Drauzio - Como os pais devem orientar os filhos desde pequenos
para fugir da tentação que representa o açúcar
na vida das crianças?
Marcello Bronstein - O açúcar é uma tentação
na vida das crianças e de muitos adultos também. Os pais
precisam usar de bom-senso. De nada adianta serem repressivos ao extremo,
porque a criança vive numa sociedade em que o consumo de açúcar
é liberado. Dá para imaginar uma festinha infantil sem doces
nem refrigerantes?
O importante, então, é ensiná-las, como rotina, que
a alimentação deve ser balanceada, fazendo-a entender que
açúcar é um complemento, quase um prêmio a
ser dado depois de uma refeição saudável. Se comerem
carnes, verduras e frutas, poderão saborear um chocolate depois.
Proibir totalmente pode instigá-las a contrariar as ordens ou a
comer muito mais do que deveriam quando tiverem oportunidade.
A criança deve habituar-se também a preferir água
ou sucos a refrigerantes que não têm valor nutritivo e aumentam
a sobrecarga de açúcar no organismo.
Drauzio - No caso de a família reparar que a criança
está enfraquecendo, urinando muito e bebendo muita água,
o que deve fazer?
Marcello Bronstein - A primeira triagem pode ser feita em casa
mesmo. O mais simples é comprar na farmácia uma fitinha
que mede o nível de açúcar, molhá-la na urina
da criança e compará-la com o padrão estampado na
caixinha do produto. Se o resultado for positivo, os pais devem procurar
imediatamente o pediatra que os encaminhará a um endocrinologista.
Mesmo que o resultado seja negativo, se a criança estiver urinando
muito e bebendo muita água, é preciso procurar logo um médico
que orientará o diagnóstico. Há uma doença
rara, o diabetes insipidus, que demanda tratamento absolutamente específico.
Trata-se de um problema da região da hipófise que, apesar
do nome, nada tem a ver com a forma clássica da doença.
Drauzio - Que futuro aguarda essas crianças que desenvolveram
diabetes tão precocemente?
Marcello Bronstein - Eu diria que atualmente essas crianças
têm um futuro bastante promissor. Até 1920, no entanto, crianças
diabéticas não teriam sobrevida prolongada porque sem insulina
não se vive. Em geral, eram subnutridas, pois comiam pouquíssimo
e nada se podia fazer além de indicar-lhes dieta com restrição
de açúcar e reposição de líquidos o
que pouco resolvia porque era como tentar encher um tanque com o ralo
aberto. Essas crianças são dependentes de insulina, hormônio
que só foi sintetizado por volta de 1924/1925, por dois canadenses,
Breitner e Best.
Descoberta a insulina, essas crianças insulino-dependentes puderam
ser salvas, mas com qualidade de vida prejudicada, uma vez que a insulina
tinha ação demasiado rápida e precisava ser aplicada
várias vezes ao dia. Tempos depois, desenvolveram-se drogas com
ação mais prolongada que podiam ser combinadas com as de
ação mais rápida para compensar a elevação
do açúcar nas refeições. Apesar de todos esses
avanços, o controle do diabetes não era perfeito e apareciam
as complicações que já foram enumeradas.
O que acontece hoje? Em primeiro lugar, existe uma insulina de ação
superlenta que pode ser ministrada numa única dose à noite
ou eventualmente em duas doses diárias. Existem, também,
insulinas de ação rápida que atuam imediatamente
e cobrem o período alimentar e está sendo desenvolvida uma
insulina inalável que, absorvida pelos alvéolos pulmonares,
facilitará a vida de crianças e adultos diabéticos
dependentes desse hormônio. Acredita-se que seu uso possibilitará
reduzir ao mínimo as doses injetáveis, substituindo-as por
várias inalações diárias. Embora ainda não
esteja disponível no mercado, a insulina inalável está
em fase de franca experimentação.
Infelizmente, ainda não se conseguiu desenvolver uma insulina que
pudesse ser ministrada por via oral. Por ser uma proteína, ela
é degradada pelos sucos digestivos e perde a eficácia.
Resta o recurso dos transplantes de pâncreas. Normalmente, ele é
indicado para os diabéticos que desenvolveram insuficiência
renal e precisam ter simultaneamente rins e pâncreas transplantados.
Há uma casuística bastante animadora de transplante conjunto
de pâncreas e rins no Hospital das Clínicas e na Beneficência
Portuguesa de São Paulo.
Outra possibilidade de tratamento bastante promissora está em estudo:
o transplante de ilhotas de Langerhans, nome do pesquisador que as descreveu.
O pâncreas é um órgão de múltiplas funções.
A produção de insulina é apenas uma delas e se realiza
em células localizadas nessas ilhotas que seriam retiradas do pâncreas
e injetadas numa veia que as conduziria diretamente ao fígado,
glândula que passaria a desempenhar as funções do
pâncreas.
Drauzio - Você acha que há a possibilidade de
tratamento em massa por esses métodos mais complicados?
Marcello Bronstein - Acho que não, nem haveria necessidade,
pois a grande maioria dos diabéticos pertence ao tipo II e não
precisa tomar insulina. Eles precisam seguir uma dieta alimentar e praticar
exercícios.