Drauzio – Segundo
sua larga experiência pessoal, quantos doentes submetidos a
cirurgias complicadíssimas do coração, que passam
dias na UTI e sofrem um pós-operatório terrível,
mudam radicalmente o estilo de vida?
Sergio Almeida de Oliveira – Alguns promovem mudanças
radicais. Eu me lembro de um paciente que operei há muitos
anos. Era um juiz estressadíssimo, fumante, sedentário,
pai de uma menina pequena, temporã, que brincavam ser sua neta.
Depois da cirurgia, ele prometeu que iria mudar de vida, construiu
quase um ginásio de esportes em sua casa de campo e adotou
uma conduta no dia-a-dia que visava não só à
mudança pessoal, mas também a das pessoas que com ele
conviviam. Se no tribunal aparecia alguém nervoso, ele pedia
que saísse da sala , descansasse um pouco e depois voltasse
para conversar.
Esse homem mudou radicalmente depois da cirurgia e tenta convencer
as outras pessoas da importância da alimentação
saudável, da prática de exercícios, do controle
da tensão e da necessidade de enfrentar com equilíbrio
os problemas de todos os dias e de parar de fumar.
Não é fácil controlar o temperamento, mas é
possível. Entretanto há pacientes que não levam
a sério as orientações recebidas mesmo depois
de ter passado por um período de muito sofrimento, na UTI,
com insuficiência renal, fazendo diálise e precisando
de assistência ventilatória prolongada. Fato curioso
é que, quando se recuperam, parece que não lembram direito
do que lhes aconteceu. Isso mostra como a natureza é sábia.
Dá força extra para o indivíduo no momento de
necessidade grande e depois apaga as más lembranças.
O problema é que essas pessoas não se conscientizam
de que precisam mudar o estilo de vida.
-
Principal causa de morte
Drauzio – A idéia
de que as mortes por problemas do coração constituem
um problema moderno, da segunda metade do século XX, tem fundamentação
científica? Não se poderia pensar que hoje o homem morre
mais do coração porque vive mais do que viviam seus
antepassados?
Sergio Almeida de Oliveira – A prevalência das doenças
cardíacas aumentou, em parte, porque as pessoas vivem mais,
em parte talvez porque os hábitos de vida mudaram bastante
nas últimas décadas.
Não há dúvida de que atualmente, nos países
civilizados e nos nem tão civilizados assim, a doença
cardíaca é uma das principais causas de morte. Não
se pode esquecer, porém, de que no passado muitas doenças,
por exemplo o câncer e certas doenças infecciosas, tinham
tratamento limitado e estavam entre as causas freqüentes de morte.
De qualquer modo, o infarto do miocárdio, ou seja, a doença
coronária, é a primeira causa de morte no mundo de hoje.
Segundo a Organização Mundial de Saúde, que só
não considera a região abaixo do Saara, na África,
porque não existem dados epidemiológicos adequados,
morrem de 6 a 7 milhões de pessoas por ano no mundo por infarto
do miocárdio.
O Brasil não escapa dessa realidade. Primeiro, porque as pessoas
estão vivendo mais; segundo, por causa do estilo de vida que
levam.
Estamos acostumados a relacionar a morte com fome, com falta de comida
e constatar que a população está engordando cada
vez mais pode parecer mera preocupação estética.
Entretanto, o consumo de alimentos também pode transformar-se
em causa de morte na medida em que favorece a obesidade, com freqüência
acompanhada por hipertensão e diabetes, complicações
que aceleram a evolução da doença coronariana.
Sabemos, desde a Guerra da Coréia, que a doença coronariana
atinge também os jovens. Muitos dos soldados do exército
americano, que morreram em batalha, já a apresentavam de forma
incipiente ou manifesta aos vinte e poucos anos de idade.
-
Redução da mortalidade
Drauzio – O número
de mortes por infarto agudo do miocárdio tem realmente caído
nos últimos anos?
Sergio Almeida Oliveira - As pessoas não estão
morrendo de infarto na fase aguda. Depois de 1960, quando se criaram
as unidades coronárias e apareceu o desfibrilador elétrico
para dar choque e converter as arritmias, conseguimos reduzir a mortalidade
na fase aguda do infarto do miocárdio de 40%, 50% para pouco
mais de 20%. Esse número vem caindo cada vez mais e hoje, quando
um paciente é atendido logo, o risco de morte gira em torno
de 5%, 6% ou 7%.
