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Envelhecimento
Meio ambiente e envelhecimento
No artigo anterior dedicado à genética do envelhecimento,
dissemos que ele não faz parte de um programa genético
universal criado para evitar a superpopulação. Envelhecer
é conseqüência da ação de genes deletérios
passados livremente de uma geração para outra, por exercerem
sua função deletéria apenas depois da fase reprodutiva.
Demos, como exemplo, genes que vão favorecer o aparecimento de
hipertensão ou diabetes a partir dos 40 anos, numa fase da vida
em que seus portadores já tiveram filhos, herdeiros das mesmas
tendências.
Dissemos, ainda, que a longevidade está associada à interação
entre o repertório genético individual e os fatores derivados
do meio ambiente. E que os estudos atuais parecem estabelecer para a
duração da vida uma dependência maior dos fatores
ambientais do que da propensão genética .
Vida média e vida máxima
Relembradas essas duas idéias, vamos concentrar-nos na influência
que o meio exerce sobre a longevidade. Antes, porém, vamos deixar
claro dois conceitos: vida média e vida máxima. Usaremos
o primeiro termo como a média de vida de uma população.
Por exemplo: a vida média dos homens ingleses é de 79
anos; a dos brasileiros, 68 anos. Ao contrário, a vida máxima
reflete a longevidade individual; está relacionada ao máximo
de vida que um indivíduo da espécie pode atingir. Assim,
no rato, a vida média é de 23 meses e a máxima
33 meses. No homem, a vida máxima é de 110 anos, com raríssimas
exceções.
Para calcularmos a vida média de uma população
é preciso somar as idades com que morreram todos os indivíduos
pertencentes a ela e tirar a média aritmética. Já
para o cálculo da vida máxima somam-se as idades com que
morreram apenas os 10% de indivíduos que atingiram maior longevidade
na população e divide-se pelo número deles.
A vida média de uma população pode ser modificada
por qualquer estratégia capaz de impedir ou provocar a morte
prematura: vacinação, saneamento básico, epidemias,
guerras ou catástrofes ambientais. A vida máxima, entretanto,
só pode ser estendida por meio de uma estratégia única:
retardar o envelhecimento.
Dietas de baixo conteúdo calórico
e envelhecimento
A primeira descoberta revolucionária em relação
ao envelhecimento foi feita na década de 1930 pelo grupo de Clive
McCay, da Universidade Cornell: animais mantidos com dietas de baixo
conteúdo calórico viviam mais tempo. No entanto, como
outras vezes ocorreu na história da ciência, essa descoberta
relevante foi interpretada como mera curiosidade pela comunidade acadêmica.
Foi apenas nos últimos 20 anos que diversos autores retomaram
a questão da influência da dieta no envelhecimento.
Um dos estudos que confirmaram as impressões do grupo de McCay
foi conduzido com três grupos de ratos: o primeiro, mantido em
gaiolas com farta disponibilidade de alimentos (alimentados ad libitum,
em linguagem técnica). O segundo sofreu um corte de 30% no número
de calorias diárias; e o terceiro, um corte de 60%. As dietas
foram cuidadosamente balanceadas para que a restrição
calórica não provocasse déficit de proteínas,
vitaminas, gordura ou minerais.
Os autores verificaram que morreram antes os ratos alimentados ad libitum.
Curiosamente, os que receberam 30% menos calorias diárias viveram
30% mais, e os que tiveram um corte de 60% viveram 60% mais do que os
alimentados ad libitum.
