Drauzio – Nesses anos todos
de oncologia pediátrica, você viu muitas crianças
que se trataram e ficaram completamente curadas. Que impacto teve o
câncer na personalidade dessas crianças?
Alois Bianchi – No Hospital do Câncer,
existe um grupo de atendimento aos pacientes curados que conta com ambulatório
próprio. Foi criado exatamente para acompanhar como essas pessoas
caminham pela vida afora no que diz respeito à profissão,
ao casamento, à capacidade de ter filhos ou não, ao progresso
intelectual e ao risco de recidiva. No início, eram acompanhados
pacientes curados há mais de dez anos; agora, os curados há
oito anos. Atualmente, participam do grupo aproximadamente 500 pacientes
que venceram a doença.
Se não fossem estimulados a freqüentar o ambulatório,
os curados iriam ficando distantes e acabariam se esquecendo do hospital.
No fundo, muitos nem gostariam de pensar que o hospital existe, pois
é doloroso lembrar os momento difíceis por que passaram.
No Brasil, poucos centros de oncologia reúnem tantos pacientes
curados há mais de oito anos. Em comum, eles têm algumas
características especiais, como, por exemplo, convencer os seguros
de saúde a aceitarem pessoas que tiveram câncer. Além
disso, estar com eles, serve de estímulo para os pais que têm
filhos em tratamento.
Drauzio – Como esses jovens reagem diante
do convite para participar desse grupo de acompanhamento?
Alois Bianchi – Embora alguns queiram desaparecer
de vez, muitos gostam do convite para voltar ao hospital depois de curados
e querem participar, morando longe ou perto, não importa.
Drauzio – Vocês já traçaram
um perfil desses jovens para avaliar como estão indo na vida?
Alois Bianchi – Em relação à
profissão, de maneira geral, pode-se dizer que grande parte dos
pacientes curados monta seu próprio negócio, porque existem
algumas restrições que os impedem de trabalhar como empregados.
Aqueles que terminam os estudos têm outras oportunidades de trabalho.
Por exemplo, no Instituto de Pesquisa, está trabalhando como
bióloga uma paciente curada com 22 anos.
Gostaria de ressaltar, no entanto, que, no começo, eram muitos
os indivíduos amputados que participavam do grupo de acompanhamento
e iam às reuniões de muleta ou usando uma perna-de-pau.
Era constrangedor, mas conseguimos reverter essa situação:
uma família passou a doar uma perna mecânica por mês
e praticamente ninguém mais ali usa esses artefatos.
Drauzio – As próteses evoluíram
muito de uns tempos para cá.
Alois Bianchi – É, e eles recebem próteses
modernas e eficientes que lhes facilita muito a vida.
-
Incidência na infância
Drauzio – Durante muito
tempo, câncer foi considerado uma doença que não
acometia as crianças.
Alois Bianchi – Em meados da década de
1960, quando chegamos para trabalhar no Hospital do Câncer, câncer
era considerado doença de adulto, de gente velha, e ouvir dizer
que uma criança estava com câncer era motivo de surpresa
e comovia toda a comunidade.
Drauzio – Em que faixa de idade as crianças
estão mais sujeitas ao aparecimento do câncer?
Alois Bianchi – Em geral, a doença aparece
nas crianças entre os dois e os sete anos de idade, mas isso
não quer dizer que adolescente não tenha câncer.
Drauzio – Quais os tipos de tumores mais
freqüentes nas crianças?
Alois Bianchi – A leucemia é a doença
neoplásica mais freqüente na infância. Depois dela,
vêm os linfomas (tumores dos gânglios linfáticos)
e os tumores do sistema nervoso que estão sendo cada vez mais
detectados graças às novas técnicas de diagnóstico
disponíveis atualmente (ultra-som, RX, tomografia, ressonância
magnética, medicina nuclear, etc.).
-
Dúvidas da criança
Drauzio – Que dúvidas
a criança com câncer, que já tem entendimento razoável
da situação, apresenta aos pais e aos médicos?
Ela pergunta muita coisa a respeito da doença?