Esses pacientes que sobrevivem ao infarto podem viver bastante tempo,
mas acabam tendo uma distensão do coração e podem
entrar em insuficiência cardíaca. Outros, porém,
apresentam essas alterações por causa da hipertensão,
das cardiopatias dilatadas e, no Brasil, da doença de Chagas
que, embora ainda não conte com terapêutica eficiente,
estamos conseguindo controlar com medidas de saúde pública.
-
Diabetes
Drauzio – Qual
o peso do diabetes nas doenças do coração?
Sergio Almeida de Oliveira – Diabetes não é
causa da aterosclerose, é agravante. Pessoas com diabetes geralmente
têm aterosclerose mais acentuada.
Sob o ponto de vista da cirurgia cardiovascular, paciente com diabetes
tem o risco aumentado, apesar de atualmente existirem recursos para
controlar a glicemia com insulina intravenosa durante todo o procedimento
cirúrgico. No entanto, apesar de esse recurso ter igualado
praticamente o risco para diabéticos e não-diabéticos
nessa hora, a longo prazo os resultados não são os mesmos.
Por isso, é preciso tratar com severidade o diabetes.
Neste momento, estamos conduzindo no INCOR um estudo multicêntrico
patrocinado pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos
para comparar os resultados da cirurgia cardíaca com os do
tratamento clínico nos diabéticos, porque existe ainda
a dúvida de que vale a pena operar esse tipo de paciente. Acredito
que valha, porque apesar de tudo a cirurgia pode beneficiar esses
doentes.
Drauzio – Com os diabéticos ocorre
um problema semelhante ao dos hipertensos. Muitos acham que estão
bem, esquecem de tomar os remédios, engordam, comem doces e
mantêm a glicemia num patamar mais elevado aumentando, assim,
a probabilidade de complicações cardíacas.
Sergio Almeida de Oliveira – E pensar que hoje eles podem
contar com facilidades como os aparelhinhos, que são simples,
eficientes e confiáveis, para medir o nível de açúcar,
de glicose no sangue. Sobretudo os insulinodependentes ou os que requerem
medicação mais intensa podem controlar perfeitamente
a taxa de açúcar, mas todos precisam estar conscientes
de que diabetes é uma doença crônica que bem controlada
não representa grande risco.
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Mudança de estilo de vida
Drauzio – Segundo
sua larga experiência pessoal, quantos doentes submetidos a
cirurgias complicadíssimas do coração, que passam
dias na UTI e sofrem um pós-operatório terrível,
mudam radicalmente o estilo de vida?
Sergio Almeida de Oliveira – Alguns promovem mudanças
radicais. Eu me lembro de um paciente que operei há muitos
anos. Era um juiz estressadíssimo, fumante, sedentário,
pai de uma menina pequena, temporã, que brincavam ser sua neta.
Depois da cirurgia, ele prometeu que iria mudar de vida, construiu
quase um ginásio de esportes em sua casa de campo e adotou
uma conduta no dia-a-dia que visava não só à
mudança pessoal, mas também a das pessoas que com ele
conviviam. Se no tribunal aparecia alguém nervoso, ele pedia
que saísse da sala , descansasse um pouco e depois voltasse
para conversar.
Esse homem mudou radicalmente depois da cirurgia e tenta convencer
as outras pessoas da importância da alimentação
saudável, da prática de exercícios, do controle
da tensão e da necessidade de enfrentar com equilíbrio
os problemas de todos os dias e de parar de fumar.
Não é fácil controlar o temperamento, mas é
possível. Entretanto há pacientes que não levam
a sério as orientações recebidas mesmo depois
de ter passado por um período de muito sofrimento, na UTI,
com insuficiência renal, fazendo diálise e precisando
de assistência ventilatória prolongada. Fato curioso
é que, quando se recuperam, parece que não lembram direito
do que lhes aconteceu. Isso mostra como a natureza é sábia.
Dá força extra para o indivíduo no momento de
necessidade grande e depois apaga as más lembranças.
O problema é que essas pessoas não se conscientizam
de que precisam mudar o estilo de vida.
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Fatores de risco
Drauzio – Quais
as principais causas da doença coronariana?
Sergio Almeida de Oliveira - A doença coronária
não tem uma causa só. A elevação dos níveis
de colesterol, distúrbio do metabolismo lipídico, é
uma causa importante, mas há outros fatores de risco. Obesidade,
sedentarismo, tabagismo, pressão arterial elevada, sem dúvida,
interferem no seu aparecimento e alteram a expectativa de vida.
