Dra. Angelita Habr Gama é médica, especialista em coloproctologia e gastrenterologia, professora da Universidade de São Paulo e trabalha nos hospitais Oswaldo Cruz e Beneficência Portuguesa.
Drauzio - Você falou em sangramento. Eu encontrei pela vida um número incrível de pessoas com sangramento intestinal por meses, às vezes anos, que foi atribuído às hemorróidas e só tardiamente ficaram sabendo que eram portadoras de um tumor maligno. Esse tipo de mal entendido é freqüente?
Angelita H. Gama - É super comum. Há pacientes que operam as hemorróidas sem saber que logo acima, no canal anal, existe um tumor de reto. Por isso, escrevemos um folheto explicativo chamado "Fique de olho" com o objetivo de informar a população a respeito do assunto e o primeiro item mencionado é este: "Nem tudo que sangra é hemorróida. Hemorróida sangra, mas câncer de intestino também". Entretanto, há uma pequena diferença entre o sangramento da hemorróida, um sangue vivo não misturado às fezes, e o do câncer que, embora também seja vivo, vem misturado com elas. Para o paciente leigo é muito difícil estabelecer essa distinção. Como conseqüência, toda a pessoa que tem sangramento pelo ânus deve procurar o médico para submeter-se ao exame de toque retal e passar um aparelho a fim diagnosticar corretamente a doença.
Drauzio - Infelizmente também acontece de a pessoa ser vigilante, perceber o sangramento, ir ao médico que o atribui erroneamente às hemorróidas e continuar desenvolvendo câncer de intestino.
Angelita H. Gama - O paciente precisa também aprender a defender-se. Quando perde sangue, vai ao médico que classifica o sangramento como hemorróida sem fazer pelo menos o exame de toque retal, não se deve dar por satisfeito.
Drauzio - Que exames o médico deve normalmente fazer?
Angelita H. Gama - Primeiro, o exame de toque retal, um exame importantíssimo que deveria ser considerado de rotina. Além desse, no próprio consultório de um gastrenterologista ou coloproctologista, é possível fazer um exame endoscópico que permite atingir e avaliar 20cm da parte terminal do intestino grosso. Esse aparelho se chama retossigmoidoscópio. Com ele, se faz uma endoscopia semelhante à do estômago para examinar a região e colher material para biopsia quando existirem lesões.
Drauzio - Você aconselha que todas as pessoas que têm sangramento, mesmo as que sabem que têm hemorróidas, procurem um médico para fazer pelo menos um exame de toque retal?
Angelita H. Gama - No mínimo, um exame de toque retal. Isso é imperativo porque o câncer de reto é muito freqüente e um simples toque retal permite examinar, além do ânus e do reto, a próstata nos homens e útero, colo do útero e vagina nas mulheres. O exame de toque retal precisa deixar de ser tabu. Os pacientes devem ficar à vontade e não se recusar a fazê-lo, pois assim estarão evitando complicações que podem ser sérias.