Alois Bianchi – As perguntas aparecem mais na
fase inicial, quando caem os cabelos, as náuseas e enjôos
aumentam e as crianças perdem a vontade de ir à escola.
Depois, elas se adaptam. Adaptam-se aos cateteres e à rotina
de exames. Na verdade, as maiorzinhas acabam inteirando-se do programa
de tratamento o que lhes facilita a vida. Sabem perfeitamente quando
vão tomar soro, receber quimioterapia ou fazer radioterapia.
Drauzio – Vocês dizem para as crianças
que elas estão com câncer?
Alois Bianchi – A partir dos sete ou oito anos
de idade, a criança começa a entender melhor o que têm
e a perceber o correlacionamento dessa doença com a morte que,
felizmente, não é mais tão presente quanto era
no passado.
Embora a palavra bichinho possa ser um pouco assustadora, nessa faixa
de idade não dá para falar em célula maligna e
célula benigna. Por isso, explicamos para a criança que
dentro dela, no meio dos bichinhos bons, há um bichinho mau que
precisa ser combatido e por isso ela está fazendo o tratamento.
-
Orientação à familia
Drauzio – Como os pais
devem conversar com a criança a respeito da doença? Devem
dizer que ela está com câncer, uma doença grave
que precisa de muito tratamento?
Alois Bianchi – Atualmente, toda a equipe do
Departamento de Pediatria recebe orientação do que dizer
à família. Antigamente, nem se pronunciava a palavra câncer.
Era “aquela doença”. Não que o preconceito
tenha desaparecido por completo, mas a família é orientada
para conversar não só com as crianças, mas com
os amigos, os parentes e o pessoal da escola sobre o assunto. Não
é para ficar batendo a toda hora sobre a mesma tecla. É
preciso escolher os momentos oportunos para explicar à criança
que ela está passando por um tratamento delicado, complicado
e longo que a ajudará a voltar à vida normal. Não
tem cabimento falar em morte com ela.
Drauzio – Como é a orientação
que a família recebe para falar sobre a doença com a criança?
Alois Bianchi – Ela varia de uma família
para outra e depende do grau entendimento dos familiares. Felizmente,
contamos com uma psiquiatra infantil, que se encarrega de orientar os
pais sobre como falar com a criança a respeito da doença.
Fora isso, os familiares têm toda a liberdade de conversar com
os médicos sempre que necessitarem de ajuda e os próprios
médicos tomam a iniciativa de fazê-lo quando percebem que
podem auxiliá-los de alguma forma.
-
Doença terminal
Drauzio – Nos casos mais
graves, infelizmente fatais, como a criança lida com a perspectiva
da limitação progressiva? Ela chega a perceber que vai
morrer?
Alois Bianchi – Nas faixas de idade mais baixas,
a criança sente que está muito doentinha, muito desconfortada,
mas não tem claro o que isso possa significar. A partir dos dez
anos, é nítida sua percepção de que pode
estar chegando ao final.
Hoje, felizmente, nosso departamento possui uma UTI pediátrica
oncológica para onde as crianças são encaminhadas
precocemente com o acompanhante, porque podemos prever quando ela vai
passar por uma fase difícil provocada pela quimioterapia, pela
baixa de resistência ou pela cirurgia e esse encaminhamento precoce
faz com que em torno de 70% delas recebam alta da UTI.
Apesar de todos os cuidados, porém, algumas crianças vão
morrer. Essas vão perdendo a noção de como está
evoluindo a doença. Ficam mais apáticas, dormem mais.
De qualquer forma, o desconforto que poderiam sentir nessa fase terminal
é muito menor porque temos a capacidade de sedá-las convenientemente.
-
Centros de atendimento
Drauzio – Esse atendimento
acontece num serviço de excelência como o oferecido pelo
Hospital do Câncer. Você acha que a população
de baixa renda, no geral, pode contar com esse tipo de recurso de saúde?
