Drauzio - Como os pais devem orientar os filhos desde pequenos
para fugir da tentação que representa o açúcar
na vida das crianças?
Marcello Bronstein - O açúcar é uma tentação
na vida das crianças e de muitos adultos também. Os pais
precisam usar de bom-senso. De nada adianta serem repressivos ao extremo,
porque a criança vive numa sociedade em que o consumo de açúcar
é liberado. Dá para imaginar uma festinha infantil sem doces
nem refrigerantes?
O importante, então, é ensiná-las, como rotina, que
a alimentação deve ser balanceada, fazendo-a entender que
açúcar é um complemento, quase um prêmio a
ser dado depois de uma refeição saudável. Se comerem
carnes, verduras e frutas, poderão saborear um chocolate depois.
Proibir totalmente pode instigá-las a contrariar as ordens ou a
comer muito mais do que deveriam quando tiverem oportunidade.
A criança deve habituar-se também a preferir água
ou sucos a refrigerantes que não têm valor nutritivo e aumentam
a sobrecarga de açúcar no organismo.
Drauzio - No caso de a família reparar que a criança
está enfraquecendo, urinando muito e bebendo muita água,
o que deve fazer?
Marcello Bronstein - A primeira triagem pode ser feita em casa
mesmo. O mais simples é comprar na farmácia uma fitinha
que mede o nível de açúcar, molhá-la na urina
da criança e compará-la com o padrão estampado na
caixinha do produto. Se o resultado for positivo, os pais devem procurar
imediatamente o pediatra que os encaminhará a um endocrinologista.
Mesmo que o resultado seja negativo, se a criança estiver urinando
muito e bebendo muita água, é preciso procurar logo um médico
que orientará o diagnóstico. Há uma doença
rara, o diabetes insipidus, que demanda tratamento absolutamente específico.
Trata-se de um problema da região da hipófise que, apesar
do nome, nada tem a ver com a forma clássica da doença.
Drauzio - Que futuro aguarda essas crianças que desenvolveram
diabetes tão precocemente?
Marcello Bronstein - Eu diria que atualmente essas crianças
têm um futuro bastante promissor. Até 1920, no entanto, crianças
diabéticas não teriam sobrevida prolongada porque sem insulina
não se vive. Em geral, eram subnutridas, pois comiam pouquíssimo
e nada se podia fazer além de indicar-lhes dieta com restrição
de açúcar e reposição de líquidos o
que pouco resolvia porque era como tentar encher um tanque com o ralo
aberto. Essas crianças são dependentes de insulina, hormônio
que só foi sintetizado por volta de 1924/1925, por dois canadenses,
Breitner e Best.
Descoberta a insulina, essas crianças insulino-dependentes puderam
ser salvas, mas com qualidade de vida prejudicada, uma vez que a insulina
tinha ação demasiado rápida e precisava ser aplicada
várias vezes ao dia. Tempos depois, desenvolveram-se drogas com
ação mais prolongada que podiam ser combinadas com as de
ação mais rápida para compensar a elevação
do açúcar nas refeições. Apesar de todos esses
avanços, o controle do diabetes não era perfeito e apareciam
as complicações que já foram enumeradas.
O que acontece hoje? Em primeiro lugar, existe uma insulina de ação
superlenta que pode ser ministrada numa única dose à noite
ou eventualmente em duas doses diárias. Existem, também,
insulinas de ação rápida que atuam imediatamente
e cobrem o período alimentar e está sendo desenvolvida uma
insulina inalável que, absorvida pelos alvéolos pulmonares,
facilitará a vida de crianças e adultos diabéticos
dependentes desse hormônio. Acredita-se que seu uso possibilitará
reduzir ao mínimo as doses injetáveis, substituindo-as por
várias inalações diárias. Embora ainda não
esteja disponível no mercado, a insulina inalável está
em fase de franca experimentação.
Infelizmente, ainda não se conseguiu desenvolver uma insulina que
pudesse ser ministrada por via oral. Por ser uma proteína, ela
é degradada pelos sucos digestivos e perde a eficácia.
Resta o recurso dos transplantes de pâncreas. Normalmente, ele é
indicado para os diabéticos que desenvolveram insuficiência
renal e precisam ter simultaneamente rins e pâncreas transplantados.