Experimentos semelhantes foram repetidos com diversas espécies
unicelulares e multicelulares. Alguns dos resultados estão relacionados
abaixo:
Paramécio (protozoário de água doce):
Dieta normal: Vida média = 7 dias
Vida máxima = 13 dias
Restrição calórica: Vida média = 13 dias
Vida máxima = 25 dias
Pulga d’água (unicelular):
Dieta normal: Vida média = 30 dias
Vida máxima = 42 dias
Restrição calórica: Vida média = 51 dias
Vida máxima = 60 dias
Aranha:
Dieta normal: Vida média = 50 dias
Vida máxima = 100 dias
Restrição calórica: Vida média = 90 dias
Vida máxima = 139 dias
P. reticulata (peixe ornamental dourado):
Dieta normal: Vida média = 33 meses
Vida máxima = 54 meses
Restrição calórica: Vida média = 46 meses
Vida máxima = 59 meses
Rato branco:
Dieta normal: Vida média = 23 meses
Vida máxima = 33 meses
Restrição calórica: Vida média = 33 meses
Vida máxima = 47 meses
Análise das conclusões
Quando uma mesma intervenção provoca resultados semelhantes
em espécies tão díspares quanto seres unicelulares,
aranhas, peixes e mamíferos como o rato, dificilmente poderia
deixar de ser válida para a espécie humana. Nesse caso,
precisaríamos imaginar que a evolução tivesse criado
um mecanismo geral de envelhecimento válido para todas as espécies
e um outro especial para a humana, acontecimento altamente improvável
de acordo com a lei de Darwin.
Do conjunto de trabalhos publicados sobre a relação entre
o número de calorias ingerido diariamente e a longevidade do
animal, selecionamos algumas das conclusões mais importantes:
1) Muitos pesquisadores procuraram esclarecer se a
restrição calórica por si só aumenta a longevidade,
ou se o faz em virtude da ingestão de menos gordura ou outros
componentes da dieta. Os trabalhos foram unânimes em demonstrar
que a primeira hipótese é a verdadeira: restrição
de gordura, proteína ou carboidratos sem que haja diminuição
do número de calorias ingeridas não é capaz de
alterar a longevidade.
Da mesma forma, estudos que testaram o papel da suplementação
alimentar com multivitaminas ou agentes oxidantes na dieta falharam
em demonstrar qualquer impacto no aumento da sobrevida dos animais.
2) Para esclarecer o papel do exercício físico
na duração da vida há um trabalho clássico
feito com dois grupos de ratos alimentados com dietas de idêntico
conteúdo calórico. O primeiro grupo permaneceu em gaiolas
pequenas, sedentário. O segundo foi colocado naquelas gaiolas
com rodas penduradas, nas quais o ratinho anda o tempo todo sem sair
do lugar. No final, os ratos andarilhos pesavam 30% a 40% menos do que
os sedentários e atingiam uma vida média maior devido
à redução de doenças cardiovasculares e
metabólicas, mas não houve aumento da vida máxima
do grupo.
O exercício físico pode evitar a morte precoce devida
a causas passíveis de prevenção, mas não
retarda o envelhecimento. Ninguém conseguirá bater o recorde
oficial de 122 anos de vida para a espécie humana às custas
do exercício, embora possa deixar de morrer de infarto aos 52
(o que não é pouco).
3) A influência do excesso de peso no envelhecimento
só pode ser esclarecida a partir do desenvolvimento dos camundongos
C57BL-BJ. Essa linhagem é constituída por camundongos
geneticamente idênticos, portadores do gene ob-ob, regulador de
determinadas características metabólicas que favorecem
o aparecimento de obesidade.
Num experimento, esses animais geneticamente idênticos foram separados
em dois grupos: o primeiro alimentado ad libitum, e o segundo com restrição
calórica. Como seria de se esperar, no final de alguns meses
os camundongos ad libitum estavam mais gordos; neles, a gordura representava
67% do peso corpóreo. Os submetidos à restrição
calórica estavam mais magros: 48% do peso do corpo era gordura.
A longevidade dos que receberam restrição calórica
foi 50% maior.
Qual seria a explicação? Será que os mais magros
sobreviveram por mais tempo pelo fato de terem menos gordura no corpo
e, com isso, menor incidência de doenças cardiovasculares,
diabetes, hipertensão, reumatismo ou câncer? Ou o fato
de ter mais gordura no corpo não faz diferença, o que
interessa é o número de calorias ingeridas?
