempos de estudante acredito que,
num país com o nível de escolaridade do nosso, o médico
tem esse dever.
Se não tivesse levado a sério o que recomendo aos outros,
bebesse e comesse exageradamente, usasse drogas, fosse defensor do "faça
o que mando, não o que faço", ainda vá. Mas
ao contrário! Procurei ser coerente, conheço poucas pessoas
que se cuidaram como eu: larguei de fumar na década de 1970;
faço exames preventivos com regularidade, olho para a comida
com a mesma cautela que o faço em relação à
bebida: é bom, mas em excesso prejudica; tenho 1,85 metro e peso
70 quilos, quatro a mais do que quando sai da faculdade; e sou daqueles
fanáticos que correm maratonas, corridas de 42 quilômetros
para as quais há que treinar o ano inteiro.
Naquele momento de introspecção existencial, imaginei
que meu coração, ainda capaz de bater por muitos anos,
pararia agora por causa de um mosquito que me transmitiu um vírus
agressivo, para o qual existe uma vacina eficaz que deixei de renovar
por tantos anos. A morte, então, adquiriu a imagem de uma senhora
impiedosa à espreita de nossas fragilidades, alheia aos 99 cuidados
que disciplinadamente tomamos no decorrer da vida para evitá-la,
atenta só ao menor descuido em relação ao centésimo.
Hoje, emagrecido e ictérico, mas fora de perigo, ao avaliar o
sofrimento pelo qual passei e fiz passar as pessoas que amo, posso assegurar
que é humilhante a sensação de que a vida se esvai
como conseqüência de um descaso pessoal.
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