Há uma casuística bastante animadora de transplante conjunto
de pâncreas e rins no Hospital das Clínicas e na Beneficência
Portuguesa de São Paulo.
Outra possibilidade de tratamento bastante promissora está em estudo:
o transplante de ilhotas de Langerhans, nome do pesquisador que as descreveu.
O pâncreas é um órgão de múltiplas funções.
A produção de insulina é apenas uma delas e se realiza
em células localizadas nessas ilhotas que seriam retiradas do pâncreas
e injetadas numa veia que as conduziria diretamente ao fígado,
glândula que passaria a desempenhar as funções do
pâncreas.
Drauzio - Você acha que há a possibilidade de
tratamento em massa por esses métodos mais complicados?
Marcello Bronstein - Acho que não, nem haveria necessidade,
pois a grande maioria dos diabéticos pertence ao tipo II e não
precisa tomar insulina. Eles precisam seguir uma dieta alimentar e praticar
exercícios.
-
Principais sintomas
Drauzio - Quais os principais sintomas do diabetes?
Marcello Bronstein - Quando o açúcar sobe no sangue
e falta insulina, ele passa para a urina. A pessoa normal não tem
açúcar na urina porque isso só acontece se a concentração
na corrente sanguínea estiver acima de 180mg/dl, número
bastante alto e indicativo de que o diabetes está instalado. Mais
baixo do que isso, a glicose entra no rim e volta para o organismo. Então,
quem não tem diabetes, se medir a glicose na urina, o resultado
deve ser negativo.
Quando os rins não conseguem reabsorver o açúcar
porque seu nível está muito alto no sangue, ele é
eliminado pela urina, que aumenta de volume. Como dizia um professor da
faculdade, já que ninguém pode urinar melado, o organismo
absorve mais água para diluir o açúcar. É
o mecanismo da diurese osmótica. Por isso, os principais sintomas
do diabetes são a poliúria e a polidpsia, isto é,
a pessoa urina demais e, como isso a desidrata, sente uma sede terrível
e bebe bastante água. Portanto, urinar muito e beber muita água
são manifestações importantes do quadro agudo da
doença. Se em vez de tomar água, ela preferir sucos e cervejas,
por exemplo, estará pondo lenha na fogueira. A glicose atingirá
níveis altíssimos e a pessoa poderá entrar em coma.
Apesar da elevação do açúcar na circulação,
o diabético descompensado emagrece, pois a incapacidade de a insulina
sintetizar gorduras e músculos reverte-se em perda desses componentes.
Ao ser eliminada, essa gordura cinde-se em pequenas moléculas que
reagem formando os corpos cetônicos, substâncias que espalham
acidez pelo organismo e provocam a cetoacidose diabética, talvez
a complicação aguda mais séria da doença.
-
Sintomas na infância
Drauzio - Quais os principais sintomas do diabetes na criança?
Os pais devem estar atentos a que manifestações?
Marcello Bronstein - De modo geral, na forma branda, pode não
existir sintoma algum e essa é a razão de muita gente não
saber que é diabética.
A criança, normalmente, apresenta diabetes tipo I, uma forma severa
da doença com ausência total ou quase total de insulina.
Por causa disso, de uma hora para outra, ela passa a urinar muito, a beber
muita água, sente-se mal, tem turvação visual e emagrece
rapidamente. Percebendo tais sintomas, os pais devem encaminhá-la
a um médico sem demora.
O tipo II é uma doença mais insidiosa, mais lenta e é
comum a pessoa demorar a perceber que está urinando ou bebendo
água demais. Por isso, qualquer alteração na freqüência
das micções ou no aumento da sede deve servir de alerta,
pois a doença pode ter-se instalado.
-
Álcool e diabetes
Drauzio - Qual o peso do álcool no aparecimento do diabetes?
Marcello Bronstein - O álcool fornece mais calorias que
a própria glicose. Cada grama de glicose fornece 4kcal e o grama
de álcool, 7kcal. Conseqüentemente, ele representa um combustível
importante para o aumento de peso. Ora, a relação entre
aumento de peso e diabetes é indiscutível. Basta lembrar
que 80% dos diabéticos têm sobrepeso ou obesidade.
