Drauzio – Você disse que o tratamento da incontinência fecal pode ser cirúrgico ou clínico. Em que consiste o tratamento clínico?
Angelita H. Gama – O tratamento clínico consiste em corrigir o tipo de evacuação. Isso se consegue com dieta e medicamentos.Vamos prescrever constipantes, se a pessoa tiver diarréia, e substâncias que aumentam o bolo fecal se as fezes são endurecidas e exigem muita força para evacuar. Além disso, o indivíduo aprende que pode recorrer a certas estratégias quando vai viajar ou sair de casa por mais tempo, como usar supositórios evacuadores ou fazer pequenas lavagens intestinais para esvaziar o reto. Isso evita o inconveniente da perda de fezes, o que acontece muitas vezes sem que ele perceba, pois, além do relaxamento dos músculos, a sensibilidade anal fica comprometida. Felizmente, existem pomadas com substâncias que melhoram a sensibilidade e facilitam a contração do ânus. Outras medidas conservadoras que facilitam o tratamento não-cirúrgico da
incontinência fecal são o uso de alguns medicamentos antidepressivos e o sistema de biofeedback, indicado para pessoas que não conseguem contrair a musculatura da região anal (o que é definido pelo exame de eletromanoterapia). O biofeedeback é um auto-treinamento que ajuda o paciente a descobrir o nível de contração necessário para fechar o ânus. Em três ou quatro sessões, ele aprende como utilizar a musculatura que existe, mas não sabe usar.
Drauzio – Como se explica que as pessoas não saibam utilizar um mecanismo tão natural?
Angelita H. Gama – Vamos imaginar, por exemplo, uma pessoa que seja operada das hemorróidas, cirurgia em que o esfíncter é preservado, mas o paciente passa por um período de desconforto em que sente dor, toma laxantes e, às vezes, fica com medo de contrair o ânus. A incontinência de que se queixa não tem outra causa senão o fato de não estar usando a musculatura por temor ou ansiedade. Aliás, a ansiedade é causa de uma série de doenças, entre elas os distúrbios da defecação.
Drauzio – O que acontece com as pessoas que por ansiedade contraem excessiva e
involuntariamente a musculatura?
Angelita H. Gama – Essa contração constante, que pode ser diagnosticada pelo exame de eletromanometria, vai gerando dificuldade para evacuação e pode chegar ao que chamamos de contração paradoxal do músculo que sustenta o períneo (músculo elevador do ânus).
Drauzio – Qual a conduta quando o defeito é mais grave, por exemplo, quando houve mesmo a ruptura dos músculos responsáveis pela continência do ânus?
Angelita H. Gama – Na imagem 3, o pontilhado indica o músculo que está por baixo da pele, o esfíncter do ânus, e que houve uma ruptura, uma falha que pode ser vista melhor na imagem 4. É claro que, quando existe esse afastamento, o ânus fica frouxo e sem a possibilidade de segurar as fezes. Corrigir esse problema é um procedimento razoavelmente simples. Sob
anestesia, o cirurgião faz uma incisão na pele, identifica a extensibilidade do músculo que não fecha mais o ânus, aproxima as duas pontas, costura uma na outra (imagem 5) e a pessoa passa a evacuar bem de novo. No entanto, esse procedimento só pode ser feito quando o afastamento não é muito grande. Nas pessoas mais idosas, às vezes, a denervação é mais extensa como revelam os exames de eletromanometria e miografia. Nesses casos, somos obrigados a utilizar a transposição de outros músculos. Existe uma operação antiga que fizemos muito no Hospital das Clínicas e que consiste na transposição de um músculo da coxa para o ânus, que passa a funcionar com esse novo músculo. Drauzio – Como é feita essa cirurgia? Angelita Gama – Descolamos o músculo da coxa que se insere no joelho e que não faz falta para a movimentação da perna. É um músculo longo, com um pedículo vascular próximo à espinha ilíaca, na bacia. Em seguida, dissecamos todo o músculo, fazemos um túnel entre a coxa e o ânus, passamos por ele o músculo com o qual circundamos o reto.
Drauzio –Como costuma ser o resultado dessa cirurgia?
Angelita H. Gama – Não é perfeito, mas é melhor do que nada. É um procedimento de exceção. Hoje dispomos de outros artifícios que a população precisa conhecer para o tratamento de casos graves de incontinência fecal.