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Dor
Dor crônica
Cerca de um terço da população
apresentará algum tipo de dor crônica durante a vida. À
medida que vivemos mais, cresce o número de pessoas com dores
na coluna, articulações, doenças reumáticas,
câncer, degenerações ou inflamações
nos órgãos internos e outros problemas que podem provocar
dores crônicas.
Dor é uma sensação que surge quando há ameaça
de dano aos tecidos. Senti-la é fundamental para manter a integridade
do organismo. Doenças que alteram a sensibilidade estão
associadas ao aparecimento de traumatismos e ferimentos imperceptíveis.
É o caso das ulcerações que costumam surgir nos
pés dos diabéticos portadores de neuropatias nos membros
inferiores, por exemplo.
Quando um tecido é traumatizado ocorre liberação
local de substâncias químicas, imediatamente detectadas
pelas terminações nervosas. Estas disparam um impulso
elétrico que corre até a parte posterior da medula espinal.
Nessa região, um grupo especial de neurônios se encarrega
de transmiti-lo para o córtex cerebral, área responsável
pela cognição. Aí o impulso será percebido,
localizado e interpretado.
Para se ter uma idéia da velocidade de transmissão do
impulso elétrico, é só pensar no tempo decorrido
entre encostarmos a mão num objeto quente e nos afastarmos dele.
Esse circuito complexo de fibras nervosas que conduzem o sinal está
associado à liberação de mediadores químicos,
responsáveis pela sintonia fina do mecanismo da dor. De um lado,
o organismo precisa da dor para defender-se, mas o processo não
pode ser perpetuado.
Com a finalidade de impedir que a dor persista mais tempo do que o necessário,
os sinais que chegam ao cérebro e se tornam conscientes vão
estimular a liberação de substâncias chamadas endorfinas
(por sua semelhança à morfina) e encefalinas, que inibem
a propagação do impulso elétrico.
O mecanismo de inibição da dor é tão importante
para a sobrevivência do organismo, quanto o circuito responsável
pela percepção dela. Se não fosse ele, a dor de
um pequeno corte persistiria enquanto durasse o processo de cicatrização.
Dores crônicas podem ser devidas tanto a desordens do sistema
responsável pela percepção quanto da inibição
da dor. A fibromialgia, por exemplo, uma doença debilitante causadora
de dores musculares crônicas muitas vezes não diagnosticada
pelos médicos, é tida hoje como conseqüente a um
desarranjo nos mecanismos de inibição da dor.
É um erro considerar a dor crônica como uma versão
prolongada da aguda. Quando os sinais de dor são gerados repetidamente,
os circuitos neurológicos sofrem alterações eletroquímicas
que os tornam hipersensíveis aos estímulos e mais resistentes
aos mecanismos inibitórios da dor. Disso resulta uma espécie
de Amemória dolorosa@ guardada na medula espinal.
Estudos recentes têm demonstrado que essa Amemória dolorosa@
está ligada a mediadores químicos muito semelhantes aos
envolvidos no processo intelectual de memorização.
O conhecimento detalhado desses mediadores levará à descoberta
de analgésicos mais potentes e com menos efeitos colaterais.
Os circuitos nervosos responsáveis pela dor crônica são
tão diferentes daqueles associados à dor aguda, que muitos
autores propõem nomes diferentes para caracterizar os dois processos:
eudinia para as dores agudas e maledinia para as crônicas.
Dor crônica é uma doença debilitante com conseqüências
nefastas para a condição física, psicológica
e o comportamento. Seus portadores desenvolvem depressão, deficiências
psicomotoras, lembranças e sensações de perda que
muitas vezes guardam pouca relação com o quadro doloroso.
Tais sintomas costumam ser interpretados como característicos
de patologias psiquiátricas, quando na verdade refletem apenas
a semelhança que existe entre dor e memória.
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