Além disso, o álcool tem outro fator deletério a
considerar. Quantidades maiores de álcool podem provocar inflamação
aguda do pâncreas, isto é, uma pancreatite alcoólica,
que resulta na destruição dessa glândula e em diabetes
secundário, desencadeado não por herança genética,
mas pela destruição tóxica a que o pâncreas
foi exposto
-
Doce tentação
Drauzio - Como os pais devem orientar os filhos desde pequenos
para fugir da tentação que representa o açúcar
na vida das crianças?
Marcello Bronstein - O açúcar é uma tentação
na vida das crianças e de muitos adultos também. Os pais
precisam usar de bom-senso. De nada adianta serem repressivos ao extremo,
porque a criança vive numa sociedade em que o consumo de açúcar
é liberado. Dá para imaginar uma festinha infantil sem doces
nem refrigerantes?
O importante, então, é ensiná-las, como rotina, que
a alimentação deve ser balanceada, fazendo-a entender que
açúcar é um complemento, quase um prêmio a
ser dado depois de uma refeição saudável. Se comerem
carnes, verduras e frutas, poderão saborear um chocolate depois.
Proibir totalmente pode instigá-las a contrariar as ordens ou a
comer muito mais do que deveriam quando tiverem oportunidade.
A criança deve habituar-se também a preferir água
ou sucos a refrigerantes que não têm valor nutritivo e aumentam
a sobrecarga de açúcar no organismo.
Drauzio - No caso de a família reparar que a criança
está enfraquecendo, urinando muito e bebendo muita água,
o que deve fazer?
Marcello Bronstein - A primeira triagem pode ser feita em casa
mesmo. O mais simples é comprar na farmácia uma fitinha
que mede o nível de açúcar, molhá-la na urina
da criança e compará-la com o padrão estampado na
caixinha do produto. Se o resultado for positivo, os pais devem procurar
imediatamente o pediatra que os encaminhará a um endocrinologista.
Mesmo que o resultado seja negativo, se a criança estiver urinando
muito e bebendo muita água, é preciso procurar logo um médico
que orientará o diagnóstico. Há uma doença
rara, o diabetes insipidus, que demanda tratamento absolutamente específico.
Trata-se de um problema da região da hipófise que, apesar
do nome, nada tem a ver com a forma clássica da doença.
Drauzio - Que futuro aguarda essas crianças que desenvolveram
diabetes tão precocemente?
Marcello Bronstein - Eu diria que atualmente essas crianças
têm um futuro bastante promissor. Até 1920, no entanto, crianças
diabéticas não teriam sobrevida prolongada porque sem insulina
não se vive. Em geral, eram subnutridas, pois comiam pouquíssimo
e nada se podia fazer além de indicar-lhes dieta com restrição
de açúcar e reposição de líquidos o
que pouco resolvia porque era como tentar encher um tanque com o ralo
aberto. Essas crianças são dependentes de insulina, hormônio
que só foi sintetizado por volta de 1924/1925, por dois canadenses,
Breitner e Best.
Descoberta a insulina, essas crianças insulino-dependentes puderam
ser salvas, mas com qualidade de vida prejudicada, uma vez que a insulina
tinha ação demasiado rápida e precisava ser aplicada
várias vezes ao dia. Tempos depois, desenvolveram-se drogas com
ação mais prolongada que podiam ser combinadas com as de
ação mais rápida para compensar a elevação
do açúcar nas refeições. Apesar de todos esses
avanços, o controle do diabetes não era perfeito e apareciam
as complicações que já foram enumeradas.
O que acontece hoje? Em primeiro lugar, existe uma insulina de ação
superlenta que pode ser ministrada numa única dose à noite
ou eventualmente em duas doses diárias. Existem, também,
insulinas de ação rápida que atuam imediatamente
e cobrem o período alimentar e está sendo desenvolvida uma
insulina inalável que, absorvida pelos alvéolos pulmonares,
facilitará a vida de crianças e adultos diabéticos
dependentes desse hormônio. Acredita-se que seu uso possibilitará
reduzir ao mínimo as doses injetáveis, substituindo-as por
várias inalações diárias. Embora ainda não
esteja disponível no mercado, a insulina inalável está
em fase de franca experimentação.
