Drauzio – Como é
encaminhado o tratamento de uma pessoa que perde o controle quando começa
a comer?
Alexandre Azevedo – Hoje em dia, a Sociedade
Brasileira de Endocrinologia, seguindo as normas da Organização
Mundial de Saúde, não recomenda a prescrição
de dietas de baixo valor calórico, mesmo para as pessoas com
sobrepeso e obesidade. O tratamento deve sempre começar pela
reeducação alimentar.
Drauzio – Em que consiste o trabalho de reeducação
alimentar?
Alexandre Azevedo – Na reeducação
alimentar, não se trabalha necessariamente sobre a redução
de calorias diárias. Tenta-se adequar alimentos de valor calórico
corretos e horários de refeição também corretos.
De forma grosseira, significa que os alimentos próprios do café
da manhã devem ser ingeridos no café da manhã;
os do almoço, na hora do almoço e os o jantar, na hora
do jantar. Parece óbvio, mas muitas pessoas não respeitam
essa recomendação básica e comem no almoço
o que deveriam ter comido no café da manhã. Outra medida
importante é comer alguma coisa nos intervalos entre as três
refeições principais. Agindo assim, mesmo que valor calórico
do alimento seja baixo, o corpo irá perceber que está
sendo constantemente alimentado.
Na verdade, para a reeducação alimentar não importa
muito o valor calórico dos alimentos, se é alto ou se
é baixo. O objetivo é educar o relógio biológico
em relação aos horários alimentares para a pessoa
perceber que é capaz de controlar os episódios de compulsão
e de atingir um nível satisfatório de saciedade.
Muitos comedores compulsivos passam o dia fazendo restrição
dietética. Dizem que não dispõem de tempo para
alimentar-se por causa do excesso de trabalho ou da vida agitada que
levam. Por isso, os episódios de compulsão ocorrem preferencialmente
nos finais de tarde ou à noite. Ora, qualquer pessoa que passe
o dia restringindo a alimentação, quando chegar em casa,
vai ter um episódio de compulsão. É fisiológico.
É uma resposta do corpo. Entretanto, se os alimentos forem distribuídos
de forma regrada durante o dia, provavelmente esses episódios
desaparecerão. O problema assume maiores proporções,
quando a pessoa perde o controle e não consegue parar de comer,
o que caracteriza o comer compulsivo.
Drauzio – E se a reeducação
alimentar não for suficiente para o controle do comer compulsivo?
Alexandre Azevedo - Se a orientação nutricional
falhar, o próximo passo é identificar fatores psicológicos,
crenças, pensamentos que possam estar desencadeando os episódios
de compulsão. O tratamento psicoterápico cognitivo-comportamental
ajuda a desenvolver comportamentos que previnem o aparecimento desses
episódios.
Drauzio – Você poderia dar um exemplo?
Alexandre Azevedo – Vamos citar o sentimento
de frustração. A pessoa tem um traço de personalidade
que a faz exigir muito de si mesma. No ambiente de trabalho, não
consegue atender às próprias expectativas e, embora os
outros elogiem seu desempenho, não atinge o nível de perfeccionismo
almejado. Não ter alcançado plenamente a meta a que se
propôs gera um sentimento de frustração que pode
desencadear o episódio de compulsão, em geral, por doces
e gorduras porque são alimentos saborosos que reforçam
a sensação de prazer e de recompensa. Já está
provado que existe uma região do cérebro que é
ativada pela ingestão de gordura e de doces.
Nos casos em que o fator psicológico desencadeia a compulsão,
é preciso trabalhar o sentimento de frustração,
a autocrítica e a auto-avaliação como forma de
prevenir o comportamento compulsivo. O terapeuta pode auxiliar o paciente
a elaborar uma lista de soluções viáveis para enfrentar
os momentos de compulsão. Existem algumas técnicas que
ajudam: ler um livro, ouvir música, sair de casa, andar de bicicleta.
Uma vez posta em prática uma delas, 30 ou 40 minutos depois,
terá desaparecido a vontade de comer, isso se ele não
estiver realmente com fome e já tiver corrigido os maus hábitos
alimentares.
Drauzio – Muita gente tem o hábito
de passar o dia todo praticamente sem comer e, ao chegar em casa, à
noite, desvairada de fome, come demais. Esse comportamento não
é altamente contra-indicado para quem tem compulsão alimentar?
Alexandre Azevedo – Não é indicado
para ninguém e muito menos para as pessoas com distúrbio
de compulsão alimentar, porque essas perdem o controle quando
começam a comer. É quase certo que, depois de um dia mal
alimentadas, ao chegarem em casa, farão uma verdadeira orgia
alimentar. Comerão salgados, doces, frutas, alimentos congelados,
criando uma situação constrangedora e desagradável
para si mesmas e para os outros membros da família.
Drauzio – Às vezes, misturam feijão
gelado com pizza e fazem outras combinações esdrúxulas
de alimentos...
Alexandre Azevedo – Quando associam fome com
desejo incontrolável, comem o que estiver disponível no
momento, não importa o que seja.
Drauzio – Caso a reeducação
alimentar e o tratamento psicoterápico não proporcionem
bons resultados, o que pode ainda ser feito?
Alexandre Azevedo – Se não funcionarem
a reeducação alimentar e a orientação psicológica,
é a hora de entrar com a medicação.