Alois Bianchi – No Hospital do Câncer,
70% dos pacientes são atendidos pelo SUS e a grande maioria pertence
a uma classe de renda mais baixa. E o Hospital do Câncer não
é o único centro, em São Paulo, a oferecer um serviço
de excelência. A Escola Paulista de Medicina, o Hospital das Clínicas,
a Santa Casa são centros de alto gabarito. Além deles,
no Brasil inteiro, estão se desenvolvendo centros oncológicos
pediátricos de alta experiência, com muito bom atendimento
e a mesma tecnologia de que dispomos. Além disso, o número
de colegas que se dedica à oncologia pediátrica está
ficando cada vez maior. Por isso, o ideal seria que as famílias
não viessem de longas distâncias. Lembrando que o Brasil
é um dos poucos países que têm estradas de 4.000km,
5.000km, muitas crianças vêm de muito longe para serem
tratadas em São Paulo.
-
Mudança de enfoque
Drauzio – No passado, a
criança com câncer era vista como vítima, porque
era portadora de uma doença potencialmente fatal. Hoje, vocês
mudaram radicalmente esse enfoque. Em vez de desempenhar um papel passivo
diante de uma doença gravíssima, a criança é
estimulada a ter um papel ativo e passa a ser encarada como um herói
capaz de enfrentar as dificuldades que tem pela frente.
Alois Bianchi – Essa foi uma mudança importante
no sentido de que a criança vai ter que ajudar a curar a doença.
Por isso, é incentivada a conversar com os amigos, com os colegas
de escola sobre o que tem e sobre o tratamento que está fazendo.
-
Reação dos irmãos
Drauzio – Qual a reação
dos irmãos diante de criança com câncer?
Alois Bianchi – Por incrível que possa
parecer, numa fase inicial, a reação dos irmãos
é de ciumeira, porque a criança doente é cercada
de atenção pela família que se dedica quase que
exclusivamente a ela e ao tratamento. Além disso, no hospital,
ela recebe muito carinho, sai a passeio e ganha presentes. A ciumeira
chega a ser tanta que não raro, quando vamos ao ambulatório,
o número de crianças presentes excede ao número
das que estão sendo tratadas, pois os irmãos também
querem ir ao hospital que, afinal, se transformou num lugar agradável,
com brinquedo, presente e passeio. Até os vizinhos e os primos,
às vezes, estão por lá. O porteiro permite que
entrem e alguém tem coragem de mandar embora? Nunca.
Drauzio – Como os pais da criança
com câncer são orientados para evitar esses conflitos entre
os irmãos?
Alois Bianchi – Isso varia muito de acordo com
a situação peculiar de cada família, mas para todas
é dito que devem explicar aos irmãos que aquela criança
está lutando contra uma doença difícil, vai precisar
de tratamento durante muito tempo e que eles também precisam
ajudá-la nesse período.
Drauzio – Quer dizer que os irmãos
são convidados a participar do tratamento?
Alois Bianchi – Justamente. Por isso, quando
encontramos, no ambulatório, crianças acompanhando quem
está doente, não ficamos bravos. Não sei se o porteiro
sabe disso. O fato é que ele as deixa entrar e nós não
nos importamos com sua presença.
-
Ambulatório de curados
Drauzio – Nesses anos todos
de oncologia pediátrica, você viu muitas crianças
que se trataram e ficaram completamente curadas. Que impacto teve o
câncer na personalidade dessas crianças?
Alois Bianchi – No Hospital do Câncer,
existe um grupo de atendimento aos pacientes curados que conta com ambulatório
próprio. Foi criado exatamente para acompanhar como essas pessoas
caminham pela vida afora no que diz respeito à profissão,
ao casamento, à capacidade de ter filhos ou não, ao progresso
intelectual e ao risco de recidiva. No início, eram acompanhados
pacientes curados há mais de dez anos; agora, os curados há
oito anos. Atualmente, participam do grupo aproximadamente 500 pacientes
que venceram a doença.
Se não fossem estimulados a freqüentar o ambulatório,
os curados iriam ficando distantes e acabariam se esquecendo do hospital.
No fundo, muitos nem gostariam de pensar que o hospital existe, pois
é doloroso lembrar os momento difíceis por que passaram.
No Brasil, poucos centros de oncologia reúnem tantos pacientes
curados há mais de oito anos. Em comum, eles têm algumas
características especiais, como, por exemplo, convencer os seguros
de saúde a aceitarem pessoas que tiveram câncer. Além
disso, estar com eles, serve de estímulo para os pais que têm
filhos em tratamento.
