Drauzio – Numa sociedade
em que não houvesse escrita, essas crianças seriam iguais
a todas as outras?
Cláudio Guimarães dos Santos – Num certo sentido, sim.
A leitura e a escrita são funções cognitivas
adquiridas muito recentemente pela nossa espécie. Se pensarmos
que nosso encéfalo não é muito diferente do encéfalo
do caçador-coletor de cem mil anos atrás, concluiremos
que ele não foi preparado para ler e escrever. Considerando
que os primeiros registros escritos datam de cinco ou seis mil anos
e que a “Epopéia de Gilgamesh”, primeiro
texto literário conhecido, foi escrita há cerca de três
mil anos, lá nas tabuinhas de argila da Babilônia, veremos
que pelo menos uma parte do encéfalo não está
preparado para suportar esse tipo de função.
Nesse sentido, a linguagem escrita é muito diferente da linguagem
oral. É preciso aparato nazista para impedir que a criança
aprenda a falar. Para que a linguagem oral se desenvolva, não
há necessidade de aprendizado formal. Basta expor a criança
a um ambiente em que as pessoas falem. Todo mundo conhece a história
do menino-lobo que afastado do convívio humano acabou uivando
como os lobos porque foi essa a estimulação auditiva
que recebeu.
No entanto, é preciso aprender a ler e a escrever. Decifrar
esse código assim como fazer cálculos são habilidades
desenvolvidas num passado mais próximo. Por isso, as crianças
apresentam mais problemas em Matemática e Português.
Todo o mundo gosta de jogar bola, de correr, porque nosso corpo foi
feito para o movimento. Ele garantiu a sobrevivência dos caçadores-coletores
de cem mil anos atrás que precisavam de braços fortes
e de ligeireza de gestos para dominar a presa ou fugir dos animais.
Saber ler e escrever não fazia a menor diferença em
suas vidas.
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Conceito e classificação
Drauzio – O que se entende por
dislexia?
Cláudio Guimarães dos Santos – Dislexia é
tanto o nome de um sintoma, como de uma síndrome e talvez de
uma doença. Como sintoma, designa a dificuldade para ler e
pode acometer tanto a criança quanto o adulto e o idoso. Evidentemente,
o indivíduo que é cego ou tem miopia não corrigida
e não consegue ler, não é disléxico; tem
problemas visuais, sensoriais.Como síndrome, a dislexia faz parte de uma série de
situações deficitárias que podem ser decorrentes
de lesões adquiridas ou de desenvolvimento, daí a divisão
entre dislexias adquiridas e dislexias de desenvolvimento. As adquiridas
acompanham lesões encefálicas, como o acidente vascular
cerebral (AVC) ou traumas, e o paciente apresenta dificuldade de leitura
que pode ser pura, a chamada alexia sem grafia, ou pode ser acompanhada,
por exemplo, de quadros afásicos, de dificuldades de linguagem
oral.
Para o diagnóstico de dislexia adquirida é fundamental
que o indivíduo nessa situação seja letrado,
tenha aprendido a ler e sido alfabetizado.
As síndromes relacionadas às dislexias de desenvolvimento
acometem crianças em idade escolar, crianças que estão
começando o processo de alfabetização.
Eu mencionei que era um sintoma, uma síndrome e talvez uma
doença porque existem determinadas situações
da síndrome disléxica de desenvolvimento que permitiriam
pensar ser ela uma entidade com etiologia, fisiopatologia e quadro
clínico específicos, como a meningite meningocócica,
por exemplo. Essa classificação merece, porém,
estudo mais detalhado. Por isso, prefiro dizer que a dislexia pode
ser tanto um sintoma quanto uma síndrome.
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Exemplo prático
Drauzio – Você poderia
dar um exemplo de como se deve trabalhar com essas crianças?
Cláudio Guimarães dos Santos – O grande problema de
uma criança com dislexia fonológica é a correlação
entre sons e letras, a correlação fonema/grafema. Para
melhorar essa percepção, podemos trabalhar com palavras
que têm sons semelhantes em determinadas posições
- molhada e folha – com o propósito de fazer a criança
reconhecer que a estrutura LH, por exemplo, tem a mesma grafia e o
mesmo som independentemente do lugar que ocupe na palavra.
