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Aterosclerose
Aterosclerose: Doença Infecciosa?
“Depois de examinar as partes mais importantes do coração,
sem encontrar nada que justificasse a morte súbita do paciente
ou os sintomas que a precederam, eu estava fazendo um corte transverso
próximo da base do coração, quando a faca se deparou
com alguma coisa dura, como se fossem pequenas pedras. Lembro que olhei
para o velho teto, pensando que algo tivesse caído de lá.
Examinando melhor, a verdadeira causa apareceu: as coronárias
tinham se transformado em canais ósseos.”
(Primeira descrição científica de uma placa
de aterosclerose coronariana, feita ao redor de 1790, por Edward Jenner,
o descobridor da vacina contra a varíola.)
A formação de placas no interior das
coronárias é a causa de morte mais freqüente depois
dos 45 anos, nas sociedades industriais. Diversos fatores aumentam o
risco da doença: idade, sexo, história familiar, diabetes,
hipertensão, colesterol elevado e o cigarro (ou charuto). Em
1970, foi demonstrado em pássaros que a infecção
por um vírus do grupo herpes provocava o aparecimento de placas
de ateroma típicas dentro das artérias.
A partir de então, diversos estudos conduzidos no homem e animais
de laboratório levantaram suspeitas de que três microrganismos
pudessem estar envolvidos no desenvolvimento da doença: Citomegalovírus,
Helicobacter pylori e Chlamydia pneumonia.
A infecção pelo Citomegalovírus, com ou sem sintomas,
é muito comum no homem. O vírus pode alterar o metabolismo
do colesterol, ativar fatores envolvidos na coagulação
e a produção de proteínas que atuam no processo
inflamatório crônico característico das placas de
ateroma. Vários estudos sugerem uma relação entre
infecção prévia pelo vírus e o aparecimento
de novas placas nas artérias em pacientes submetidos à
revascularização coronariana (ponte de safena). Como a
maioria dos adultos tem anticorpos contra o vírus, entretanto,
a interpretação desses resultados é inconclusiva.
O Helicobacter pylori é uma bactéria parasita do trato
gastrintestinal causadora de gastrites e úlceras. Provoca uma
infecção crônica, que libera proteínas capazes
de disparar reações no revestimento interno dos vasos
e levar à formação da placa. Desde 1994, foram
publicados 20 estudos, dos quais pelo menos 10 mostraram que a infecção
por essa bactéria duplica o risco de doença coronariana.
Os outros não encontraram relação significante.
A bactéria nunca foi isolada no interior das placas.
A Chlamydia pneumoniae é uma bactéria responsável
por cerca de 10% das pneumonias adquiridas na comunidade. Depois dos
30 anos, 50% das pessoas têm anticorpos contra ela; depois dos
70 anos, esse número sobe para 80%. Desde que um estudo finlandês
publicado na metade dos anos 1980 demonstrou que homens com doença
coronariana crônica apresentavam títulos mais altos de
anticorpos contra o germe, diversos trabalhos procuraram comprovar a
ligação entre os dois eventos. Pelo menos 18 estudos confirmaram
a relação. Além disso, a bactéria foi isolada
de placas no interior de artérias obstruídas em diversas
oportunidades (o que não comprova definitivamente seu papel na
gênese da placa).
S. Gupta e colaboradores publicaram estudo conduzido entre 220 homens
recém infartados dos quais alguns foram tratados com um antibiótico
(azitromicina) ativo contra Chlamydia. Houve diminuição
importante de complicações cardiológicas no grupo
tratado. Outro estudo similar, porém com o uso do antibiótico
por período mais prolongado (3 meses), não conseguiu obter
os mesmos resultados. No momento, há dois estudos de larga escala
(WIZARD e ACES) procurando estabelecer a relação entre
o uso de azitromicina e o aparecimento de complicações
cardiovasculares em 7.500 pessoas portadoras de doença coronariana.
A aterosclerose é uma doença inflamatória crônica
que evolui com formação de placas no interior das artérias.
Há evidências cada vez mais claras de que um agente infeccioso
possa desempenhar papel importante na gênese das placas que obstruem
as artérias. Embora germes como a Chlamydia tenham sido isolados
dessas placas, isso não prova a relação de causa
e efeito. Teoricamente, o microorganismo pode ser um simples parasita
da placa formada sob influência de fatores que nada têm
a ver com ele. Os resultados dos estudos WIZARD e ACES, pelo grande
número de participantes, estão sendo aguardados com ansiedade
pela comunidade científica. Talvez a relação infecção-inflamação-aterosclerose
seja claramente estabelecida. Então, quem sabe preveniremos infartos
e derrames cerebrais com antibióticos.
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