A resposta veio com o seguinte experimento: um grupo de camundongos
ob-ob foi comparado com um grupo de camundongos não portadores
desse gene. Ambos os grupos receberam exatamente o mesmo número
de calorias diárias, na dieta. Terminada a experiência,
os camundongos ob-ob estavam mais gordos: 48% do corpo era gordura.
Nos outros, a gordura representava apenas 13% do peso corpóreo.
A longevidade, no entanto, foi exatamente igual para camundongos gordos
ou magros.
É o número de calorias ingeridas, não o grau de
adiposidade, o fator crucial no retardo do envelhecimento.
4) Há linhagens especiais de camundongos que
caracteristicamente desenvolvem doenças auto-imunes, como artrite
reumática e lúpus, por exemplo. Quando esses animais são
alimentados ad libitum, costumam morrer ao redor dos 12 meses de idade.
Quando mantidos em dietas que reduzem em 30% o número de calorias
diárias a maioria dos camundongos ultrapassa 20 meses de idade,
sem adoecer.
Além de alterar a sobrevida, camundongos mantidos com dietas
de baixo conteúdo calórico apresentam declínio
mais lento de funções como controle dos níveis
de glicose no sangue, capacidade reprodutiva feminina, reparação
do DNA, imunidade, habilidade para adquirir conhecimentos novos, manutenção
da massa muscular e sintetizar proteínas.
Como conseqüência, há retardo no aparecimento das
doenças que costumam surgir na idade avançada: diabetes,
hipertensão, câncer, catarata, doenças auto-imunes
e insuficiência renal.
A restrição calórica exerce seu maior impacto no
retardo do envelhecimento quanto mais precocemente for iniciada na vida
do animal. Porém, seu efeito benéfico pode ser observado
mesmo quando iniciada na maturidade. Como observou R. Weindruch, pesquisador
do Institude on Aging da Universidade de Winsconsin: “Realmente,
a descoberta mais excitante da minha carreira foi a de que a restrição
calórica iniciada na vida madura em camundongos pode estender
a vida máxima em 10% a 20% e diminuir a incidência de câncer.
Além disso, embora o aumento máximo da longevidade seja
obtido com dietas que contém a metade do número de calorias
ingeridas pelos animais que se alimentam à vontade (ad libitum),
mesmo restrições mais leves instituídas na infância
ou mais tarde conferem benefício”.
Para que as conclusões acima sejam estendidas ao homem, é
necessário que sejam válidas para nossos parentes mais
próximos: os macacos. Experimentos com primatas, no entanto,
são complicados em virtude da duração da vida nessas
espécies (chimpanzés e gorilas vivem pelo menos 40 e,
às vezes, 50 anos).
Restrição calórica nos primatas
e nos humanos
A partir de 1987, três projetos de restrição calórica
em macacos conduzidos no National Institute on Aging e na Universidade
de Winsconsin, analisaram os chamados “marcadores de idade”,
parâmetros que permitem estimar a preservação da
saúde e a duração da vida: pressão arterial,
nível de glicose e de triglicérides no sangue, sensibilidade
à ação da insulina, etc.
Nesses experimentos a restrição calórica foi imposta
entre os 8 e os 14 anos, início da vida adulta dos macacos. Em
ambos, a restrição do número de calorias foi ao
redor de 30% em relação aos macacos que comem à
vontade (ad libitum). Os resultados preliminares são muito encorajadores:
os macacos mantidos com restrição calórica são
saudáveis, têm pressão arterial inferior, nível
de glicose no sangue mais baixo e sensibilidade à insulina maior.
Nos seres humanos ainda não foram realizados estudos cientificamente
controlados sobre restrição calórica. Dados sobre
o impacto da diminuição do aporte calórico nas
populações que vivem em condições de extrema
pobreza não fornecem informações confiáveis,
devido à carência de nutrientes essenciais associada à
desnutrição. Por outro lado, em populações
bem nutridas há dificuldade na quantificação do
número de calorias ingeridas diariamente.