Para abordar a questão dos espelhamentos, isto é, das
inversões de sílabas ou de letras, um erro comum nessas
crianças, pode-se colorir as sílabas ou enfatizar certos
aspectos de uma palavra específica dentro de um texto maior.
O trabalho com rimas para estimular a consciência fonológica,
isto é, a capacidade de perceber a estrutura sonora da palavra,
também é muito proveitoso. É importante para
a criança perceber que o CA de casa é o mesmo CA de
cachorro e que peteca rima com sapeca. Outra estratégia é
explorar a divisão silábica. É difícil
para essas crianças perceberem que as palavras podem ser divididas
em sílabas.
Em outra etapa, todos esses elementos são associados ao significado
das palavras e do texto. Ler não é simplesmente pronunciar
os vocábulos nem estabelecer a correlação entre
fonema e grafemas. É preciso compreender o que as idéias
que o texto veicula.
Drauzio – Isso depende de treinamento?
Cláudio G. dos Santos – Depende dessa
interação dentro de uma perspectiva motivacional e relevante.
É fundamental que se estabeleça boa relação
entre o terapeuta e a criança que está sendo tratada,
que precisa entender o que está sendo feito com ela. Um passo
importante na evolução do caso é dado quando
ela própria começa a apropriar-se do tratamento e sugere
as atividades que deseja fazer. Dentro de certos limites, isso configura
melhor prognóstico. Site
www.urn.com.br
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Dislexias de desenvolvimento
Drauzio – As dislexias
de desenvolvimento, essas que aparecem na infância, são
todas iguais?
Cláudio Guimarães dos Santos – De maneira nenhuma.
Um tipo bastante conhecido dos professores é a grande dificuldade
que determinadas crianças apresentam para aprender a ler as
primeiras palavras, para estabelecer as correlações
entre grafemas (letras) e fonemas (sons). Cada língua tem os
sons que lhe são próprios. O português tem uns,
o inglês tem outros e o russo, outros sons diferentes. Quando
está aprendendo a ler, a pessoa precisa estabelecer correlações
no sentido de reconhecer qual letra ou agrupamento de letras corresponde
a certos sons. Por exemplo, precisa perceber que a letra C quando
seguida da vogal A forma o som KA e que L antes de H seguido de A
produz o som LHA.
A dificuldade para realizar esse processo acomete especialmente crianças
com dislexia de desenvolvimento. Elas trocam as consoantes surdas
e sonoras (p/b,t/d, c/g), por exemplo, cola por gola, invertem a posição
das letras ou omitem algumas ao escrever uma palavra. Essas crianças
não conseguem elaborar o mapa entre os sons de determinadas
palavras e as letras que as constituem quando escritas. Esse tipo
de dislexia é detectado logo no início do processo de
escolarização e pode acompanhar a criança por
muito tempo.
-
Dislexia discursiva
Drauzio – De que outras
formas pode manifestar-se a dislexia de desenvolvimento?
Cláudio Guimarães dos Santos – A dislexia ou dificuldade
de leitura pode manifestar-se num nível diferente. A criança
é alfabetizada, mas se mostra incapaz de adquirir estratégias
de produção e decodificação textual. Até
consegue ler as palavras. Não consegue, porém, estabelecer
ligações entre elas, nem correlacionar as sentenças
e formar a macro-estrutura do texto.
Essa dificuldade de processar textos faz com que mal e mal continue
o processo de escolarização. Embora consiga passar pelo
ciclo básico, quando as disciplinas adquirem especificidade
e a linguagem escrita se transforma num instrumento para a aprendizagem
de matemática, história, ciências, geografia,
entre outras, seu desempenho é catastrófico. No geral,
é uma criança que vai relativamente bem até a
terceira ou quarta série, mas não consegue acompanhar
a quinta série.
Esse quadro, até onde sei, foi descrito pelo nosso grupo e
eu o chamei de dislexia discursiva para diferenciar da dislexia ligada
ao fonema, à sílaba, ao universo da palavra, enfim.
Ele reflete uma incapacidade de processar discursos escritos, uma
incapacidade para decodificar e formular o texto escrito. A criança
vai mal na prova de geografia, por exemplo, porque não consegue
entender o enunciado das questões e muito menos escrever uma
resposta. Em muitos casos, a criança domina as informações
e sabe transmiti-las oralmente, mas não é capaz de entendê-las
quando está lendo.