Infelizmente, ainda não se conseguiu desenvolver uma insulina que
pudesse ser ministrada por via oral. Por ser uma proteína, ela
é degradada pelos sucos digestivos e perde a eficácia.
Resta o recurso dos transplantes de pâncreas. Normalmente, ele é
indicado para os diabéticos que desenvolveram insuficiência
renal e precisam ter simultaneamente rins e pâncreas transplantados.
Há uma casuística bastante animadora de transplante conjunto
de pâncreas e rins no Hospital das Clínicas e na Beneficência
Portuguesa de São Paulo.
Outra possibilidade de tratamento bastante promissora está em estudo:
o transplante de ilhotas de Langerhans, nome do pesquisador que as descreveu.
O pâncreas é um órgão de múltiplas funções.
A produção de insulina é apenas uma delas e se realiza
em células localizadas nessas ilhotas que seriam retiradas do pâncreas
e injetadas numa veia que as conduziria diretamente ao fígado,
glândula que passaria a desempenhar as funções do
pâncreas.
Drauzio - Você acha que há a possibilidade de
tratamento em massa por esses métodos mais complicados?
Marcello Bronstein - Acho que não, nem haveria necessidade,
pois a grande maioria dos diabéticos pertence ao tipo II e não
precisa tomar insulina. Eles precisam seguir uma dieta alimentar e praticar
exercícios.
-
Dieta para diabéticos
Drauzio - Como deve ser a dieta para diabéticos?
Marcello Bronstein - Quando se fala em dieta para diabéticos,
pensa-se imediatamente numa dieta drástica, de fome. Não
é verdade. O diabético tipo I, que estiver magro demais,
precisa ingerir calorias suplementares. Por outro lado, as dietas extremamente
restritivas em açúcar que se prescreviam antigamente não
têm mais lugar hoje. Por exemplo, carboidratos complexos como o
amido da batata, do arroz e do feijão são bem-vindos. A
única restrição que permanece é para a oferta
de glicose e de sacarose, açúcares rapidamente absorvidos
pelo organismo.
O diabético tipo II, como qualquer outra pessoa com sobrepeso,
deve emagrecer. Portanto, sua dieta é igual à indicada para
o não diabético, pois ambos devem evitar não só
açúcares, como a glicose e a sacarose, mas também
gorduras, as maiores responsáveis pelo aumento de peso e por alterações
no colesterol e triglicérides. É importante, ainda, distribuir
a alimentação por várias refeições
diárias para minimizar os picos de glicemia e otimizar a produção
de insulina. As crianças, de modo geral, devem aprender a alimentar-se
seguindo esses princípios básicos.
Drauzio - Como convencer uma criança com diabetes tipo
I a ir a uma festa e não comer brigadeiros nem tomar refrigerantes?
Marcello Bronstein - As crianças diabéticas não
devem ser privadas desses pequenos prazeres, nem tratadas como exceção.Os
pais podem aprender como lidar com a insulina e a adequar as doses para
os dias de dieta excepcional.
-
Atividade física
Drauzio - Qual a importância da atividade física
para os diabéticos?
Marcello Bronstein - A atividade física é de vital
importância para os diabéticos. Primeiro, porque acelera
o metabolismo o que ajuda a queimar calorias e a controlar o peso. Depois,
porque o exercício físico proporciona bem-estar e, por fim,
porque é benéfico para o organismo como um todo: ativa a
função cardíaca, melhora a pressão arterial,
etc. Em terceiro lugar, porque há um componente apaziguador de
tensões nos exercícios. É importante ressaltar, porém,
que o diabético só deve aplicar-se a um programa de exercícios
se a doença estiver controlada. Se estiver descompensada, a atividade
física pode ter efeito contrário ao que se deseja, pois
o fígado vai produzir mais açúcar.
Drauzio - Em se tratando de crianças, essa advertência
implica um controle mais rígido, porque a criança desrespeita
mais facilmente os limites?
Marcello Bronstein - É preciso estar atento para evitar
o risco da hipoglicemia, isto é, a queda do açúcar.
Hoje, sabemos que quanto mais rígido o controle do diabetes, maior
a prevenção de suas complicações. Por outro
lado, quanto maior o controle, maior a possibilidade de baixar demais
a glicose e a hipoglicemia pode ter conseqüências graves. A
criança, ou mesmo o adulto, que apresente uma queda brusca de açúcar,
pode perder a consciência.
