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Envelhecimento
Os genes do envelhecimento

A vida eterna está ao alcance de certas espécies.
A morte não é obrigatória para todos os seres vivos
na face da Terra. Desde que as condições do meio permaneçam
estáveis, um ser unicelular, ao se dividir, dá origem
a duas células filhas idênticas, estas formam quatro, oito,
dezesseis, sem que se possa falar em envelhecimento e morte da célula-mãe.
Em certas espécies multicelulares assexuadas, como as anêmonas
do mar, a seqüência de envelhecimento e morte também
não é obrigatória. Esses organismos podem permanecer
em aquários por décadas sem demonstrar sinais de senescência.
O envelhecimento seguido de perto pela morte, surgiu na Terra com o
aparecimento da reprodução sexual: machos e fêmeas
têm filhos, envelhecem e morrem.
Seleção natural dos genes na juventude
O envelhecimento, então, não faz parte de um programa
genético universal criado para evitar a superpopulação,
como muitos pensam; uma espécie de gentileza pela qual os que
nasceram antes abririam espaço para filhos e netos. O envelhecimento
surgiu nas espécies que se reproduzem sexualmente, apenas porque
as forças de seleção natural estão concentradas
na juventude. Com a maturidade, a pressão seletiva diminui progressivamente,
como explicaremos em seguida.
A afirmação acima é conseqüência da
lei de Darwin: determinada característica individual persiste
numa população quando ajuda seus portadores a sobreviver
até a idade reprodutiva e produzir descendentes que a herdarão.
Por exemplo: na história da evolução da espécie
humana, os homens que produziram esperma e as mulheres que ovularam
mais cedo levaram vantagem reprodutiva e deixaram mais descendentes
com capacidade de amadurecimento sexual precoce.
Ao contrário, quando uma característica impede a chegada
do indivíduo na fase reprodutiva, tende a ser eliminada da população.
É o caso de certas leucemias da infância, raríssimas
hoje, porque seus portadores não viveram para transmitir seus
genes aos filhos no passado. Ou o caso da progeria, doença devastadora
devida à mutação de um único gene capaz
de provocar envelhecimento tão precoce que um menino de sete
anos pode parecer mais velho do que o avô. Como essa enfermidade
está associada à morte por infarto, derrame cerebral ou
diabetes antes dos 14 anos, antes que seus portadores tenham tido oportunidade
de se reproduzir, a progeria é extremamente rara. O gene responsável
por ela tende a ser eliminado da população.
Ao lado das características que conferem vantagem reprodutiva,
como o amadurecimento sexual precoce, e das que impedem que seus portadores
atinjam a fase fértil, como a progeria e outras doenças
hereditárias que causam morte na infância, existem genes
que provocarão o aparecimento de doenças na maturidade,
décadas depois do início da vida sexual. Esses genes,
que aumentarão a probabilidade de infarto do miocárdio,
derrame cerebral, diabetes ou câncer aos 50 ou 60 anos, podem
ser considerados neutros do ponto de vista evolucionário. Antes
de exercerem ação deletéria, seus portadores já
os transmitiram para os filhos.
Assim, na história da evolução das espécies
sexuadas, como a humana, genes que conferem desvantagem reprodutiva
foram pacientemente retirados do pool genético e se tornaram
raros. Ao contrário, genes que favoreceram a reprodução
prevaleceram, e aqueles responsáveis pelo aparecimento de doenças
ou morte na fase de maturidade foram transmitidos livremente para os
descendentes.
Teoria evolucionária do envelhecimento
No final da década de 1940 e início dos anos 1950, dois
pesquisadores ingleses, P. Medawar, prêmio Nobel de Medicina,
e J. Haldane introduziram a teoria evolucionária para explicar
o envelhecimento. Segundo eles, com exceção dos organismos
que se dividem em dois, assexuadamente, as forças de seleção
natural exercem seu impacto máximo na juventude e depois declinam
progressivamente. Na velhice, praticamente desaparecem.