Drauzio – Como esses jovens reagem diante
do convite para participar desse grupo de acompanhamento?
Alois Bianchi – Embora alguns queiram desaparecer
de vez, muitos gostam do convite para voltar ao hospital depois de curados
e querem participar, morando longe ou perto, não importa.
Drauzio – Vocês já traçaram
um perfil desses jovens para avaliar como estão indo na vida?
Alois Bianchi – Em relação à
profissão, de maneira geral, pode-se dizer que grande parte dos
pacientes curados monta seu próprio negócio, porque existem
algumas restrições que os impedem de trabalhar como empregados.
Aqueles que terminam os estudos têm outras oportunidades de trabalho.
Por exemplo, no Instituto de Pesquisa, está trabalhando como
bióloga uma paciente curada com 22 anos.
Gostaria de ressaltar, no entanto, que, no começo, eram muitos
os indivíduos amputados que participavam do grupo de acompanhamento
e iam às reuniões de muleta ou usando uma perna-de-pau.
Era constrangedor, mas conseguimos reverter essa situação:
uma família passou a doar uma perna mecânica por mês
e praticamente ninguém mais ali usa esses artefatos.
Drauzio – As próteses evoluíram
muito de uns tempos para cá.
Alois Bianchi – É, e eles recebem próteses
modernas e eficientes que lhes facilita muito a vida.
-
Características do câncer pediátrico
Drauzio – Quais as características
dos tumores malignos nas crianças e o que os diferencia dos tumores
nos adultos?
Alois Bianchi – Sempre insisto que a criança
não é um adulto em miniatura. Tem características
próprias, que as distingue das pessoas mais velhas. Conseqüentemente,
câncer em criança é uma doença também
com características próprias. Comparados com os do adulto,
os tumores na infância são muito mais agressivos e evoluem
muito mais rapidamente, porque atingem um ser em formação.
Drauzio – O curioso é que, embora
os tumores sejam mais agressivos nas crianças, a resposta ao
tratamento costuma ser mais rápida do que a dos adultos.
Alois Bianchi – Proporcionalmente, porém,
os tratamentos das crianças também são mais agressivos.
Especialmente no passado, quando a quimioterapia era pouco desenvolvida,
tentava-se dominar o câncer com grandes cirurgias e grandes campos
de aplicação de radioterapia que provocava efeitos indesejáveis
e promovia enorme agressão na criança.
-
Pioneiro da oncologia pediátrica
Drauzio – Você tem
quarenta anos de experiência em oncologia pediátrica. Na
verdade, entre nós, é o pediatra há mais tempo
em atividade nessa área. Como tudo começou?
Alois Bianchi – Comecei a carreira como pediatra.
Quando estava terminando a residência no Hospital das Clínicas
de São Paulo, recebi um convite do professor Bindo Guida Filho
para trabalhar no Hospital do Câncer. Eu lhe disse – “Olhe,
professor, nem sequer sei o nome das doenças de câncer
em crianças” - e ele argumentou: “Ninguém
sabe. Venha, vamos aprender juntos”. Aceitei o convite e eu fui
trabalhar como pediatra como pediatra.
Naquela época, as crianças eram tratadas por equipes médicas
especializadas em adultos e eu deveria dar-lhes assistência pediátrica,
mas acabei me envolvendo com a cancerologia infantil.
Drauzio – Sempre digo que a oncologia pediátrica
em São Paulo nasceu com você. Naquela época, havia
algum serviço de oncologia pediátrica nos outros estados
do Brasil?
Alois Bianchi – Não, não havia.
O serviço de São Paulo era o único e resumia-se
a uma enfermaria com dez ou doze leitos sob a supervisão de dona
Carmem Prudente, uma senhora sem filhos, que a recebera de presente
do marido, o professor Antônio Prudente. Ela também presidia
a Rede Feminina de Combate ao Câncer e cuidava dessa enfermaria
com muita atenção e carinho. Cheguei ali, em 1964, como
pediatra e acabei virando oncologista.