Por isso, todo diabético, principalmente o do tipo I, precisa determinar
diariamente a dosagem de açúcar no sangue. Por meio da glicemia
digital, ele terá uma idéia da adequação do
tratamento e, orientado por seu médico, poderá fazer correções
para aumentar ou diminuir a insulina ou mudar de alimentação.
É óbvio que furar a ponta do dedo, principalmente para uma
criança, não deixa de ser traumático. No entanto,
as agulhinhas usadas estão cada vez mais finas e a aplicação
menos dolorosa. Nos Estados Unidos, foi desenvolvido recentemente um aparelho
que, em vez de medir a glicemia na gotinha de sangue extraída da
ponta do dedo, usa o braço ou o antebraço para medi-la e
é indolor. Isso para não mencionar os leitores de açúcar
através da pele que utilizam infravermelho e, sem lesão
alguma, permitem ler o nível de glicose no sangue.
Esses avanços vão facilitar o controle da taxa de glicose,
mantendo-a praticamente normal na circulação o que ajudará
a evitar problemas futuros.
Drauzio - Crianças e adolescentes diabéticos
que seguem à risca o tratamento têm condições
de levar uma vida normal?
Marcello Bronstein - Têm condições de levar
uma vida absolutamente normal. Basta que se conscientizem de que, além
de escovar os dentes, tomar banho, trocar de roupas, sua rotina diária
inclui medir a glicemia e tomar insulina na dosagem adequada. Muitos fazem
esporte e aprendem a manipular a dose em função da atividade
prevista para aquele dia. Por outro lado, mesmo diante de imprevistos,
a existência de insulinas de ação ultra-rápida
permite que a dosagem seja calculada de acordo com a necessidade de cada
ocasião
Drauzio - Haverá possibilidade de crianças diabéticas
desde pequenas levarem vida normal, sem as complicações
que a doença costuma acarretar?
Marcello Bronstein - As investigações efetuadas nos
Estados Unidos e que terminaram em 1993, deixam claro que quanto mais
rígido o controle do diabetes, menor a possibilidade de complicações.
É consenso internacional de que pacientes com controle rigoroso
sobre a doença terão menos complicações e
apresentarão qualidade de vida e longevidade igual ou superior
às da população em geral.
Drauzio - Como reagem essas crianças e adolescentes
quando são informados que têm diabetes?
Marcello Bronstein - Quando o diagnóstico é feito,
a fase inicial pode ser muito difícil, especialmente para os pais,
porque mexe com a estrutura e a dinâmica familiar. De repente, é
preciso repensar atividades, alimentação e horários
de toda a família para adequá-los à rotina dos medicamentos
indispensáveis para o controle da doença. Nessa fase, o
endocrinologista deve desdobrar-se para atender as necessidades dos pacientes
e da família.
-
Controle da doença
Drauzio - Como evitar as complicações do diabetes?
Marcello Bronstein - Sabemos hoje que as complicações
do diabetes se manifestam nos pequenos (microangiopatia) e nos grandes
vasos sanguíneos (macroangiopatia). Um estudo realizado nos Estados
Unidos, em 1993, comparou dois grupos de diabéticos insulino-dependentes:
um submeteu-se a um tratamento rigoroso e o outro, a tratamento mais frouxo
para controlar a glicose no sangue, aproximando seu nível, o mais
possível, ao de um indivíduo saudável. Esse estudo
demonstrou que as complicações decorrem de modificações
estruturais causadas pela elevação do açúcar
e que seu controle rigoroso é peça-chave para evitá-las.
Drauzio - Quem deve tratar de pessoas com diabetes?
Marcello Bronstein - O diabetes não pode ser desassociado
de outras doenças glandulares, pois, além da obesidade,
outros distúrbios metabólicos (excesso de cortisona ou do
hormônio do crescimento no organismo ou, ainda, maior produção
de adrenalina pelas supra-renais) podem estar também associados
ao diabetes. Por isso, é desejável que o médico que
vai cuidar desses pacientes tenha uma noção geral de endocrinologia
e faça parte de uma equipe multidisciplinar. A presença
de uma nutricionista é fundamental para orientar a dieta, pré-requisito
básico do tratamento, assim como psicólogos e psiquiatras
podem ajudar muito, porque está comprovado que o comprometimento
emocional é fator agravante da doença.