Drauzio – Quando a professora faz um ditado,
essas crianças são capazes de escrever corretamente
as palavras?
Cláudio Guimarães dos Santos – Se a dislexia
for discursiva, conseguem; se for fonológica, não conseguem.
Crianças com dificuldade de imaginar a estrutura da palavra
correspondente ao som vão cometer erros porque não têm
esse mapeamento bem estabelecido. Como se trata de duas situações
diferentes, obviamente elas merecem atenção individual
e personalizada.
-
Padrão de dificuldades
Drauzio – Considerando
cada grupo isoladamente, existe um padrão de dificuldades que
se manifesta em todas as crianças?
Cláudio Guimarães dos Santos – Durante muito tempo,
a palavra dislexia foi usada impropriamente para designar os transtornos
da aprendizagem em geral, incluindo as dificuldades de cálculo
e de raciocínio. No entanto, dislexia é a dificuldade
de leitura e de compreensão do texto escrito.
Crianças com dislexia fonológica, essa que aparece nos
primeiros anos de escolarização, podem apresentar certas
peculiaridades durante a aquisição da linguagem oral,
por exemplo, certo atraso nas fases observadas pelas crianças
normais e dificuldade na realização de tarefas de consciência
fonológica como rimar palavras, por exemplo. Neste momento,
não me refiro ainda à escrita, mas à estrutura
sonora da palavra que é assimilada antes da alfabetização.
Com isso quero dizer que a dislexia fonológica de desenvolvimento
pode ser percebida antes de a criança começar o processo
de alfabetização, o que permite acompanhá-la
precocemente e com um pouco mais de cuidado.
Drauzio – Os pais geralmente não
percebem o problema nessa fase.
Cláudio Guimarães dos Santos – Os pais não
percebem e raramente percebem os professores que acompanham as crianças
na fase pré-escolar. Na verdade, na imensa maioria das vezes,
a dislexia fonológica de desenvolvimento é detectada
no momento da alfabetização.
Como se trata de uma dificuldade específica de leitura que
se refletirá na escrita posteriormente, na minha opinião
e de alguns pesquisadores, a escolarização dessas crianças
não deve ser prejudicada. O fato de aprenderem com maior dificuldade,
às vezes com muitíssima dificuldade, os problemas com
a escrita e a leitura não devem atrapalhar a absorção
de outros conhecimentos que podem ser transmitidos por via oral ou
auditiva. Aa provas orais revelam que essas crianças são
capazes de dominar conteúdos programáticos. Portanto,
sob o ponto de vista de tratamento ou de acompanhamento pedagógico,
é muito importante dar a elas a oportunidade para se escolarizarem,
enquanto vão cuidando de suas deficiências, ao contrário
do que acontecia no passado, quando toda a ênfase era dada à
absorção de conhecimentos por meio da escrita.
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Funções cognitivas adquiridas
Drauzio – Numa sociedade
em que não houvesse escrita, essas crianças seriam iguais
a todas as outras?
Cláudio Guimarães dos Santos – Num certo sentido, sim.
A leitura e a escrita são funções cognitivas
adquiridas muito recentemente pela nossa espécie. Se pensarmos
que nosso encéfalo não é muito diferente do encéfalo
do caçador-coletor de cem mil anos atrás, concluiremos
que ele não foi preparado para ler e escrever. Considerando
que os primeiros registros escritos datam de cinco ou seis mil anos
e que a “Epopéia de Gilgamesh”, primeiro
texto literário conhecido, foi escrita há cerca de três
mil anos, lá nas tabuinhas de argila da Babilônia, veremos
que pelo menos uma parte do encéfalo não está
preparado para suportar esse tipo de função.
Nesse sentido, a linguagem escrita é muito diferente da linguagem
oral. É preciso aparato nazista para impedir que a criança
aprenda a falar. Para que a linguagem oral se desenvolva, não
há necessidade de aprendizado formal. Basta expor a criança
a um ambiente em que as pessoas falem. Todo mundo conhece a história
do menino-lobo que afastado do convívio humano acabou uivando
como os lobos porque foi essa a estimulação auditiva
que recebeu.