Como a seleção natural é a pressão que permite
ao ser vivo adaptar-se ao meio, seu desaparecimento ou a simples diminuição
de sua intensidade ameaçam a integridade da vida. Imaginem uma
criança esquimó, há 200 anos, portadora de genes
que a tornasse muito suscetível a infecções respiratórias
de repetição a baixas temperaturas. Provavelmente morreria
nos primeiros anos de vida por incapacidade de adaptação
ao meio. Ao contrário, um esquimó portador de genes que
provocassem dificuldade progressiva de regulação térmica
a partir dos 40 anos, poderia deixar dez filhos antes de morrer de frio.
No primeiro caso, os genes tenderiam a ser extintos entre os esquimós;
preservados, no segundo.
Pela teoria evolucionária, se tomarmos duas populações
de indivíduos de uma mesma espécie e controlarmos a idade
em que eles se reproduzem, a população na qual a reprodução
ocorrer mais tardiamente apresentará maior longevidade. Usando
o exemplo do esquimó acima, o pai de dez filhos que morreu por
defeito de regulação térmica aos 40 anos: ele só
pode transmitir seus genes às gerações futuras
porque começou a ter filhos aos 15 anos. Se, por razões
culturais, tivesse sido impedido de se aproximar das mulheres antes
dos 50, teria morrido antes da oportunidade de conceber descendentes.
Se, apenas os esquimós que chegassem aos 50 anos bem adaptados
ao frio se multiplicassem, no decorrer de várias gerações
prevaleceriam os indivíduos dotados de capacidade de regulação
térmica muito mais resistente à passagem dos anos.
Solução para o enigma dos negros americanos
Para ilustrar a inexorabilidade desses mecanismos evolucionários,
veja o caso da raça negra nos Estados Unidos. Lá, hipertensão
arterial é mais prevalente entre os negros do que nos brancos.
Como explicar tal fato, se os negros que chegaram à América
como escravos pertenciam a diversas etnias que viviam isoladas em comunidades
distantes umas das outras, em diversas partes do continente africano?
A teoria mais aceita admite que, embora fossem herdeiros de patrimônios
genéticos distintos, os negros trazidos como escravos apresentavam
uma característica comum: a chegada na América. Ninguém
veio a pé ou de avião, todos chegaram de navio. Mais precisamente,
nos porões dos navios negreiros, em condições de
higiene que mal podemos imaginar. Nessas viagens intermináveis,
recebiam o mínimo de alimentos e água para sobreviver.
Boa parte dos viajantes não resistia ao esforço nos remos
e às doenças infecciosas transmitidas pelos ratos e pela
promiscuidade. Chegavam apenas os mais resistentes. Entre eles, os que
tinham genes que lhes conferia a capacidade de reter mais sódio
e, com isso, reduzir a perda de água, porque o excesso de sódio
no sangue mantém a água na corrente sangüínea
evitando a perda através da urina e da transpiração.
Graças a essa capacidade, resistiam melhor ao calor e às
diarréias que matavam de desidratação seus companheiros
perdedores de sódio.
Por causa da pressão seletiva imposta pela viagem desumana, entre
os recém-chegados havia uma proporção maior de
economizadores de sódio, que puderam transmitir aos descendentes
a característica que lhes salvou a vida nos navios. Estes, no
mundo moderno, com alta disponibilidade de sal e água, carregam
a desvantagem do aumento da pressão. Entretanto, como a hipertensão
costuma instalar-se na maturidade e causar complicações
só depois de muitos anos, não chega a exercer pressão
seletiva na idade da reprodução. Como conseqüência,
os genes responsáveis pela retenção exagerada de
sódio continuam passando dos pais para os filhos, sem restrições,
entre os afro-americanos.
De hipótese à tese
A partir dos anos 1970, foram publicadas inúmeras comprovações
matemáticas de que a hipótese de Medawar e Haldane estava
rigorosamente correta. A maioria se baseava em intervenções
que retardavam o início da vida reprodutiva em animais de laboratório.
Como conseqüência, só se multiplicavam os animais
que chegavam à idade estabelecida pelo pesquisador, em boas condições
de saúde. Dessa forma, os genes que exercem função
deletéria logo na juventude eram impedidos de chegar aos descendentes.
Tal estratégia demonstrou ser especialmente eficaz na mosquinha
que voa sobre as bananas maduras da fruteira, a Drosophila melanogaster,
tradicionalmente utilizada como modelo de experiências genéticas,
pelo fato de reproduzir-se rapidamente e sobreviver com facilidade em
laboratório (há três meses foi completado o seqüenciamento
do genoma da drosófila).
