Drauzio – Como a nicotina age nos centros nervosos?
José Rosemberg – Quem fuma um cigarro dá seguramente dez tragadas em média. Se fumar um maço por dia, serão duzentas tragadas em vinte e quatro horas e 73 mil num ano, o que resultaria em 73 mil impactos no cérebro por ano. O conceito de que a cada tragada corresponde um impacto cerebral não é verdadeiro. Aliás, nenhuma droga age dessa forma no cérebro.
O que acontece? A ação da nicotina é permanente no cérebro. Quando está presente, todos os centros nervosos – o dopamínico, o mesolimbo, o núcleo acumbens - a reconhecem e uma série de centros e neurônios nicotínicos, com várias sub-unidades, atuam se revezando: quando uns caem, outros começam a funcionar. Portanto, a nicotina continua agindo no cérebro, mesmo à noite, enquanto a pessoa dorme, e não está fumando.
Drauzio – Como se explica que algumas pessoas consigam manter-se como fumantes moderados e fumem no máximo dez cigarros por dia, enquanto outras fumam três ou quatro maços?
José Rosemberg – Essa pergunta é fundamental, porque até mesmo parte dos médicos desconhece a resposta que é importante para o tratamento do fumante. O grau de dependência varia de acordo com as características genéticas, coisa que não se sabia até alguns anos atrás.
A metabolização da nicotina ocorre no fígado, num sistema chamado citocromo 450. Normalmente, 80% dela são metabolizados em 15 minutos. Entretanto, até alguns anos atrás não se sabia que a metabolização cai quando no DNA um dos 20 alelos, isto é, das 20 variedades do gene CYP2A6 é heterozigótico ou nulo. Há indivíduos que têm dez desses alelos geneticamente heterozigóticos e, embora metabolizem menos nicotina e tenham menos propensão para criar dependência, fumam mais. Já se descobriu, também, que o gene DRD2, quando heterozigótico, confere ao portador compulsão enorme para o consumo de tabaco e de qualquer outra droga.
Indivíduos que têm o gene CYP2A6 consomem grande quantidade de tabaco e têm no sangue grande quantidade de cotinina, o primeiro metabolito da composição da nicotina. Quando metabolizam pouca nicotina, têm muita nicotina no sangue e pouca cotinina, porque, apesar de circular pelo sangue, a nicotina não alcança os outros órgãos.
Se a ação da nicotina for muito forte, há uma pausa negativa na resposta dos centros cerebrais, principalmente do núcleo acumbens e dos centros dopamínicos (a dopamina é responsável pela sensação de prazer maior). Como isso aumenta a vontade de fumar e a ansiedade, a pessoa precisa fumar de novo para compensar as unidades que foram sideradas.
Há mais de cem anos, o grande poeta e escritor Oscar Wilde definiu o cigarro como objeto do prazer requintado, mas que deixa descontente. Hoje, conhecemos a explicação genética desses efeitos: a queda da dopamina provocada pela fase negativa dos centros nervosos faz com que o fumante se sinta mal e precise fumar outra vez.
Drauzio – Existe como medir o grau de dependência da nicotina?
José Rosemberg – Não existe um método para medir a dependência. Existe o questionário de Fagerström do qual constam várias perguntas. Por exemplo, quanto tempo o indivíduo leva para fumar o primeiro cigarro pela manhã, quantos cigarros fuma por dia, se acorda à noite para fumar, etc. Quanto mais pontos fizer, maior será o grau de dependência.
Já se sabe, porém, que 30% dos fumantes não se tornam nicotino-dependentes ou apresentam grau baixo de dependência. Nesses casos, simples aconselhamento será suficiente para convencê-los a parar de fumar. Nos outros 70%, o número de recaídas costuma ser muito alto.