No entanto, é preciso aprender a ler e a escrever. Decifrar
esse código assim como fazer cálculos são habilidades
desenvolvidas num passado mais próximo. Por isso, as crianças
apresentam mais problemas em Matemática e Português.
Todo o mundo gosta de jogar bola, de correr, porque nosso corpo foi
feito para o movimento. Ele garantiu a sobrevivência dos caçadores-coletores
de cem mil anos atrás que precisavam de braços fortes
e de ligeireza de gestos para dominar a presa ou fugir dos animais.
Saber ler e escrever não fazia a menor diferença em
suas vidas.
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Evolução do quadro
Drauzio – Na sua opinião,
crianças com dislexia devem freqüentar uma escola comum
e priorizar o aprendizado oral enquanto fazem o tratamento específico.
Como costuma ser a evolução dessas crianças quando
os casos são bem orientados?
Cláudio Guimarães dos Santos – Em parte talvez porque,
no passado, outros transtornos de aprendizagem eram associados às
dislexias, a epidemiologia desses processos é muito confusa,
tanto no Brasil quanto no exterior. Para dar uma idéia, os
dados sobre a prevalência da dislexia fonológica variam
entre 1% e 30%, números bastante díspares.
Isso vale não só para a dislexia, mas para as disfunções
cognitivas em geral. Hoje sabemos - e enfatizamos muito em nosso grupo
- que o tratamento deve ser individualizado. Lidar com reabilitação
nessa área é diferente de tratar um caso de meningite
meningocócica. Nessa doença, o tratamento é padronizado.
A mesma droga pode ser administrada para a maioria das pessoas, respeitando
apenas particularidades como peso corpóreo, dosagem adequada,
etc.
taylormade). Recentemente, um grupo de especialistas do Canadá
demonstrou interesse por nosso trabalho porque defendemos uma perspectiva
de tratamento que privilegia a individualização, enquanto
nos países anglo-saxônicos, a tendência é
padronizar.
No que se refere ao tratamento, a evolução do paciente
é extremamente peculiar e idiossincrásica. Dependendo
de como foi instituído, das características do indivíduo,
de seu background familiar, de como foi estimulado durante o desenvolvimento,
o prognóstico pode ser melhor ou pior.
Nas disfunções cognitivas, na dislexia em especial,
o tratamento é quase sob medida (os ingleses o chamam de
-
Tratamento
Drauzio – Em que se baseia
o tratamento que seu grupo está desenvolvendo?
Cláudio Guimarães dos Santos – Primeira medida: é
feito o melhor levantamento possível das alterações
que o indivíduo apresenta. Como disse Chico Buarque em uma
de suas músicas, “Procurando bem todo o mundo tem
bereba, só a bailarina que não tem”, pacientes
com disfunções cognitivas raramente têm alterações
isoladas. Em vista disso, um bom tratamento para dislexia fonológica
pode ser desestabilizado por pequena alteração da memória
ou de atenção que não foi detectada numa avaliação
prévia.
Segundo: quando possível, investigam-se os aspectos pré-mórbidos
do paciente, suas características constitucionais, o ambiente
sócio-cultural em que foi criado, seus interesses e motivações.
Todo o tratamento e mesmo a avaliação precisam ter como
base o aspecto motivacional. Tratamento de disfunção
cognitiva não pode ser maçante.
Drauzio – Manter o paciente motivado é
fundamental para o resultado do tratamento.
Cláudio Guimarães dos Santos - No passado, as técnicas
eram muito repetitivas. Hoje, têm que ser motivacionalmente
relevantes. O paciente precisa estar motivado para aderir ao tratamento.
Vivemos na época do controle-remoto. O programa está
chato, aperta-se um botão e procura-se outro. Ainda mais a
criança, que é muito espontânea, honesta e sincera,
se não estiver interessada, logo deixa claro seu desinteresse
e insatisfação.
Drauzio – Além da motivação,
que outras estratégias se tornam necessárias? Cláudio Guimarães dos Santos - São pré-requisitos
básicos também o acompanhamento contínuo e periódico
do processo e a interação com a equipe que faz a reabilitação
na escola. Aliás, o papel da escola é muito importante
na detecção e tratamento dessas lesões. Não
se pode esquecer de que freqüentemente é a professora
quem levanta a questão da dificuldade e encaminha a criança
para diagnóstico específico.
