Drauzio – Quais são
os principais sintomas da cistite?
Paulo Ayrosa Galvão – O sintoma clássico
da cistite é dor ou ardor para urinar e a necessidade freqüente
de urinar eliminando apenas pequena quantidade em cada micção.
Em alguns casos, o paciente pode urinar sangue ou apresentar dor na
pélvis (parte baixa da barriga). A cistite, porém, pode
ser absolutamente assintomática. Isso tem gerado intensa discussão
a respeito da conveniência ou não de tratar esses pacientes.
Drauzio – Nos quadros clássicos
de cistite, com dor e dificuldade de micção, é
fácil diagnosticar e prescrever o tratamento. Quando a paciente
é assintomática e os sinais de infecção
aparecem num exame de urina de rotina, qual a conduta que se deve
adotar?
Paulo Ayrosa Galvão – O tratamento da
infecção urinária assintomática, também
chamada de bacteriúria assintomática, é um assunto
de extrema importância para ser discutido.
Mulheres grávidas e pacientes que serão submetidos à
sondagem, a cateterismo das vias urinárias, devem ser tratados.
Os outros, estamos autorizados a não tratar.
Na verdade, é um erro tratar a bacteriúria assintomática.
Veja o que acontece se o indivíduo sem sintomas, que descobriu
ser portador de infecção urinária por um exame
de rotina, receber tratamento. Depois de duas ou três semanas
com medicação, um novo exame apresentará resultado
negativo. Dali a alguns meses, porém, a taxa de recolonização
das bactérias pode voltar a crescer muito e ele será
tratado de novo. Repetindo essa conduta, em pouco tempo, teremos criado
uma bactéria altamente resistente que não responderá
à ação dos medicamentos.
Pacientes assintomáticos devem ser informados que têm
uma bactéria, aparentemente uma colonização delas,
e que o uso de antibióticos, em vez de ajudar, pode prejudicá-los
e muito. Eles precisam de orientação, acompanhamento
e monitorização e não devem automedicar-se.
Drauzio – Como é dada essa orientação?
Paulo Ayrosa Galvão – Em geral, isso
acontece com a mulher. O médico deve dizer-lhe que, apesar
de assintomática, ela tem uma bactéria nas vias urinárias
e que deve entrar em contato com ele se sentir dor ou ardor para urinar,
febre ou mal-estar.
No caso do paciente idoso acamado e debilitado, a orientação
é dada à família. Se ele apresentar febre, calafrios,
rebaixamento do nível de consciência e ficar torporoso,
o médico deve ser avisado logo porque a infecção
pela bactéria pode estar dando sintomas. Enquanto não
aparecerem esses eventos, não se introduz o tratamento para
não criar bactérias ultra-resistentes que tornarão
o quadro muito mais difícil e complicado.
Drauzio – Em que situações
você indica uma avaliação do sistema urinário
mais criteriosa depois de um episódio de cistite?
Paulo Ayrosa Galvão – O médico
está autorizado a tratar a adolescente ou a mulher jovem com
cistite sem recomendar a avaliação criteriosa. No entanto,
dependendo do grau de ansiedade da paciente, pode-se prescrever um
ultra-som das vias urinárias, exame não invasivo que
permite verificar se existe alguma alteração anatômica.
Nos homens, a primeira infecção urinária e, nas
mulheres, infecção urinária recidivante requerem
investigação mais detalhada até para programar
uma estratégia adequada de tratamento.