Na década de 1970, quando apareceram os primeiros remédios
para controlar a pressão arterial, caiu em 20% o número
de mortes por doença cardiovascular. Hoje se afirma que quem
é disciplinado e tem bom médico, consegue controlar
perfeitamente a hipertensão, uma doença crônica
que só dá sintomas em fases avançadas e exige
tratamento contínuo e ininterrupto. O mesmo se pode dizer do
diabetes e da obesidade.
Outra causa importante é o sedentarismo. A vida estressada,
intensa e sedentária que levamos é indiscutivelmente
fator de risco para a doença coronária. Felizmente,
parece estar havendo uma conscientização gradual das
pessoas no que se refere à importância da atividade física,
da prática de esportes. Dá satisfação
vê-las aderirem a exercícios físicos programados,
porque ninguém pode sair de um sedentarismo absoluto para jogar
futebol ou praticar um esporte violento sem saber se suas condições
orgânicas permitem fazê-lo.
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Obesidade
Drauzio – Há
pouco tempo a cidade de São Paulo fez 450 anos e vi uma série
de exposições fotográficas que mostravam uma
cidade pequena, ainda provinciana nas primeiras décadas do
século XX. Mas, o que me chamou especialmente a atenção
foi não aparecer nenhum transeunte obeso nas fotos. Eram todos
absolutamente magros, talvez porque andassem muito, a comida fosse
proporcionalmente mais cara do que é hoje e mais difícil
o acesso a alimentos de alto teor calórico. Essas fotos deixavam
claro que a obesidade é um problema mais recente que cresce
não só em São Paulo, mas no Brasil, onde mais
de 40% das pessoas estão com excesso de peso. Você acha
que o homem vai ter sabedoria para controlar essa tendência
à obesidade?
Sergio Almeida de Oliveira – Certamente vai ser difícil
porque a tentação é grande. As fotografias que
você mencionou referem-se a um tempo em que as pessoas tinham
o hábito de comer em casa. Não havia muitos restaurante
e, menos ainda, os fast-foods. Elas tomavam café da manhã
antes de sair de casa e a grande maioria voltava para o almoço
e o jantar. Nos intervalos, quando muito, tomavam um cafezinho ou
algo equivalente.
Hoje, há oferta exagerada de alimentos. Máquinas põem
à disposição comida, cheia de calorias e de sal
(outro inconveniente), que é rapidamente deglutida.
Como não é fácil resistir a tanto apelo, são
necessárias campanhas de esclarecimento para mostrar que comer
muito pode matar mais do que a fome que, até certo ponto, não
é prejudicial. É preciso chamar a atenção
sobre o problema que a obesidade representa para a vida das pessoas.
-
Comportamento pós-infarto
Drauzio – Como
se comportam os pacientes que já tiveram um infarto?
Sergio Almeida de Oliveira - É costume dizer que, depois
de um susto, as pessoas se tornam mais espertas, mas nem sempre isso
acontece. Pacientes operados do coração, obesos, hipertensos,
fumantes, ouvem a preleção que fazemos sobre a conveniência
de trocar esses hábitos por outros mais saudáveis e
fazem sempre a mesma pergunta: Posso levar vida normal? Podem levar
vida normal, o que não podem é fazer extravagâncias.
Na verdade, não era normal a vida que levavam antes. Alguns
pacientes são de fato disciplinados e seguem as recomendações,
mas a maioria volta aos hábitos antigos.
Drauzio – Quais são os maus hábitos
que os pacientes que tiveram um infarto ou foram operados do coração
retomam?
Sergio Almeida de Oliveira – Cigarro é um deles.
Muitos voltam a fumar. Em segundo lugar, retomam a alimentação
inadequada e, em terceiro, abandonam o controle médico periódico
a que deveriam submeter-se, pois os níveis de colesterol e
suas frações, da pressão arterial, da taxa de
açúcar, fatores de risco para a doença coronariana,
podem ser corrigidos se tratados na fase inicial. No entanto, como
depois da cirurgia os pacientes em geral se sentem bem e desconhecem
as características de continuidade da doença coronária,
pensam que estão curados e suspendem os retornos ao médico.
A aterosclerose não é como a pneumonia, que se cura
com antibióticos. Podemos retardar sua evolução
e até certo grau provocar a involução nos pacientes
que corrigem os hábitos errados. Além disso, contamos
com drogas que reduzem as diferentes frações do colesterol
e triglicérides, de maneira muito eficiente e com poucos efeitos
colaterais.
É uma questão de disciplina do médico e do paciente.