-
Avanços no tratamento
Drauzio – De que recursos
vocês dispunham para tratar crianças com câncer naquela
época?
Alois Bianchi – Embora dispuséssemos de
alguns quimioterápicos (por incrível que pareça,
parte deles continua sendo utilizada até hoje), o que mais se
fazia eram grandes cirurgias, inclusive cirurgias mutiladoras, que eram
um verdadeiro desastre. Temos que lembrar que uma das características
do câncer na criança é a facilidade de disseminação.
Rapidamente, ele invade todo o organismo da criança. Portanto,
de nada adiantavam as cirurgias, nem as grandes nem as pequenas, se
a célula maligna já tivesse se esparramado pelos diferentes
órgãos.
Da mesma forma, os campos de radioterapia eram enormes e as doses, altas.
Como se sabe, a radioterapia é uma excelente arma no combate
ao câncer, mas provoca alguns malefícios, especialmente
num ser em formação. Teoricamente, numa criança
predisposta à doença, ela pode determinar um segundo câncer
em áreas de baixa incidência e provocar queimaduras extensas
de difícil cicatrização.
Drauzio – Quando você compara esses
primeiros passos da oncologia pediátrica com as características
da especialidade hoje, que mudanças você aponta?
Alois Bianchi – Foram grandes as mudanças,
a começar pelo diagnóstico laboratorial que é muito
mais preciso e bem direcionado, o que permite o início precoce
do tratamento. No passado, recebíamos um contingente enorme de
crianças com a doença num estágio avançado.
A possibilidade de cura não ia além de 20% e restringia-se
aos casos cirúrgicos em que o tumor podia ser retirado totalmente.
E mais: o câncer é uma doença imunossupressora,
quer dizer, promove a baixa resistência do paciente. Especialmente
nos casos de leucemia e linfomas, as crianças tornavam-se alvo
de moléstias infecciosas e morriam não só por causa
do câncer, mas vitimadas pelas outras doenças que se associavam
a ele. Nessa época, me foram muito úteis os conhecimentos
que adquiri quando dirigia a enfermaria de moléstias infecciosas
do Hospital do Servidor Público de São Paulo.
Nos dias atuais, os avanços da antibioticoterapia e do tratamento
de doenças virais, assim como as conquistas na área da
vacinação reverteram bastante esse quadro, Hoje, quando
uma criança aparece com câncer, em geral, já foi
vacinada contra uma série de moléstias que quase não
existem mais. Por outro lado, contamos agora com novos quimioterápicos
que ajudam muito no tratamento das crianças com câncer.
-
Índice de cura
Drauzio – Você disse
que há 30, 40 anos, curávamos apenas 20% das crianças
com câncer. Qual é o índice de cura atualmente?
Alois Bianchi – No nosso meio, onde ainda recebemos
bom contingente de crianças com câncer avançado,
o índice de cura gira em torno de 70%. No Primeiro Mundo, esse
índice ultrapassa os 80%, atingindo quase os 90%. Para sermos
precisos, entretanto, nós conseguimos alcançar também
cerca de 90% de casos de cura nos tumores chamados de tumores fáceis,
desde que o diagnóstico seja precoce e o encaminhamento aos centros
especializados feito sem perda de tempo.
Drauzio – É possível dizer,
então, que o câncer em crianças é uma doença
altamente curável nos dias de hoje?
Alois Bianchi – Ela é curável,
desde que o diagnóstico seja precoce e a criança rapidamente
encaminhada aos centros especializados no tratamento.
-
Sinais da doença
Drauzio – Você disse
que, há 40 anos, o diagnóstico do câncer pediátrico
era feito tardiamente. Isso, provavelmente, porque os pais não
reconheciam os sinais da doença e os médicos também
não valorizavam os sintomas. Não havia a cultura de pensar
em câncer na criança. Quais são os sintomas a que
os pais e médicos devem estar atentos?