Classicamente, nesses experimentos os autores separam duas populações
de moscas: na primeira, permitem o acasalamento a partir de duas semanas
de idade, assim que é atingida a maturidade sexual. Na segunda,
todos os ovos produzidos por indivíduos jovens são descartados,
só é admitida a reprodução das moscas que
atingem pelo menos seis semanas de idade. Dessa forma, no primeiro grupo
a ênfase da pressão competitiva e seleção
natural se faz sentir no início da fase fértil, enquanto
no segundo ela incide sobre os mais velhos. Os resultados mostram que
depois de dez ou mais gerações, as moscas que se multiplicam
mais tarde (com mais de seis semanas de idade) vivem duas ou três
vezes mais. Essa extensão da longevidade é acompanhada
de aumento proporcional do período de vida livre de enfermidades.
De fato, além de viver mais tempo, as moscas geradas pelos pais
mais velhos resistem melhor à falta de alimentos, à desidratação,
e são capazes de voar por mais tempo do que as moscas da mesma
idade concebidas pelos pais jovens.
Fisiologia sexual e transmissão de genes
Nos 5 milhões de anos de história da espécie humana,
a pressão seletiva incidiu sempre sobre os mais jovens. Aos 20
anos, muitas de nossas antepassadas já tinham três ou quatro
filhos, e os homens dessa idade, 10 ou 15. O resultado foi a transmissão
de genes que garantiam vigor muscular e saúde por duas ou três
décadas apenas; no passado ainda recente a vida média
da espécie humana não chegava aos 40 anos. Tivesse a fisiologia
sexual sido outra, fossem as mulheres e os homens capazes de se reproduzir
só depois dos 70 anos, os genes que aumentam a probabilidade
de infarto, câncer, derrame, diabetes e Alzheimer antes dessa
idade teriam sido varridos do pool genético da humanidade no
decorrer das gerações que nos antecederam, e viveríamos
com saúde até os 200 anos.
Embora seja impossível prever para onde caminha a evolução
de qualquer espécie na natureza, é teoricamente provável
que se a atual tendência de ter filhos mais tarde generalizar-se,
contribuirá para o aumento gradual da longevidade. Infelizmente,
não estaremos aqui para comprovar; se valerem os mesmos parâmetros
das drosófilas, serão necessárias pelo menos dez
gerações para tal efeito ser obtido.
Os genes podem explicar?
Inconformados com a impossibilidade de interferir no lento processo
evolucionário, os cientistas procuram nos genes a lógica
que explique por que um homem vive cinco vezes mais do que um gato,
um gato cinco vezes mais do que um rato, e um rato 25 vezes mais do
que uma drosófila.
Por que razão um irmão tem diabetes e seu gêmeo
idêntico não desenvolve a doença? E, qual o substrato
genético que serve de base para o incrível aumento na
expectativa de vida ocorrido no último século?
Relação entre repertório genético individual
e meio ambiente
Para pensarmos na duração da vida, é preciso entender
a interação entre os genes e o meio ambiente. Tanto em
invertebrados como a drosófila, em mamíferos como os ratos
e homens, os dados atuais estabelecem que a duração da
vida depende cerca de 35% de fatores genéticos e 65% dos ambientais.
Dois estudos conduzidos entre irmãos gêmeos idênticos
confirmam esses números, atribuindo às diferenças
do meio ambiente pouco mais do que 65% da variação na
longevidade. Quando se analisa a longevidade de gêmeos criados
em locais diferentes, verifica-se que ela é mais dependente ainda
dos fatores ambientais.
Genes envolvidos no processo de envelhecimento
No entanto, é lógico que não podemos desprezar
a importância da genética no envelhecimento e duração
da vida. Nos últimos 20 anos, grande número de centros
tem procurado identificar quais os genes envolvidos no controle dos
mecanismos que levam ao declínio da condição física
característica da velhice. Com esse objetivo, F. Schächter
propôs três estratégias para identificação
de genes envolvidos no controle da duração da vida humana:
1) Através da indução de mutações
em determinados genes associados ao aumento da capacidade metabólica
ou à resistência aos estresses do meio ambiente. Dessa
maneira, os biólogos moleculares têm sido capazes de manipular
a longevidade de ratos, drosófilas e no lêvedo de cerveja.