Há, entretanto, evidências indiretas:
1) Na ilha de Okinawa, a população consome
uma dieta mais tradicional, em média 17% mais pobre em calorias
do que no resto do Japão. Em Okinawa, a mortalidade por doenças
cardiovasculares, derrame cerebral e certos tipos de câncer é
31% a 41% mais baixa do que no resto do país. Lá, também,
o número de indivíduos centenários é 40
vezes maior do que em qualquer outro lugar do Japão.
2) Na Suécia, altos níveis de consumo
calórico estão associados a maior incidência de
câncer de próstata. Estudos epidemiológicos sugerem
que a mesma associação exista para câncer de estômago,
intestino e, possivelmente, mama.
3) Rapidamente, acumulam-se dados sugestivos de que
dietas com alto teor calórico tenham implicações
na instalação da doença de Alzheimer, Parkinson,
insuficiência cardíaca, aterosclerose e outras enfermidades
características da idade avançada.
Papel das mitocôndrias no envelhecimento
As dimensões dos órgãos internos guardam relação
direta com o conteúdo energético da alimentação.
Quanto maior o número de calorias ingeridas, maior o peso do
coração, fígado, rim, próstata, músculos
e dos linfonodos (gânglios linfáticos) envolvidos na resposta
imunológica. Por capricho intencional da natureza, apenas o cérebro
e os testículos mantém constante suas dimensões,
mesmo quando o indivíduo é submetido a redução
drástica do aporte calórico.
O tamanho dos órgãos internos, no entanto, não
explica o retardo ou aceleração do envelhecimento. A explicação
é dada por um conjunto de organelas microscópicas presentes
em todas as células do organismo e responsáveis pela produção
de energia: as mitocôndrias.
Cada célula contém centenas de mitocôndrias espalhadas
pelo citoplasma. No interior da mitocôndria, as moléculas
resultantes da alimentação são utilizadas numa
série complexa de reações químicas, que
resultará na síntese de uma molécula capaz de armazenar
energia e transportá-la para os quatro cantos da célula:
o ATP. É no ATP que a célula encontrará 90% da
energia necessária para exercer sua funções: produção
de proteínas, movimento, excreção, troca de íons,
etc. Se não fossem as mitocôndrias, não haveria
possibilidade de vida; elas são as centrais energéticas
da célula.
A lógica sugere que qualquer fenômeno capaz de comprometer
a produção do ATP na mitocôndria, pode prejudicar
o funcionamento ou simplesmente matar a célula. De fato, em 1962,
R. Luft, da Universidade de Estocolmo, demonstrou que o decréscimo
da produção de energia na mitocôndria provocava
o aparecimento de doenças debilitantes, características
da idade avançada.
Estudos posteriores deixaram claro que o tecido mais rapidamente atingido
pelo decréscimo de energia era o sistema nervoso central. Seguiam-se,
em ordem decrescente de sensibilidade, o coração, os músculos,
os rins e os tecidos produtores de hormônios.
Ação dos radicais livres
A perda progressiva da capacidade de gerar energia, que caracteriza
o envelhecimento das células, deve-se a um conjunto de reações
químicas que ocorrem no interior da mitocôndria como conseqüência
da ação de radicais livres, conceito explorado inadequadamente
em muitos “tratamentos alternativos”.
Na verdade, os radicais livres surgiram na literatura na década
de 1950, quando D. Harman, da Universidade de Nebraska, sugeriu que
a formação deles no interior das células prejudicasse
seu funcionamento. Foi apenas nos anos 1980, entretanto, que ficaram
claros dois conceitos:
1) Radicais livres são formados nas células
como resultado do conjunto de reações químicas
normais, do dia-a-dia, que chamamos de metabolismo.
2) São justamente as centrais energéticas
da célula, as mitocôndrias, os alvos mais importantes da
ação nociva desses radicais.
A explicação simplificada sobre a formação
desses radicais é a seguinte: o oxigênio, tão necessário
à respiração, é uma substância potencialmente
tóxica. Embora não possamos passar 5 minutos sem respirá-lo,
a longo prazo ele pode comprometer nossa existência. Esse fenômeno
é conhecido com o nome de “paradoxo do oxigênio”.