-
Diabetes tipo I e tipo II
Drauzio - Qual a diferença entre diabetes tipo I e tipo
II?
Marcello Bronstein - Numa definição superficial,
diabetes é uma doença do metabolismo causada pela falta
de insulina, um hormônio produzido pelo pâncreas, fundamental
para a queima do açúcar e para a sua transformação
em outras substâncias, como gorduras, músculos, proteínas,
etc.
Sempre comparo o pâncreas do paciente com diabetes tipo II a um burro velho que ainda consegue trabalhar e é obrigado a subir uma rampa. Num determinado momento, porém, ele empaca e não há quem consiga arrastá-lo dali. No entanto, se diminuirmos a inclinação da rampa, ele voltará a andar. Assim acontece com o pâncreas comprometido pela doença. Funciona como se tivesse pedido concordata. Produz insulina, mas não o suficiente para cobrir as necessidades orgânicas. Todavia, se o paciente emagrecer ou deixar de usar cortisona, por exemplo, o pâncreas pode voltar a produzir esse hormônio em níveis adequados.
Dessa forma é fácil entender ser falsa a idéia de que, se o indivíduo tomou insulina por algum tempo, será obrigado a tomá-la para sempre. Isso só acontecerá se o pâncreas tiver deixado de funcionar definitivamente.
-
Falência do pâncreas
Drauzio - Como você explica o aparecimento de diabetes
tipo I em crianças?
Marcello Bronstein - O diabetes tipo I, muito mais freqüente
em crianças, decorre de uma falência do pâncreas que
deixa de produzir insulina. Esse tipo de diabetes exige doses suplementares
de insulina pelo resto da vida para que a pessoa possa levar vida saudável.
Atualmente, admite-se que a destruição do pâncreas
resulta de uma inflamação auto-imune. É como se o
organismo não reconhecesse mais esse órgão e passasse
a atacá-lo como a um corpo estranho. Parece que isso tem implicação
com algumas viroses. No entanto, não basta contrair a virose. É
preciso haver uma predisposição genética do indivíduo,
pois só a interação dessa tendência com o vírus
leva à destruição do pâncreas.
-
Faixa etária de risco
Drauzio - Até que idade esse tipo de diabetes costuma
desenvolver-se?
Marcello Bronstein - Em geral, o tipo I pode ocorrer desde o nascimento
(há casos de crianças muito pequenas) até cerca dos
20 anos de idade. O tipo II, ou seja, o tipo de diabetes que usualmente
não precisa de insulina porque o problema não é a
falta desse hormônio, mas sua deficiência parcial ou a resistência
à sua ação, costuma acometer pessoas com mais de
40 anos.
Drauzio - Como se explica, então, a maior incidência
de diabetes tipo II em crianças?
Marcello Bronstein - No momento, verifica-se um fenômeno
muito sério. Ao contrário do que acontecia antes, crianças
e adolescentes, sem distinção de classe social, passaram
a apresentar diabetes do tipo II, isto é, o que não necessita
de insulina. Apenas 10% de todos os casos nessa faixa etária correspondem
ao tipo I.
A explicação para o crescimento do diabetes tipo II nessa
faixa etária está, sem dúvida, na obesidade, principalmente
na obesidade abdominal, ambas a causa mais importante da resistência
à ação da insulina. Quando se fala em obesidade abdominal,
referimo-nos não só à gordura localizada no tecido
subcutâneo (debaixo da pele), responsável pela barriga saliente,
mas principalmente à gordura que envolve as vísceras, a
chamada gordura visceral.
-
Correlação entre gordura aparente e
Drauzio - Existe uma correlação entre a gordura
visceral e a subcutânea?
Marcello Bronstein - Em geral, existe uma correlação
entre a gordura visceral e a subcutânea, tanto que medindo o diâmetro
da cintura pode-se indiretamente inferir qual o índice aproximado
de gordura visceral. É óbvio que para ter uma noção
exata seria necessário recorrer a exames mais específicos,
por exemplo, a tomografia computadorizada.
