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Cólicas menstruais

Dra. Mara Solange Carvalho Diegoli é médica do Departamento de Ginecologia do Hospital das Clínicas e coordenadora do Centro de Apoio à Mulher com Tensão Pré-Menstrual do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.

 
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Drauzio – As mulheres conhecem mil receitas que herdaram de suas mães e avós para combater as cólicas menstruais. O que pode melhorar e piorar a cólica menstrual?

Mara Diegoli – As mulheres mais velhas diziam que a dor piorava quando tomavam banho frio e lavavam a cabeça. Piorava mesmo, porque água fria promove o estreitamento dos vasos. Como a prostaglandina não tem por onde fugir, sua presença aumenta as contrações uterinas e a dor fica mais forte. Ao contrário, o calor é bem-vindo. Quando a mulher usa bolsa de água quente, os vasos dilatam, a prostaglandina vai embora e a intensidade da dor diminui. Há um inconveniente, porém: o calor aumenta o sangramento e perder sangue é sempre mau. Por mais que a mulher consiga repô-lo a cada menstruação, ele sempre fará falta, porque o sangue que circula pelo útero, circula também pelos demais órgãos.

Drauzio – Como a mulher deve proceder, então?

Mara Diegoli – A mulher precisa saber distinguir o fisiológico do não fisiológico. Fisiológico é usar mais ou menos quatro absorventes por dia e a menstruação durar cinco dias no máximo. Se forem necessários seis absorventes ou mais e a menstruação durar sete dias, por mais que o organismo tente repor o sangue que está perdendo cronicamente, não vai conseguir e desenvolverá anemia, por exemplo.Tomar banho, lavar a cabeça não trazem inconvenientes, desde que a mulher use um número de absorventes compatível com a perda de sangue que seu organismo pode suportar.

  • TPM e dismenorréia

    Drauzio – Como distinguir a TPM da cólica menstrual?

    Mara Dioegoli – A primeira distinção é que a tensão pré-menstrual ocorre antes da menstruação e a dismenorréia, ou cólica menstrual, inclui uma série de sintomas associados à menstruação propriamente dita. O principal é a dor em cólica, às vezes, tão forte que a mulher vomita e chega a desmaiar. Os mais velhos acreditavam que isso acontecia por rejeição à feminilidade e encaravam a cólica como mera manifestação psicológica. Várias pesquisas demonstraram, porém, que a cólica menstrual nada tem de psicológico, pois é provocada pela prostaglandina, uma substância existente em várias partes do corpo, inclusive dentro do útero.

    Drauzio – Anatomicamente, como se pode explicar a cólica menstrual primária, isto é, a que não é provocada por alterações patológicas no aparelho reprodutivo?

    Mara Diegoli – O útero é um órgão de 7cm com o formato de uma pêra ( imagem 1), constituído por três camadas: externa, média e interna. A camada interna é a responsável pelo aparecimento das cólicas menstruais. Todos os meses ela cresce, fica bem grande à espera do embrião. Se ele não vem, a camada interna descama em forma de sangramento, a menstruação e, enquanto descama, libera prostaglandina que faz o útero contrair para eliminar o sangue. Essa compressão comprime os nervos e os vasos que passam pelo músculo uterino. Por isso, a mulher sente dor.

    Drauzio – Por que a intensidade da dor varia de uma mulher para outra

    Mara Diegoli – Se a tensão pré-menstrual ocorre nas mulheres com mais idade, a cólica menstrual acomete mais as adolescentes, porque seu útero ainda é pequeno e o orifício de saída mais fechado. Ora, agindo em grande quantidade e não conseguindo escapar do local, a prostaglandina faz com que o útero se contraia e contraia com mais intensidade e isso provoca dor forte. À medida que a adolescente vai ficando mais velha, seu útero cresce e a prostaglandina liberada tem espaço para espalhar-se. Além disso, especialmente quando a mulher já teve filhos, o colo uterino mais aberto facilita a saída do sangue e da prostaglandina. Por isso, os antigos diziam: quando casar, passa. E passava mesmo, porque a mulher engravidava, o útero aumentava de tamanho, e a prostanglandina saía com mais facilidade pelo buraco por onde nasceu o bebê.

  • Sintomas da TPM

    Drauzio – Quando aparecem e quais são os sintomas da tensão pré-menstrual?

    Mara Diegoli – A tensão pré-menstrual é caracterizada por sintomas psíquicos (irritabilidade, nervosismo, ansiedade, depressão) e por sintomas físicos (dor na mama, dor de cabeça, inchaço). Esses sintomas podem aparecer desde 15 dias até um dia antes do início da menstruação.O interessante é que a dor de cabeça pode manifestar-se tanto na tensão pré-menstrual quanto na dismenorréia. Nas duas situações, a causa é a mesma. Os vasos que existem no cérebro têm tonicidade mais ou menos constante. Quando a mulher está para menstruar, a produção de estrogênio cai, os vasos dilatam e o aumento de seu diâmetro provoca dor de cabeça.

    Drauzio – Quais as características da dor de cabeça associada à menstruação?