Não podemos culpar só o paciente. Às vezes, o
médico é também um pouco relaxado no controle,
em virtude do tempo gasto para explicar a necessidade das revisões
periódicas e dos controles. Por outro lado, o doente talvez
fuja com medo de novas terapias intervencionistas o que, na verdade,
todos queremos evitar.
-
Controle preventivo
Drauzio – A partir
de que idade você aconselha que comecem os controles na tentativa
de evitar o aparecimento de doenças cardiovasculares?
Sergio Almeida de Oliveira – Acho que devem começar
na juventude. O problema da alimentação pode ter origem
nos hábitos adquiridos em casa. Existem pessoas que gostam
de comidas que para mim parecem extravagantes. Por que gostam? Porque
comem desde crianças. É preciso ensiná-las a
escolher alimentos saudáveis e a não exagerar nas porções.
Só pregação não resolve. A família
toda deve entrar no esquema e dar exemplo.
Drauzio – Acho que aí existem dois
problemas complicados. Como fazer o filho adotar uma dieta saudável
com a TV bombardeando sua cabeça com propaganda de comidas
de alto valor calórico? Como vencer a barreira representada
por mães e avós que gostam de ver as crianças
limpando o prato?
Sergio Almeida de Oliveira – No passado, hiper-alimentação
era sinônimo de saúde. As mães preparavam gemadas
e outras comidas fortes para repor as energias do filho que voltava
cansado da escola. Na verdade, a grande preocupação
era com a tuberculose. Todos repetiam que uma pessoa enfraquecida
fisicamente estava mais predisposta a contrair essa infecção
e defendiam a importância de super-alimentar a criança.
De alguma forma, esse conceito ainda persiste. Por isso, estamos diante
de um trabalho difícil que deve começar com o pediatra,
depois passar para os clínicos, para o cirurgião e,
finalmente, para a sociedade que também é responsável
pela divulgação de hábitos alimentares nem sempre
agradáveis no início, mas importantes para a saúde.
Felizmente, tenho a impressão de que algumas mudanças
já estão acontecendo. Não sei se é uma
vitória, mas em abril de 2004 foi divulgado que o consumo de
cigarros caiu para 20% na população brasileira. Para
mim foi uma surpresa. Parece que as campanhas contra o tabagismo estão
começando a surtir efeito.
Drauzio – Isso é importante porque
o cigarro tem impacto enorme sobre as doenças cardiovasculares.
Sergio Almeida de Oliveira - Sobre as doenças cardiovasculares
e sobre outras como o câncer de pulmão, de bexiga, de
língua e sobre o enfisema, uma doença de evolução
longa, mas que tolhe muito a qualidade de vida das pessoas. Depois
de certa idade, o enfisematoso fica extremamente limitado, perde a
capacidade para atividades físicas que exijam algum esforço
e qualquer resfriado pode virar pneumonia. O enfisema não mata
depressa. Durante 10, 15, 20 anos, o paciente sobrevive, muitas vezes,
com péssima qualidade de vida.
-
Enfisema
Drauzio – Você
poderia explicar o que é o enfisema?
Sergio Almeida de Oliveira – O enfisema, conseqüência
da bronquite crônica provocada pelo tabagismo, produz destruição
dos alvéolos, a extremidade final dos ramos da árvore
brônquica, onde ocorre a troca gasosa.
Essa bronquite crônica acaba produzindo lesão definitiva
nessas ramificações terminais, chamadas bronquíolos,
e grande parte do pulmão se transforma numa bolha cheia de
ar, sem capacidade funcional. Nos casos avançados de enfisema,
a única solução é o transplante de pulmão,
um recurso extremo e difícil.
Drauzio – Quando você abre o tórax
de um doente para operá-lo e vê o pulmão, já
sabe se ele era fumante?
Sergio Almeida de Oliveira – Vivendo numa cidade como
São Paulo, onde a poluição ambiental é
muito grande, o pulmão do não-fumante também
pode ficar preto como o do fumante, sobretudo se ele trabalhar num
ambiente desfavorável. Na maior parte dos casos, porém,
o pulmão cheio de bolhas de enfisema é característico
do fumante crônico.
-
Check-up cardiológico
Drauzio – Quem
você acha que deveria fazer um check-up cardiológico
e a partir de que idade?
Sergio Almeida de Oliveira – É difícil estabelecer
um limite de idade, mas habitualmente se recomenda que o check-up
cardiológico seja feito a partir dos 40 anos, quando a doença
começa a ser mais prevalente. Pessoas que praticam esportes
também precisam passar por avaliação cardiológica
que deve ser clínica e laboratorial. Hoje, de modo geral, as
academias solicitam esses exames (não sei se de boa qualidade)
que despertam a atenção para o problema.
