Drauzio – Sou médico
formado há mais de 30 anos e quando alguém me pergunta
quantas calorias pode ingerir por dia não sei responder.
Alfredo Halpern – Estabelecer esse dado é complicado
e depende do peso, altura, sexo, atividade física e de quantos
quilos a pessoa quer perder. A regra básica é que homens
devem comer mais ou menos 30 calorias por quilo de peso. Se pesam 80kg,
portanto, devem ingerir 2.400 calorias. Saber isso não adianta
praticamente nada se a pessoa não souber quantas calorias cada
alimento contém.
A imprensa vira-e-mexe pergunta: “Dr., o que a pessoa precisa
fazer quando quer emagrecer?” E eu sempre respondo: Olhe, se fosse
fácil, o Brasil inteiro seria um país de gente magra.
É difícil encontrar uma pessoa que não saiba que
alimentos ricos em gordura e açúcar ajudam a engordar.
No entanto, é preciso aprender a enfrentar esse inimigo para
vencer a batalha, porque em algum momento ele vai aparecer na nossa
frente.
Drauzio – Hoje o mercado de alimentos está
inundado de alimentos diet e light. Esses alimentos podem ser ingeridos
à vontade?
Alfredo Halpern – Existe um estudo mostrando que o consumo
de alimentos light e diet corre paralelo ao ganho de peso dos indivíduos.
Claro que se trata de um viés na análise. O fato é
que quem se preocupa com excesso de peso, isto é, 80% a 90% da
humanidade, tende a escolher esse tipo de alimentos o que não
quer dizer, porém, que possa comê-los ou bebê-los
à vontade. Nada tenho contra eles, mas alguma coisa está
errada. A oferta de produtos novos que se encaixam nessa categoria aumenta
a cada dia, embora os casos de obesidade estejam crescendo assustadoramente.
Como médico, às vezes, me sinto frustrado. Há
anos vou aos meios de comunicação, explico o que está
acontecendo e alerto a população sobre os riscos dessa
doença que é a obesidade. No entanto, me parece que
as pessoas recebem uma informação diferente daquela
que os médicos tentam transmitir.
Os laboratórios Roche e Abott, interessados no assunto porque
produzem medicamentos para controle da obesidade, fizeram uma pesquisa
para saber o que as pessoas pensavam a respeito do excesso de peso
e por que queriam emagrecer. Descobriram que o motivo primordial não
é a saúde. É a auto-estima. Elas querem sentir-se
bem. Não pensam que podem morrer por causa da obesidade. Acham
que isso não vai acontecer com nenhuma delas. Algumas chegam
às minhas mãos em péssimas condições.
Olho para elas e tenho a impressão de que não vão
viver um ano. Estão com diabetes, pressão alta, colesterol
elevado, respiram mal. Quando lhes pergunto como se sentem, invariavelmente
respondem: “estou bem, doutor”. Não tenho dúvida,
porém, de que se conseguirem emagrecer, o quadro clínico
melhorará muito e sua qualidade de vida também.
Drauzio – Sou corredor de maratona. Às
vezes, fica difícil acreditar como certas pessoas com excesso
de peso conseguem correr 42km sem parar. Essas pessoas precisam emagrecer?
Alfredo Halpern – Essas pessoas diminuíram um
fator de risco que é o sedentarismo, mas continuam expostas a
outro fator de risco importante: a obesidade. De qualquer forma, se
compararmos duas pessoas com os mesmos quilos a mais, a que não
corre tem maior probabilidade de sofrer infarto ou derrame cerebral.
Drauzio – Essa preocupação
com o emagrecimento pode virar uma neurose. O indivíduo passa
a vida perseguindo um peso ideal que nada tem a ver com suas características
orgânicas.
Alfredo Helpern – Em geral, é um peso inatingível.
Existem pesquisas, e minha experiência não é outra,
mostrando que as pessoas estabelecem como meta a atingir um peso impossível.
Vamos citar um exemplo. O indivíduo pesava 100kg, emagreceu,
chegou aos 80kg, mas quer pesar 65kg. Não está satisfeito
apesar de ter perdido 20% do peso, o que lhe trará benefício
enorme segundo todos os estudos a respeito do assunto. Se mantiver esse
novo peso para sempre, seu caso foi um sucesso, mas ele se sente fracassado
porque não conseguiu pesar o que havia previamente imaginado.