Drauzio – Particularmente no Brasil, qual é a situação da malária atualmente?
Stefan Cunha Ujvari –A situação da malária é estável, mas essa estabilidade não é animadora porque na década de 1990, em média, foram notificados 500 mil novos casos por ano. Acredito, porém, que esse número seja muito maior, se computarmos os casos que não são notificados quando o tratamento não é administrado em serviços públicos.
A malária estava relativamente bem controlada nas décadas de 1950/1960, mas reapareceu nas décadas de 1970/1980 com a ocupação populacional desordenada que ocorreu na periferia da Amazônia Legal. Estradas foram abertas, sistemas de irrigação instalados e houve a corrida do ouro em Rondônia, no noroeste amazônico. Tudo isso fez com que o número de casos aumentasse consideravelmente e atingisse o pico de 500 mil novos casos notificados por ano.
Não se consegue controlar a malária no habitat do mosquito transmissor da doença que vive na floresta tropical. O que se pode fazer é implementar medidas de controle na periferia especialmente da floresta amazônica. Certos cuidados como drenar áreas alagadas para impedir a formação de criadores de mosquitos, colocar telas nas janelas para que eles não entrem nas casas, estão voltados para combater o mosquito nas regiões peridomiciliares.
Além disso, pessoas que viajam para esses lugares e adentram a floresta – hoje o ecoturismo tornou-se uma opção importante de lazer – deveriam entrar em contato com um órgão especializado em doenças tropicais para obter informações a respeito do que fazer antes de viajar. Em São Paulo, no Hospital das Clínicas, existe o Ambulatório do Viajante que, de acordo com a região a ser visitada, orienta sobre a necessidade de tomar vacina contra a febre amarela ou remédios profiláticos para a malária, por exemplo.
Drauzio – Não existe vacina contra a malária, mas há remédios que podem ser tomados como profilaxia. Em que casos eles devem ser utilizados por uma pessoa que vá viajar para o Amazonas?
Stefan Cunha Ujvari – Há muito se tenta desenvolver uma vacina para a malária, mas até agora sem sucesso e os remédios que existem precisam ser usados com muito critério porque induzem tolerância. Da mesma forma que os insetos, principalmente os mosquitos, desenvolveram resistência aos inseticidas criados na primeira metade do século XX e as bactérias, resistência a certos medicamentos, o agente da malária também fica resistente. Por isso, o remédio não é vendido em farmácias. Só os órgãos do governo podem fornecê-lo depois de analisar as condições da região à qual a pessoa se dirige. Se ela vai fazer turismo numa embarcação, saindo de Manaus, navegando pelos rios e volta, não há tanto risco e não se recomenda o uso do medicamento. Para viajar tranqüila, porém, deve entrar em contato com os órgãos capazes de orientá-la. Repito, em São Paulo, o centro de referência é o Ambulatório dos Viajantes no Hospital das Clínicas. As orientações podem ser obtidas pessoalmente ou por telefone e levam em conta o itinerário programado.Se for necessário tomar o remédio, basta um comprimido uma vez por semana para prevenir a doença.
Drauzio – Quais são os principais sintomas da malária?
Stefan Cunha Ujvari – A febre provocada pela malária é uma das mais altas que existem. Quando a pessoa é picada pelo mosquito, o agente entra na corrente sangüínea e passa por um período relativamente curto de incubação em que amadurece no fígado. Depois, entra nas hemáceas, nos glóbulos vermelhos, onde se multiplica até que elas se rompem. Nesse momento, ocorre liberação grande número de parasitas na corrente sangüínea o que provoca febre de 40º ou mais, de início abrupto, acompanhada por tremor e dores musculares intensas.
Interessante notar que algumas enfermidades das hemáceas, alvo principal do agente da malária, o plasmodium, funcionam como proteção contra a malária. A anemia falciforme, por exemplo, muito comum na África onde surgiu a doença, é uma delas. Por quê? Porque quando o parasita penetra na hemácea já doente, ela se rompe e não o deixa proliferar. Isso fez com que o número de casos de anemia falciforme crescesse muito na África, pois houve uma espécie de seleção natural.
Voltando aos sintomas da malária, as pessoas que moram na periferia da floresta amazônica, os garimpeiros de Rondônia, por exemplo, quando procuram um órgão especializado para tratamento, já sabem que estão com a doença porque reconhecem os sintomas dada a alta freqüência em que ela ocorre naquelas regiões.
Drauzio – A febre da malária tem um ritmo bastante característico. Você poderia descrevê-lo?
Stefan Cunha Ujvari – A febre pode ocorrer a cada três dias (febre terçã) ou a cada quatro dias (febre quartã) porque o ritmo depende do ciclo dos agentes, o Plasmodium vivax e o Plasmodium falciparum. O que amadurece e prolifera mais rápido provoca o rompimento da hemácea a cada três dias e o outro, de ciclo mais lento, a cada quatro dias.
A malária é uma doença grave com índice de mortalidade importante se o tratamento não for adequado e precoce, especialmente se o agente for o Plasmodium falciparum. É uma doença endêmica no Brasil, já que 500 mil novos casos por ano não representam um número desprezível.