Todos insistimos que é importante fazer exercícios.
De fato é importante, mas antes é preciso saber se o
indivíduo está apto para praticá-los. Por isso,
é necessário passar por avaliação pelo
menos uma vez por ano, ou mais cedo se houver algum sintoma.
É sempre bom lembrar que as manifestações das
doenças cardíacas são vagas e pouco claras para
o paciente e o médico precisa ser informado para interpretá-las
e estabelecer um diagnóstico.
Drauzio – Como são esses exames?
Sergio Almeida de Oliveira - Para avaliação de
insuficiência coronariana são feitos testes ergométricos,
ou seja, um eletrocardiograma realizado sob esforço induzido
por atividade física ou por meio de drogas em pacientes que
apresentam limitações. Pessoas sem história familiar,
sem antecedentes de problemas cardíacos nem fatores predisponentes
e com resultado negativo no teste ergométrico, estão
provavelmente isentas de doença coronária. Isso não
quer dizer que não tenham a doença. Quer dizer que não
têm a manifestação, aquela que põe em risco
sua vida.
-
Incidência nas famílias
Drauzio – Há
famílias que têm uma concentração de casos
de doença cardiovascular. Que dados você valoriza nesse
caso?
Sergio Almeida de Oliveira – O membro de uma família
com antecedentes de doença cardíaca, especialmente de
doença aterosclerótica ou hipertensão, tem maior
probabilidade de manifestá-la do que uma pessoa sem antecedentes
familiares, embora esta também possa ter a doença.
A presença de antecedentes é importante, sobretudo nas
famílias em que a manifestação da doença
é muito semelhante. O fato de o pai ter tido um infarto fatal
aos 49 anos e de o irmão mais velho ter morrido aos 51 também
de infarto aumenta o perigo de que episódios agudos ocorram
em outros parentes nessa mesma faixa etária.
-
Hipertensão: mal silencioso
Drauzio – Geralmente,
as pessoas não controlam a pressão arterial, porque
não sentem nada que justifique esse cuidado. Mesmo aqueles
que sabem ter hipertensão se descuidam quando não apresentam
sintomas. Muitos deixam até de tomar a medicação
depois de duas ou três medidas com resultado normal. É
muito difícil convencer os hipertensos de que devem controlar
a pressão e tomar remédios para o resto da vida?
Sergio Almeida de Oliveira – Isso é responsabilidade
do médico, que deve dedicar longo tempo em muitas consultas
consecutivas conscientizando o paciente da necessidade de seguir o
tratamento para a hipertensão. O que em geral acontece é
ele procurar o médico numa crise ou quando teve derrame cerebral,
insuficiência cardíaca ou renal, infelizmente fases muito
avançadas da doença hipertensiva, em que serão
tratadas suas conseqüências.
Não sou especialista na área, mas sei que a primeira
coisa a fazer é corrigir a dieta, perder peso e praticar uma
atividade física. Outra medida importante é identificar
se não existe uma causa da hipertensão que possa ser
tratada e removida. Certas doenças congênitas provocam
hipertensão grave na criança. Por exemplo, o coartação
da aorta, ou seja, o estreitamento congênito dessa artéria,
é perfeita e definitivamente curável por meio de uma
cirurgia que se faz no primeiro ano de vida. Doenças renais
ou um tumor na supra-renal também podem ser causas removíveis
de hipertensão.
A maioria dos pacientes, porém, apresenta a chamada hipertensão
essencial, sem causa conhecida, que não tem cura, mas pode
ser controlada, inicialmente com medidas mais simples e depois com
medicação, em doses progressivas, se necessário.
Às vezes, a pessoa pode até dispensar o uso de medicação
porque conseguiu controlar a pressão arterial com perda de
peso, eliminação do sal e um pouco de atividade física,
mas ela voltará a subir se essas medidas de controle forem
abandonadas.
Drauzio – Quais são as conseqüências
para um paciente que não controla a pressão arterial?
Sergio Almeida de Oliveira - Esse paciente vai apresentar insuficiência
cardíaca, insuficiência renal ou derrame cerebral, todas
doenças gravíssimas. Além disso, muitas das cardiopatias
dilatadas que vão para transplante ou procedimento alternativo
são conseqüência da hipertensão, que pode
não ser causa única, mas agrava o quadro.