    Mara Diegoli – O mais comum é a dor de cabeça ocorrer 24 horas antes da menstruação, mas também pode surgir durante a menstruação ou durar todo o período menstrual. É uma dor que acomete principalmente a região da nuca, com aparecimento ou não de escotomas (pontinhos luminosos). Em geral, a exposição à luz e a sons aumenta o desconforto e obriga a mulher a recolher-se num quarto escuro.

    Drauzio – Na verdade, é uma dor que se assemelha muito à enxaqueca.

    Mara Diegoli – Muito semelhante. Inclusive, pessoas que costumam ter enxaqueca dizem que ela piora no período menstrual. Geralmente, os neurologistas não gostam muito de tratar a dor de cabeça ligada à menstruação, porque dura dois ou três dias e, tratando ou não tratando, desaparece por si. O problema é que, muitas vezes, por causa da dor, a mulher fica de cama.

    Drauzio – O que acontece com a dor de cabeça quando começa a menstruação?

    Mara Diegoli – Como a causa da dor de cabeça é a queda na produção do estrogênio cujo nível permanece baixo durante todo período menstrual, algumas mulheres apresentam dor de cabeça 24 horas antes do início da menstruação e outras, durante todo o período menstrual, dor que só passa quando os vasos se estabilizam porque os níveis de estrogênio voltaram a subir. Por isso, uma das estratégias de tratamento é manter a produção de estrogênio constante.

    Drauzio – A cólica menstrual pode ser minimamente sintomática ou muito forte. Por quê?

    Mara Diegoli – As pesquisas mostram que 25% das mulheres não sentem cólicas menstruais e que 75% sentem cólicas em diferentes graus de intensidade. Desses 75%, um quarto sente dor muito forte. É o caso da menina que sai de casa bem, vai para a escola e de repente menstrua e acaba no pronto socorro por causa da dor.Na mulher adulta, o problema é diferente, uma vez que as cólicas podem ter outras causas além da atuação da prostaglandina e estão associados a uma alteração anatômica do aparelho reprodutor. Esses quadros são chamados de dismenorréia secundária e a cólica começa 15 dias, uma semana, cinco dias antes da menstruação e piora com ela.

    Drauzio – Qual a localização das cólicas menstruais?

    Mara Diegoli – Localizam-se sempre no baixo ventre. É uma dor referida que se irradia para as costas e confunde-se com a das cólicas intestinais, especialmente porque a prostaglandina também age no intestino que fica mais irritável.

    Drauzio – Quais as principais características da dor da cólica menstrual?

    Mara Diegoli – É uma dor aguda e intermitente, que dura um, dois, às vezes, quinze segundos ou até um minuto e passa, mas volta em seguida com toda a intensidade. É uma dor seqüencial: dói/passa, dói/passa, volta a doer e a passar. Sem medicamento, ela perdura por algumas horas ou alguns dias.

    Drauzio – Quanto tempo duram os períodos de acalmia?

    Mara Diegoli – Os períodos de acalmia são difíceis de identificar. Como a dor é intermitente e o tempo de relaxamento muito curto, sempre sobra a dor basal a qual a mulher se refere como dor em peso.

    Drauzio – Você disse que a mulher pode sentir cólicas durante toda a menstruação. Quando elas deixam de incomodar?

    Mara Diegoli – As cólicas das adolescentes têm de passar quando termina a menstruação. Nas mulheres adultas, pode restar uma sensação dolorosa se o fator etiológico continuar estimulando a produção de prostaglandina. De qualquer forma, serão dores menos intensas.

  • Agravantes e atenuantes

    Drauzio – As mulheres conhecem mil receitas que herdaram de suas mães e avós para combater as cólicas menstruais. O que pode melhorar e piorar a cólica menstrual?

    Mara Diegoli – As mulheres mais velhas diziam que a dor piorava quando tomavam banho frio e lavavam a cabeça. Piorava mesmo, porque água fria promove o estreitamento dos vasos. Como a prostaglandina não tem por onde fugir, sua presença aumenta as contrações uterinas e a dor fica mais forte. Ao contrário, o calor é bem-vindo. Quando a mulher usa bolsa de água quente, os vasos dilatam, a prostaglandina vai embora e a intensidade da dor diminui. Há um inconveniente, porém: o calor aumenta o sangramento e perder sangue é sempre mau. Por mais que a mulher consiga repô-lo a cada menstruação, ele sempre fará falta, porque o sangue que circula pelo útero, circula também pelos demais órgãos.

    Drauzio – Como a mulher deve proceder, então?

    Mara Diegoli – A mulher precisa saber distinguir o fisiológico do não fisiológico. Fisiológico é usar mais ou menos quatro absorventes por dia e a menstruação durar cinco dias no máximo. Se forem necessários seis absorventes ou mais e a menstruação durar sete dias, por mais que o organismo tente repor o sangue que está perdendo cronicamente, não vai conseguir e desenvolverá anemia, por exemplo.Tomar banho, lavar a cabeça não trazem inconvenientes, desde que a mulher use um número de absorventes compatível com a perda de sangue que seu organismo pode suportar.