Por outro lado, a escola precisa estar aberta para adequar-se e interagir
com a equipe que está tratando da criança, no sentido
de alterar rotinas, fazer avaliações orais, etc.
No tratamento das crianças com dislexia é fundamental
harmonizar o trinômio: escola, indivíduo e família.
Drauzio – Se considerarmos a qualidade
de ensino de muitas escolas públicas, provavelmente grande
parte dessas crianças acaba não sendo alfabetizada e
desiste de estudar.
Cláudio Guimarães dos Santos – Esse é
outro problema. Há certo modismo em considerar disléxicas
todas as crianças que não conseguem ser alfabetizadas
antes de avaliar se o professor é bom e a sala de aula adequada,
se a criança está bem alimentada e recebendo os estímulos
propícios para aprender a ler e a escrever. Classificar as
dificuldades como decorrentes de dislexia discursiva ou fonológica
só é possível se ocorrerem apesar das condições
ótimas de ambiente e de escolarização. Portanto,
quando a qualidade de ensino deixa a desejar como ocorre em determinadas
áreas de São Paulo e do Brasil, fica extremamente difícil
falar em dislexia.
-
Estímulo à leitura
Drauzio – Há como
estimular a capacidade de leitura de uma criança?
Cláudio Guimarães dos Santos – A capacidade de leitura
pode ser otimizada precocemente. Desde que o mundo é mundo,
criança pequena gosta de que leiam para ela. Se a pegarmos
no colo, abrirmos um livro e mostrarmos que a história está
ali, registrada naquele livro, estaremos estimulando o desenvolvimento
de sua capacidade de leitura e escrita. Primeiro, porque ela começa
a interessar-se pelos livros. Segundo, porque estabelece correlações,
mesmo que rudimentares, entre o que está sendo falado e o que
está sendo mostrado. Terceiro, porque desperta sua curiosidade
para decodificar os sinais que se transformam na história que
ouve.
Além do start que dá no processo de aprendizado da leitura,
ler para a criança é importante do ponto de vista da
formação filosófica e psicológica. É
importante também porque passa informações morais
que a ajudam a socializar-se, a tornar-se um ser humano que respeita
regras, planeja, controla suas vontades.
Drauzio – Que mais se pode fazer
para estimular o desenvolvimento da linguagem nas crianças?
Cláudio G. dos Santos - As antigas cantigas
infantis que estão se perdendo por influência da mídia
precisam ser recuperadas, porque favorecem o desenvolvimento da consciência
fonológica, da capacidade de a criança pensar na estrutura
sonora das palavras. Quando canta “Atirei um pau no gato-to-to,
mas o gato-to-to não morreu” ela vai descobrindo que
a sílaba to que aparece em gato, faz parte também de
outras palavras. Brincar com rimas é outra estratégia
até certo ponto lúdica que não deve ser deixada
de lado.
Drauzio – Qual é a idade ideal para
esse tipo de atividade?
Cláudio Guimarães dos Santos – Crianças
estimuladas entre três e cinco anos serão melhores leitoras
do que aquelas que não foram.
Drauzio – Crianças que apresentam
dislexia na infância podem aprender a ler normalmente depois?
Cláudio Guimarães dos Santos – Algumas, sim.
Outras permanecem com deficiências. De certa maneira, porém,
esses quadros podem ser bastante melhorados.
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Papel dos pais
Drauzio – Como os pais
podem perceber que têm um filho disléxico?
Cláudio Guimarães dos Santos – A primeira coisa a fazer
é observar a criança no que se refere ao desenvolvimento
da linguagem oral. Crianças com atraso significativo nessa
área podem apresentar dificuldades na aquisição
da linguagem escrita e na habilidade de leitura mais tarde.
A segunda é os pais procurarem manter contato próximo
com os filhos, o que é cada vez mais difícil nos dias
de hoje. O ideal seria que percebessem as alterações
de linguagem em casa, antes dos professores e que lessem para as crianças.
Além de todas as vantagens já citadas, a leitura serve
de instrumento para verificar a capacidade que elas têm para
lidar com as palavras.
Nós, que cuidamos da reabilitação, estamos conscientes
de que quanto mais precoce o diagnóstico, melhores as condições
para intervir. É mais difícil tratar uma criança
de dez, doze anos com dislexia fonológica do que uma de seis
ou sete anos.