Tal paradoxo tem origem química: a molécula de oxigênio
é formada por dois átomos (O2). Nas reações
que levam à produção de energia pela mitocôndria,
a molécula de O2 é quebrada em duas partes, liberando
substâncias altamente reativas chamadas de radicais livres (O-,
OH- e H2O2 - água oxigenada). Quando esses radicais reagem com
os constituintes da mitocôndria, provocam danos às suas
estruturas e redução da capacidade de produzir energia.
É o envelhecimento celular.
Esse processo, chamado de oxidação, está longe
de ser insignificante. Estima-se que 2% a 3% do oxigênio consumido
pelas células acabe na forma de radicais livres, e que cada célula
de um rato, por exemplo, sofra cerca de 100 mil ataques desses radicais
por dia.
Sendo a geração dos radicais de oxigênio inerente
ao processo normal de produção de energia absolutamente
necessário ao funcionamento do organismo, é lógico
que a evolução tenha privilegiado o aparecimento de mecanismos
de defesa contra a ação nefasta deles. De fato, em todas
as células existem sistemas encarregados em desativá-los.
Genes envolvidos no processo de envelhecimento
No entanto, é lógico que não podemos desprezar
a importância da genética no envelhecimento e duração
da vida. Nos últimos 20 anos, grande número de centros
tem procurado identificar quais os genes envolvidos no controle dos
mecanismos que levam ao declínio da condição física
característica da velhice. Com esse objetivo, F. Schächter
propôs três estratégias para identificação
de genes envolvidos no controle da duração da vida humana:
1) Através da indução de mutações
em determinados genes associados ao aumento da capacidade metabólica
ou à resistência aos estresses do meio ambiente. Dessa
maneira, os biólogos moleculares têm sido capazes de manipular
a longevidade de ratos, drosófilas e no lêvedo de cerveja.
Esses genes que interferem com a longevidade em outras espécies
são bastante parecidos (homólogos) com genes encontrados
na espécie humana. A modificação de suas estruturas
químicas poderá conduzir a resultados semelhantes: aumento
significante da longevidade humana, por simples manipulação
genética.
2) A segunda estratégia se baseia no estudo
dos genes de homens e mulheres com mais de 100 anos de idade, para identificar
as diferenças com os das pessoas que morrem cedo. Um trabalho
realizado entre franceses centenários encontrou duas variantes
de genes presentes entre eles capazes de aumentar a longevidade: um
desses genes está envolvido no mecanismo de transporte do colesterol
e o outro, no controle da pressão arterial.
3) A terceira procura identificar os genes associados
às enfermidades que atingem a espécie humana a partir
da quarta ou quinta década de vida: doenças cardiovasculares,
neurodegenerativas, deficiências imunológicas e câncer.
Por meio da alteração de alguns desses genes será
possível impedir, ou pelo menos retardar, o aparecimento dessas
doenças.
É didático o caso da doença de Alzheimer, patologia
que provoca déficit cognitivo progressivo, responsável
por 70% dos casos de demência que se instalam depois dos 60 anos
de idade. Cerca de 5% dos pacientes com Alzheimer apresentam os primeiros
sintomas de perda de memória que caracterizam o início
da doença, antes dos 60 anos. A partir daí, a incidência
praticamente dobra a cada 5 anos, impondo à longevidade um limite
melancólico.
Há fortes evidências de que os genes desempenhem papel
decisivo na instalação da doença: em irmãos
gêmeos iguais, a incidência de Alzheimer é duas ou
três vezes mais alta do que entre gêmeos diferentes; e quando
a doença se instala numa pessoa antes dos 60 anos, em geral surgem
outros casos semelhantes na família. Embora haja heterogeneidade
genética, pelo menos três genes diferentes parecem desempenhar
papel decisivo na instalação da enfermidade.