Drauzio - Como se calcula essa relação?
Marcello Bronstein - Divide-se o número obtido medindo a
circunferência da cintura pelo que se obteve medindo o quadril e
estabelece-se uma relação. O fato, porém, é
que quanto maior a cintura, mais gordura localizada no centro do abdome,
maior a relação cintura/quadril e maior a probabilidade
de existir gordura internamente. É importante destacar, ainda,
que a obesidade visceral predispõe ao diabetes, à elevação
do colesterol, do triglicérides e da pressão arterial.
-
Índice de Massa Corpórea (IMC)
Índice de Massa Corpórea (IMC)

Drauzio - Os endocrinologistas usam o Índice de Massa
Corpórea para calcular a o grau da obesidade. Vamos lembrar como
ele é calculado?
Marcello Bronstein - O Índice de Massa Corpórea é
uma equação muito simples: divide-se o peso do indivíduo
por sua altura ao quadrado. Se o número obtido for menor do que
18,5 a pessoa estará abaixo do peso saudável, já
que se considera normal o resultado entre 18,5 e 24,9. Quando o índice
se situa entre 25,0 e 29,9 as pessoas estão com sobrepeso, gordinhas.
Acima disso, a classificação varia: entre 30,0 e 34,9 refere-se
aos obesos leves; de 35,0 a 39,9, aos obesos moderados e acima de 40,0
indica um grau de obesidade que, não faz muito tempo, era chamada
de obesidade mórbida. Depois, esse nome foi substituído
por obesidade grau três, para torná-lo politicamente correto.
Não importa se mórbida ou grau três, a obesidade constitui
um problema sério de saúde.
-
Obesidade: principal fator de risco
Drauzio - É preciso ser exageradamente obeso para desenvolver
diabetes tipo II?
Marcello Bronstein - Não. Basta existir sobrepeso. No diabetes
tipo II, não há uma deficiência absoluta na secreção
de insulina. Apesar de parecer paradoxal, o indivíduo diabético
tipo II obeso aparentemente pode ter mais insulina do que o magro não
diabético. Esse hormônio, que atua em várias células
do corpo, não consegue ultrapassar a resistência oferecida
pelo excesso de tecido adiposo, especialmente pela gordura localizada
na barriga, a famosa obesidade do chope e da cerveja. Isso quer dizer
que, no diabetes do tipo II, ocorrem dois problemas importantes: um é
a resistência à insulina e o outro é a falta da liberação
adequada na hora em que ela é necessária.
Drauzio - Como devem ser avaliados os níveis de glicemia?
Marcello Bronstein - Num indivíduo normal, há uma
insulina de base que se mantém constante durante a noite porque,
mesmo em jejum, o fígado transforma gorduras e proteínas
em açúcar e uma insulina em picos que depende principalmente
da ingestão de alimentos.
No diabético tipo II, porém, pode ocorrer um fenômeno
diferente. A glicemia de jejum, medida após período prolongado
sem alimentação, apresenta valores elevados em virtude da
resistência à insulina e a glicemia pós-prandial,
isto é, aquela medida duas horas depois da refeição,
também pode estar alta porque sua produção não
respondeu ao estímulo alimentar. Estabelecer essas medições
é importante para o diagnóstico e tratamento. A glicemia
de jejum funciona como uma fotografia cristalizada de uma situação,
mas é importante assistir ao filme todo para estabelecer uma avaliação
mais precisa. Para tanto, existe um exame específico: a curva glicêmica
que revela as reais condições de funcionamento do pâncreas.
Drauzio - Diabetes em homens e mulheres magros é proporcionalmente
mais raro?
Marcello Bronstein - É raro, a não ser que haja uma
carga genética muito importante ou seja um caso de diabetes do
tipo I.
-
Obesidade infantil
Drauzio - O Índice de Massa Corpórea está
aumentando nas crianças?
Marcello Bronstein - Esse índice está aumentando
nas crianças. Os números de referência são
um pouco menores, mas não existe uma padronização
absoluta. De qualquer forma, um IMC igual a 24 já é alto
demais na infância.
Drauzio - A que você atribui esse aumento de massa corpórea
nas crianças?
