Drauzio – Apesar de os sintomas da fase aguda desaparecerem, os citomegalovírus permanecem no organismo da pessoa infectada por toda a vida. Em que situações podem agir como oportunistas e reativar o quadro infeccioso?
João Silva de Mendonça – A reativação do quadro infeccioso pressupõe obrigatoriamente a deficiência imunológica. Atualmente, o exemplo mais característico de deficiência imunológica progressiva é o da infecção pelo HIV, o vírus da AIDS. Quando o grau desse tipo de deficiência atinge determinado ponto, está criada a oportunidade para os agentes na fase de latência reativarem-se. Por isso, o citomegalovírus é uma das principais ameaças à vida desses pacientes. Felizmente, hoje, podemos contar com tratamento específico para citomegalovírus rebeldes e recorrentes, se persistir o estado de imunodeficiência.
Drauzio – Como se manifesta a doença provocada pelo CMV em imunodeprimidos?
João Silva de Mendonça – Os sintomas variam, porque o citomegalovírus pode comprometer diferentes topografias do corpo humano. Estão entre os órgãos visados, por exemplo, boca, garganta, faringe, esôfago, estômago, intestino grosso e intestino delgado. As lesões freqüentemente são ulceradas e muito dolorosas. Quando o vírus compromete a faringe e o esôfago, provoca doenças de difícil resolução, que exigem diagnóstico e tratamento específicos.
No entanto, a complicação mais comum provocada pelo CMV nos pacientes com AIDS é a coriorretinite, um comprometimento da coriorretina com prejuízo visual, que pode levar à cegueira se não houver tratamento para recuperar a competência imunológica do doente.
Drauzio – No início da epidemia da AIDS, muitos pacientes ficaram cegos por dificuldade de os médicos reconhecerem a presença do citomegalovírus no globo ocular.
João Silva de Mendonça – É verdade. Mas existem muitos pacientes que conseguiram ultrapassar essa dificuldade e chegaram à fase da terapêutica específica de alta potência contra o HIV. Esses recuperaram, pelo menos parcialmente, a competência imunológica e ficaram livres do risco de reativação do citomegalovírus, embora permaneçam seqüelas dos processos infecciosos anteriores que se traduzem em prejuízos variáveis da visão.
Drauzio – As reativações do citomegalovírus em portadores do HIV provoca o aparecimento de úlceras que podem surgir em toda a extensão do aparelho digestivo. Quando acontecem no tubo digestivo alto, os sintomas são dor na passagem dos alimentos ou mesmo dor espontânea. Quando essas úlceras acometem o intestino, quais são os sintomas?
João Silva de Mendonça – A diarréia é o principal sintoma. O número de evacuações diárias compromete o bem-estar do paciente, sua qualidade de vida e seu estado geral, em virtude das perdas que diarréias arrastadas provocam.
Drauzio – No começo da epidemia da AIDS, muitos pacientes magérrimos, caquéticos, eram portadores também de manifestações da infecção pelo citomegalovírus.
João Silva de Mendonça – O citomegalovírus ajudava a provocar esse quadro consuptivo.
Drauzio – Além das infecções oculares e do tubo digestivo, que outros danos o citomegalovírus pode provocar no organismo?
João Silva de Mendonça – Pode comprometer o fígado e o sistema nervoso central no nível do cérebro e da medula. Comprometimento medular pelo citomegalovírus pode levar à perda funcional dos membros inferiores (paraplegia), por exemplo, e a quadros graves de mielite e encefalite.
Drauzio – E os pulmões, também são vulneráveis?
João Silva de Mendonça - Não existem ainda evidências claras de que o citomegalovírus possa ser um vírus oportunista que acometa os pulmões. Embora encontrado em biópsias pulmonares, não é certo que esteja evolvido nesse comprometimento, uma vez que outros oportunistas também estão presentes.