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Estilo de vida
É inacreditável a resistência
do ser humano ao sofrimento físico. Em mais de 30 anos de medicina,
vi doentes enfrentarem cirurgias mutiladoras seguidas de períodos
pós- operatórios
que exigem semanas de internação, submeterem-se a tratamentos
agressivos com medicamentos que abrem feridas na boca e provocam vômitos
incoercíveis, resistirem a dores lancinantes durante meses e,
ainda assim, lutarem para preservar a vida até sentirem exaurido
o último resquício de suas forças.
O heroísmo com o qual defendemos nossa existência quando
ameaçada, no entanto, contrasta com a incapacidade de mudarmos
estilos de vida que conduzirão a doenças gravíssimas
no futuro. Não me refiro apenas a mudanças radicais como
largar de beber, deixar de fumar ou de ter relações sexuais
desprotegidas com múltiplos parceiros, mas especialmente aos
comportamentos rotineiros: comer um pouco mais do que o necessário,
passar o dia sentado, esquecer de tomar remédios e de fazer controles
periódicos de saúde.
Nas grandes cidades, não faltam justificativas para nossa irresponsabilidade
na prevenção dos problemas de saúde que afligem
o homem moderno: doenças cardiovasculares, câncer, diabetes,
hipertensão, reumatismo, osteoporose e outras enfermidades degenerativas.
"Saio cedo, perco horas no trânsito e volto tarde, morto
de fome, como vou fazer para levar vida saudável?" - é
a desculpa que damos a nós mesmos para justificar o descaso com
um bem que a natureza nos ofertou sem termos feito qualquer esforço
pessoal para merecê-lo: o corpo humano.
O corpo humano é uma máquina construída para o
movimento. Não fosse assim, para que tantos ossos, músculos
e articulações? Só que, ao contrário de
outras máquinas desenhadas com a mesma finalidade -como o avião,
por exemplo - que se desgastam enquanto se movimentam, o organismo humano
se aprimora com o andar.
A falta de movimentação contraria as forças seletivas
que forjaram as características de nossa espécie. Pessoas
sedentárias como somos hoje teriam dificuldade de sobrevivência
num mundo sem automóvel, telefone e supermercado na esquina.
Antes do advento da agricultura - criada há meros dez mil anos
-, nossos antepassados eram forçados a consumir quantidade substancial
de energia para conseguir água e alimentos atualmente disponíveis
ao alcance da mão. Quando tinham a felicidade de encontrá-los,
precisavam retirar deles o máximo de calorias disponíveis
para sobreviver às épocas de vacas magras que viriam em
seguida.
Durante cinco milhões de anos, a sobrevivência de nossa
espécie num mundo desprovido de tecnologia para estocar provisões
exigiu um planejamento preciso da relação entre a energia
investida na procura de comida e a recompensa calórica obtida
ao encontrá-la. Forjado nesses tempos de penúria, nosso
cérebro herdou o desprezo pelos alimentos pouco calóricos
e a predileção obstinada pelos de alto conteúdo
energético, como as carnes gordurosas e os açúcares
que atormentam a vida do homem moderno em conflito permanente com a
balança.
Somos descendentes de mulheres e homens que sobreviveram até
a idade reprodutiva graças à capacidade de evitar perigos
imediatos, proteger a prole, ingerir calorias em excesso para manter
a integridade física em caso de jejum prolongado e descansar
no intervalo das refeições para economizar energia. Na
seleção natural, levaram vantagem os que souberam planejar
a rotina diária de modo a chegar à vida adulta em condições
físicas propícias ao acasalamento. Planejamento do futuro
distante não exerceu pressão seletiva em nossa espécie.
Para quem vivia no desconforto das cavernas, que vantagem reprodutiva
haveria na preocupação em prevenir ataques cardíacos,
derrames cerebrais ou câncer de próstata?
Como conseqüência desse passado, somos excelentes organizadores
do dia-a-dia e tão incompetentes para planejar a longo prazo.
Sabemos exatamente o que fazer para não passar fome naquela semana,
como reservar algumas horas para dormir, trabalhar ou fazer sexo, mas
somos incapazes de modificar o mais elementar de nossos hábitos
mesmo sabendo que as conseqüências poderão ser fatais.
Por isso, é mais fácil um doente com infarto aceitar uma
ponte de safena do que conseguir que as pessoas andem míseros
30 minutos diários; retirar um pulmão inteiro por causa
de um tumor maligno do que fazer um fumante largar do cigarro; indicar
transplante de rim num hipertenso do que obter regularidade na tomada
do remédio para abaixar a pressão; amputar a perna de
um diabético com obstrução vascular do que convencê-lo
a controlar a glicemia.
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