  • Tratamento

    Drauzio – Quando os sintomas ligados à menstruação começaram a ser tratados?

    Mara Diegoli - Durante anos, a mulher faltou ao serviço por causa da dor de cabeça - que ninguém associava à menstruação - e das cólicas menstruais. Antes de participar ativamente do mercado de trabalho, “nesses dias” ela ficava em casa e ninguém dava muita atenção ao fato. Quando esses sintomas começaram a interferir no seu desempenho profissional e a comprometer o lucro das empresas e a economia do país, ficou evidente que encontrar um tratamento seria de fundamental importância para melhorar a qualidade de vida da própria mulher, das pessoas que conviviam com ela e melhorar seu rendimento no trabalho.

    Drauzio –Como você orienta a mulher que uma semana antes da menstruação começa a sentir-se tensa, irritada, com dor de cabeça e indisposta?

    Mara Diegoli – A primeira orientação é que a mulher passe a registrar os sintomas num calendário. Se a dor de cabeça manifestar-se no período pré-menstrual e menstrual, não há dúvida de que está relacionada com a produção de hormônios.

    Drauzio – Quais os medicamentos indicados para combater as cólicas menstruais?

    Mara Diegoli – Existem medicamentos de vários tipos, como os analgésicos e os antiinflamatórios. O problema é que a mulher aprende a automedicar-se e isso está errado. Bons medicamentos para controlar a dor podem provocar efeitos colaterais indesejáveis se tomados com muita freqüência. Por isso, ela só deve tomar remédios prescritos por um médico. Normalmente, inicia-se o tratamento com os mais leves, com menos efeitos colaterais adversos. Se a resposta não for satisfatória e a dor continuar forte, muda-se o medicamento. Existem os que fazem parar as contrações uterinas e os que impedem a produção de prostaglandina. Desaparecendo o fator causal, a dor passa.

  • Perguntas enviadas por e-mail

    Susely Cortês Yamashita – Floreal/SP – As cólicas menstruais representam um problema hereditário?

    Mara Diegoli – Não, não são. Nas pessoas jovens, elas são próprias da idade. Já, nas mulheres acima dos 25, 30 anos, miomas e endometriose são as principais causas da dor.

    Luiz Rodrigo Valvassoura – Franca/SP – O uso de anticoncepcionais contribui para o aumento da dor?

    Mara Diegoli – Ao contrário. Os anticoncepcionais diminuem a produção de prostaglandina, portanto melhoram muito a dor. Às vezes, a adolescente começa a tomar pílula e as cólicas diminuem de intensidade.

    Rodolfo Mario Araújo – São Paulo/SP – Há possibilidade de diminuir a dor da cólica menstrual com alimentação?

    Mara Diegoli – Cólicas menstruais não estabelecem nenhuma relação com fatores psicológicos e hábitos alimentares. Atualmente, existe medicação eficaz e com poucos efeitos colaterais que ajudam a aliviar a dor das cólicas menstruais.

    Daniela Carvalho da Silva – São Paulo/SP – Existem meios para evitar a cólica menstrual ou reduzir sua duração?

    Mara Diegoli – É muito importante saber a causa da dor. Por isso, quem sente cólicas deve procurar o ginecologista que irá prescrever um medicamento para ser tomado assim que a mulher começa a menstruar. Desse modo, é possível não só evitar que a dor se manifeste como controlá-la se ela já começou.

    Viviane Nascimento Couto – São Paulo/SP – Por que a barriga incha durante a menstruação?

    Mara Diegoli – Porque a prostaglandina provoca uma série de reações no organismo. As alterações que causa na motilidade do intestino e do útero fazem com que a barriga fique mais distendida.

    Letícia Silva Santos – Salvador?BA – Mulher que mantém relações sexuais sente menos cólicas?

    Mara Diegoli – Presume-se que a mulher que mantém relações sexuais tenha mais de 20, 25 anos ou esteja tomando pílula. Nos dois casos, sentirá menos cólica. Agora, se for uma adolescente de 16 anos e não estiver tomando pílula, as relações sexuais na vão influenciar na diminuição dos sintomas.

    Maria Antonia Cantoario Gonçalves – São Paulo/SP – Como evitar as cólicas menstruais sem tomar vários remédios?

    Mara Diegoli – Basta tomar o remédio certo. A pílula anticoncepcional, por exemplo, tem duas vantagens. Além de diminuir a intensidade da cólica, evita a gravidez. No entanto, não prescrevemos esse medicamento para quem não tem vida sexual ativa. Nesse caso, indicamos os antiinflamatórios que representam a primeira linha no tratamento das cólicas menstruais.

    Sayonara Pinto Zatta – Vila Velha/ES – A cólica menstrual é um sintoma obrigatório na vida da mulher?

    Mara Diegoli – Não é. Ao contrário, a mulher não veio ao mundo para sofrer. Se tem cólica, deve procurar tratamento, que hoje existe e é eficaz.

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