Alois Bianchi – Na verdade, os sinais que ocorrem
nas crianças podem ser confundidos com os sintomas das moléstias
comuns na infância. A criança tem febre e mal-estar, fica
pálida, mais preguiçosa e com falta de apetite. Eventualmente,
pode apresentar manchas roxas não justificadas por alguma batida
e dores ósseas sem trauma aparente. Além disso, emagrecimento,
dor de cabeça e estrabismo (a criança fica vesga de repente)
podem ser também sintomas de doença oncológica.
O que deve chamar a atenção dos pais e profissionais que
convivem com a criança é a persistência desses sinais
e sintomas, especialmente as febres de repetição, a falta
de apetite e de estímulo, a palidez, as manchas roxas e as dores
ósseas.
Drauzio – A partir de quanto tempo a persistência
desses sintomas começa a ter importância?
Alois Bianchi – Esse é um dado difícil
de precisar, pois difere de uma criança para outra. Especialmente
em São Paulo, onde é comum as crianças ficarem
resfriadas ou gripadas e com problemas respiratórios a toda hora,
associar esses sinais ao câncer torna-se mais complicado.
Vamos dizer, então, para ter um número de referência,
que um mês seja a data-limite. Portanto, se a criança apresentar,
durante um mês, uma doença com mais ou menos essas características,
terá de ser muito mais vigiada pelos pais e, acima de tudo, o
colega pediatra que vai assisti-la precisa estar alerta.
Felizmente, câncer em criança é uma doença
rara. Por ser rara (até os doze anos de idade, uma em cada 100.000
crianças apresenta a doença), faz com que o médico
não pense inicialmente nessa possibilidade, mas ele deve estar
atento.
-
Capacidade de adaptação
Drauzio – Nos primeiros
anos em que trabalhei no Hospital do Câncer, foi um choque ver
as crianças com câncer, pequeninas muitas vezes, tomando
soro, e a dor dos pais diante da doença dos filhos. No entanto,
o contato com as crianças e com as famílias mostrou que,
passado esse impacto extremamente doloroso, havia uma acomodação
de ambas as partes. As crianças, então, eram surpreendentes.
Esticavam o bracinho para pegar a veia e tomar quimioterapia de forma
muito mais tranqüila do que muitos adultos na mesma situação.
O que explica tal comportamento?
Alois Bianchi – A história é que,
no fundo, nos acostumamos a tudo. Inclusive às coisas ruins.
Por outro lado, essa reação das crianças se devia
ao carinho com que foram tratadas desde o início. Lembre-se de
que o Hospital do Câncer contava com uma equipe de enfermeiras
da Cruz Vermelha alemã que morava no próprio hospital.
Dedicadas ao extremo e altamente qualificadas, cercavam as crianças
de carinho. Se pensarmos que, naquele tempo, as crianças eram
internadas sem direito a acompanhante durante meses, às vezes,
é fácil perceber como era fundamental o vínculo
de amizade que estabeleciam com as pessoas da equipe médica e
paramédica.
Drauzio – Era mesmo impressionante a reação
das crianças. Naquela época, não havia cateteres
e as enfermeiras eram obrigadas a dar quatro ou cinco picadas até
conseguir pegar uma veia que era muito fininha. E as crianças
agüentavam firmes, nem sequer gemiam.
Alois Bianchi – É a velha história
de que a gente vai-se acostumando a tudo na vida, mesmo ao que há
de ruim.
Drauzio – A propósito, uma vez assisti
a uma palestra de um pediatra americano que começou a sessão
projetando um slide que dizia: “Para a criança é
normal estar doente”. Fiquei chocado com a frase a começar
pelo emprego da palavra normal. Depois, passei a observar que realmente
existe uma diferença de atitude entre a criança e o adulto
doente. Como se explica essa reação da criança?
Alois Bianchi – Vamos falar da reação
da criança diante das doenças em geral, não só
diante do câncer. Nos primeiros dias, quando a limitação
e o desconforto são maiores, a criança também reage
negativamente. Chora, reclama, briga com a família inteira. No
entanto, adapta-se melhor à doença porque enfrenta menos
limitações do que os adultos. Se, por um lado, deixa de
ir à escola e de brincar com os amigos, por outro é recompensada
por todo o carinho que recebe das pessoas em volta.