Marcello Bronstein - Sem dúvida nenhuma, esse aumento resulta
dos maus hábitos alimentares e do sedentarismo. É a síndrome
da comida junk-food. A criança moderna alimenta-se basicamente
com sanduíches, excesso de carboidratos e de gorduras e não
se exercita. Fica diante da televisão por horas, usando o controle
remoto e comendo sem prestar atenção no que come tão
entretida está com a programação.
Esse fenômeno universal é mais evidente nos Estados Unidos,
onde o problema da obesidade, inclusive a infanto-juvenil, é grave.
Lá o porcentual de obesos mórbidos ou de terceiro grau está
se transformando num caso de saúde pública. No Brasil, ele
começa a manifestar-se e a causar preocupação.
Drauzio - Qual o papel dos pais na prevenção
do diabetes?
Marcello Bronstein - Pais, educadores, todos podem e devem ter
papel ativo na prevenção do diabetes tipo II, já
que a maior incidência dessa doença em crianças e
adolescentes advém, sem dúvida, do aumento dos casos de
obesidade nessa faixa de idade.
-
Hereditariedade
Drauzio - O diabetes é uma doença hereditária?
Marcello Bronstein - O componente hereditário no diabetes
tipo I e no tipo II difere bastante. A força da hereditariedade
é mais flagrante no diabético tipo II. Sempre existe um
parente bem próximo ou, às vezes, mais distante que apresentou
a doença. Há alguns subtipos ou subgrupos típicos
do tipo II em que o fator hereditário é matemático,
um traço dominante. Basta que um dos pais tenha diabetes, para
que a doença se manifeste em todos os filhos independentemente
da idade que tenham.
No tipo I, a situação é outra. Sabemos, hoje, que
se trata de uma doença auto-imune, isto é, em que de repente
o organismo age como se o pâncreas fosse um corpo estranho e passa
a destruí-lo. Em muitos casos, uma infecção por vírus
pode desencadear o processo, que só ocorre quando há interação
do agente externo com algumas características do sistema imunológico
do indivíduo. Essa agressão auto-imune provoca a deposição
de linfócitos no pâncreas que, aos poucos, perde sua função
e deixa de fabricar insulina. Nesse caso, a hereditariedade entra como
um fator indireto e bastante complexo do diabetes.
Drauzio - Qual o peso da genética na instalação
do diabetes tipo II nos adultos?
Marcello Bronstein - Diabetes é uma doença multifatorial
ou poligênica. Dessa forma, entre outras causas, existem diversos
genes implicados no seu aparecimento. Como já dissemos, no do tipo
II, história familiar de diabetes em apenas um dos lados da família
é o suficiente para transmiti-lo para toda a prole. É o
que se chama de herança dominante. Este caso extremo ou MODY –
Maturity Onset Diabetis in the Young - justifica o aparecimento do tipo
II em crianças, mesmo antes de surgir a atual epidemia.
Há, porém, outras formas menos claras de herança
genética em que a doença não se manifesta em todos
os membros da família.
Drauzio - Pode aparecer um caso de diabetes numa família
que não tinha a história da doença?
Marcello Bronstein - É possível por duas razões
distintas: porque realmente se trata do primeiro caso naquela família,
ou porque a doença existia, mas não foi diagnosticada. O
censo do diabetes realizado no Brasil demonstrou que 7% da população
do país têm diabetes e que 50% deles desconhecem o fato.
Drauzio - Quer dizer que dos 12 a 13 milhões de diabéticos
existentes no Brasil, entre 6 e 7 milhões não sabem que
são portadores da doença? São diabéticos,
têm açúcar aumentado no sangue, mas se consideram
normais porque não apresentam sintomas?
Marcello Bronstein - Provavelmente não apresentam sintomas
porque há várias gradações de diabetes. Pode
ser brando, intermediário ou muito grave. Essas gradações
não dependem exclusivamente do tipo de diabetes adquirido, mas
do momento de vida que a pessoa atravessa. Por exemplo: uma pessoa com
uma forma branda da doença, resolveu fazer uma viagem, comeu muito
mais do que estava acostumada e engordou vários quilos. Essa mudança
brusca de hábitos pode provocar o aparecimento da forma grave da
doença e a pessoa entra em coma diabético. Isso não
significa que, voltando à rotina, a doença não possa
regredir.