Dra. Angelita H. Gama é médica, professora de Coloproctologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e trabalha nos hospitais Oswaldo Cruz e Beneficência Portuguesa de São Paulo.
Drauzio – Como você encaminha uma pessoa que chega ao consultório com queixa de incontinência fecal?
Angelita H. Gama – A conversa com o cliente, o interrogatório clínico é muito importante no encaminhamento do caso, porque há pessoas que têm incontinência em virtude de alterações no tipo de evacuação. Muitas tomam laxantes e evacuam fezes líquidas sempre. Ora, fezes líquidas são difíceis de conter, mesmo considerando que a musculatura do ânus é mais eficiente do que a da mão. Fechando a mão, não conseguimos conter líquidos e muito menos gases. O ânus consegue porque possui musculatura diferenciada. O esfíncter interno está permanentemente contraído e o externo permanentemente com certo grau de relaxamento. Se a pessoa quer conter a evacuação, reforça a contração de repouso também do esfíncter externo. No entanto, é o esfíncter interno que segura mesmo as fezes e os gases. Um grande anatomista já o comparou a um gorila numa jaula. Está sempre atento. Como estávamos dizendo, fezes líquidas são difíceis de conter especialmente se a pessoa já apresenta certo grau de laceamento da musculatura anal. Às vezes, porém, para o problema ser controlado, basta modificar a consistência fecal, fazendo-a passar de líquida para sólida.
Drauzio – Além da anamnese, algum exame ajuda no diagnóstico?
Angelita H. Gama – O exame proctológico é de grande importância para o diagnóstico e o tratamento que pode ser cirúrgico ou não-cirúrgico. Por meio do toque retal se percebe a flacidez do ânus e o retossigmoidoscópio (aparelho em forma dr tubo dotado de lentes que permitem visualizar a parte interna das porções mais baixas do intestino) possibilita a avaliação das condições gerais da região. Se a incontinência for mais acentuada, são necessários exames mais especializados como a eletromanometria, que mede as pressões do esfíncter, e a miografia. 
Drauzio – Como se realiza a miografia?
Angelita Gama – O nome completo desse exame é Medida do Tempo de Latência do Nervo Pudendo. É um exame importante e muito simples. Consiste em fazer um toque com um instrumento que se liga ao eletromiógrafo. A imagem 2 mostra o aparelho medindo o tempo de contração muscular na área enervada pelo nervo pudendo. Quando esse tempo é maior, significa que o músculo está denervado e funcionando mal. Exames especializados como a manometria, o tempo de latência do pudendo e o ultra-som intra-anal, que mostra se o esfíncter está integro ou com lesão, são indispensáveis para seleção e adequação do procedimento cirúrgico.