Esses genes que interferem com a longevidade em outras espécies
são bastante parecidos (homólogos) com genes encontrados
na espécie humana. A modificação de suas estruturas
químicas poderá conduzir a resultados semelhantes: aumento
significante da longevidade humana, por simples manipulação
genética.
2) A segunda estratégia se baseia no estudo
dos genes de homens e mulheres com mais de 100 anos de idade, para identificar
as diferenças com os das pessoas que morrem cedo. Um trabalho
realizado entre franceses centenários encontrou duas variantes
de genes presentes entre eles capazes de aumentar a longevidade: um
desses genes está envolvido no mecanismo de transporte do colesterol
e o outro, no controle da pressão arterial.
3) A terceira procura identificar os genes associados
às enfermidades que atingem a espécie humana a partir
da quarta ou quinta década de vida: doenças cardiovasculares,
neurodegenerativas, deficiências imunológicas e câncer.
Por meio da alteração de alguns desses genes será
possível impedir, ou pelo menos retardar, o aparecimento dessas
doenças.
É didático o caso da doença de Alzheimer, patologia
que provoca déficit cognitivo progressivo, responsável
por 70% dos casos de demência que se instalam depois dos 60 anos
de idade. Cerca de 5% dos pacientes com Alzheimer apresentam os primeiros
sintomas de perda de memória que caracterizam o início
da doença, antes dos 60 anos. A partir daí, a incidência
praticamente dobra a cada 5 anos, impondo à longevidade um limite
melancólico.
Há fortes evidências de que os genes desempenhem papel
decisivo na instalação da doença: em irmãos
gêmeos iguais, a incidência de Alzheimer é duas ou
três vezes mais alta do que entre gêmeos diferentes; e quando
a doença se instala numa pessoa antes dos 60 anos, em geral surgem
outros casos semelhantes na família. Embora haja heterogeneidade
genética, pelo menos três genes diferentes parecem desempenhar
papel decisivo na instalação da enfermidade.
Esses genes já foram identificados, clonados e transplantados
em ratos, criando animais transgênicos que servem de modelo experimental
para estudo da doença. O conhecimento das funções
específicas de cada um desses genes, poderá trazer esperança
aos que pretendem chegar aos 120 anos, lúcidos e independentes.
Desativação dos genes responsáveis pelo envelhecimento
Uma vez que nada podemos fazer em relação a nossos antepassados
que se reproduziram com pressa, tão logo a adolescência
se instalou, deixando-nos à mercê das doenças degenerativas
que nos fazem envelhecer e morrer cedo, talvez seja possível
procurar uma forma de retardar o envelhecimento por meio da desativação
dos genes responsáveis por ele.
A explosão do número de casos de doenças cardiovasculares,
câncer e Alzheimer é um fenômeno moderno, em relação
ao qual não existe experiência anterior, uma vez que os
genes de nossos antepassados habituados à rotina de ter filhos
cedo e morrer jovens não foram selecionados previamente. Se conseguirmos
entender com clareza as interações entre os genes envolvidos
no aparecimento dessas doenças com aqueles ligados à longevidade,
talvez nossa geração ainda possa bater o recorde mundial
de 122 anos.
Os modelos experimentais disponíveis para estudo do processo
de envelhecimento estão permitindo a identificação
de muitos caminhos, alguns dos quais convergentes, responsáveis
pela interação entre a genética e o meio ambiente.
Pesquisas genéticas das doenças degenerativas humanas
e da longevidade em animais mutantes definiram diversos fatores de risco
que afetam as constelações de genes responsáveis
pelo metabolismo do corpo e pela resistência ao estresse. Futuros
avanços certamente permitirão interferir com a expressão
dos genes envolvidos nas limitações que somos obrigados
a enfrentar na idade avançada.
Apesar desse panorama de esperança, não podemos esquecer
que a qualidade e duração da vida dependem menos de nossos
genes do que dos fatores ambientais. Graças à tecnologia
na produção de alimentos, condições de higiene
e algumas descobertas da medicina vivemos muito mais do que nossos avós,
embora nosso patrimônio genético esteja separado do deles
por apenas uma geração.
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