Esses genes já foram identificados, clonados e transplantados
em ratos, criando animais transgênicos que servem de modelo experimental
para estudo da doença. O conhecimento das funções
específicas de cada um desses genes, poderá trazer esperança
aos que pretendem chegar aos 120 anos, lúcidos e independentes.
Dieta rica em calorias, envelhecimento e produção
de radicais livres
Agora chegamos ao ponto de juntar os conceitos de dieta rica em calorias,
envelhecimento e produção de radicais livres.
A energia de que a célula necessita para exercer suas funções
é retirada dos nutrientes ingeridos. Quanto maior a quantidade
de deles, maior será a quantidade de energia produzida. Não
há limitações a esse processo, não é
atingido um momento em que a mitocôndria pare de produzir energia.
Enquanto houver nutrientes à disposição, ela continua
a trabalhar e a produzir radicais livres ininterruptamente.
Esse fenômeno tem justificativa evolucionista e guarda relação
com a dificuldade que nossos ancestrais tiveram para conseguir alimentos
na Terra. Quando conseguiam caçar ou colher frutas, suas mitocôndrias
não podiam se dar ao luxo do fastio; ao contrário, precisavam
bombear o máximo de energia disponível para dentro das
células e armazená-la sob a forma de gordura, porque sabe
lá quando haveria comida outra vez.
Com a disponibilidade de alimentos atual, sem precedentes na história
da humanidade, oferecemos às mitocôndrias mais nutrientes
do que o necessário e aumentamos a formação de
radicais livres numa velocidade que ultrapassa a capacidade da célula
em neutralizá-los. Como conseqüência, as mitocôndrias
se desgastam mais rapidamente, até comprometer a produção
de energia característica do envelhecimento.
Fatores que interferem na qualidade e duração
da vida
Baseados nessas informações, podemos resumir os principais
fatores que interferem com a qualidade e a duração da
vida da seguinte maneira:
1) Exercício físico: emagrece, aumenta
a força muscular, a capacidade respiratória e melhora
a qualidade de vida pelo controle e prevenção de diversas
doenças. Como conseqüência, aumenta a vida média
de uma população, mas é incapaz de aumentar a longevidade.
2) Dieta gordurosa: descontados os portadores de defeitos
no metabolismo das gorduras (que apresentam níveis elevados de
triglicérides e colesterol), o único problema com a ingestão
desse tipo de alimento é seu alto conteúdo calórico.
Ingerir gordura não apressa o envelhecimento, desde que a quantidade
ingerida seja pequena para assegurar um total de calorias baixo.
3) Ingestão de fibras: as fibras presentes nos
vegetais são muito importantes para o funcionamento dos intestinos
e, como apresentam baixo conteúdo calórico, podem ser
ingeridas em maiores quantidades. Dietas vegetarianas, porém,
não aumentam a longevidade.
4) Vitaminoterapia: baseados na existência dos
radicais livres, um dos ramos da assim chamada medicina alternativa
preconiza a inativação desses radicais com o uso de doses
maciças de vitaminas. Não existe qualquer evidência
de que o uso de vitaminas interfira com a complexa fisiologia do envelhecimento
no homem ou em outros animais. Algumas vitaminas usadas em doses elevadas
podem inclusive provocar danos à saúde. Por exemplo, o
betacaroteno empregado nas doses encontradas em diversos suplementos
vitamínicos, aumenta a incidência de câncer de pulmão
em fumantes, provavelmente por aumentar a produção de
radicais livres nos pulmões.
Neste momento, as pesquisas de drogas capazes de retardar a senescência
estão concentradas na identificação de substâncias
que ajudem a neutralizar os radicais de oxigênio altamente reativos
no interior da mitocôndria (o que nada tem a ver com os chamados
“tratamentos ortomoleculares”, tão em moda).
Enquanto não dispusermos dessas drogas, contamos apenas com uma
alternativa eficaz, e dolorosa: reduzir o número de calorias
na dieta. Quanto? Muitos autores sugerem que uma redução
de 10% a 25% já pode exercer impacto na longevidade.
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