O medo que os pais têm diante do que o filho doente possa estar
sentindo provém mais da fantasia do adulto. O inconveniente é
que eles transmitem suas preocupações e ansiedade às
crianças, que são muito sensíveis. Quanto mais
angustiada e estressada a família, mais assustada a criança.
Famílias mais tranqüilas, que conversam naturalmente e esclarecem
as dúvidas da criança com câncer, que saem e passeiam
com ela, favorecem atitudes também mais tranqüilas na criança
doente.
-
Novas conquistas
• direito à acompanhante
Drauzio – Quando as crianças deixaram
de ficar sozinhas durante a internação?
Alois Bianchi - Deixar as crianças internadas
por longos períodos, com uma doença grave e taxa de mortalidade
alta, sem a companhia da mãe ou do pai, de um parente ou vizinho,
com direito apenas a duas ou três visitas semanais, e os familiares
plantados na porta do hospital à espera de notícias era
um absurdo, e foi só depois de muita briga dentro do Hospital
do Câncer e fora dele que conseguimos reverter essa situação.
Hoje, não há criança que seja internada sem direito
a um acompanhante. Todas têm um familiar ao lado, de dia e à
noite. Essa conquista tornou o hospital um lugar de convívio
mais fácil.
• extensão do limite de idade
Drauzio – Até que faixa de idade as
crianças são atendidas pela pediatria oncológica?
Alois Bianchi – No Brasil, não estava
bem definido o limite de idade em que o paciente oncológico deixava
de ser criança. Se era aos doze anos ou aos quatorze, por exemplo.
Hoje, depois de muita discussão e polêmica, na enfermaria
e em todo o Departamento de Pediatria, são atendidos pacientes
com câncer até os dezoito anos e todos com direito a um
acompanhante. Países existem que atendem esses pacientes até
os 21 anos no setor de pediatria.
• possibilidade de escolarização
Drauzio – As crianças conseguem estudar durante o tratamento?
Alois Bianchi – Antes, a criança em tratamento, além
de perder todas as referências familiares, perdia também
as amizades e perdia a escola. Hoje, ela pode dar continuidade à
sua escolarização, o que torna os períodos de internação
e tratamento menos dolorosos. Durante o governo de Jânio Quadros,
uma escola oficial de primeiro e segundo grau passou a funcionar dentro
do Hospital do Câncer para receber crianças e adolescentes
internados ou ambulatoriais. Os professores pertencem à rede
estadual e municipal de ensino e são cedidos pelas respectivas
secretarias de educação.
• Casas de Apoio
Drauzio – Qual é o tempo médio
de internação de uma criança com câncer no
momento?
Alois Bianchi - Como lhe disse, no passado, as crianças
com câncer ficavam meses internadas. Hoje, o período médio
de internação gira em torno de seis ou sete dias. A maior
parte do tratamento é laboratorial. Daí, a importância
das Casas de Apoio, onde a criança fica com o acompanhante nos
intervalos entre um procedimento terapêutico e outro. Nosso Departamento
conta com duas Casas de Apoio que não pertencem ao hospital e
são cuidadas por uma associação de pais que tiveram
crianças com câncer e por voluntários.
O suporte que essas casas oferecem não pode ficar restrito ao
alojamento e à condução para o hospital. Seus integrantes
devem atuar em todos os campos onde possam ajudar os pacientes, mesmo
depois de curados. Num país como o nosso, não podemos
depender só do governo para garantir saúde e educação.
A sociedade inteira tem de participar desse processo.
-
Reação dos pais
Drauzio – Como os pais
lidam com o infortúnio de ter uma criança com câncer?
Alois Bianchi – No passado, como o câncer
estava diretamente ligado à idéia de morte, os pais chegavam
apavorados. Mais o pai do que a mãe. Houve casos até que,
ao saber que o filho estava com câncer, o homem abandonou a casa,
deixando tudo por conta da mulher.
Nós tentamos desmistificar esse conceito do câncer como
um estigma vinculado à idéia de morte. Para tanto, foi
fundamental a equipe médica manter os pais bem informados sobre
a evolução da doença e as opções
de tratamento. Como as chances de cura são muito maiores e o
conhecimento da doença mais profundo, bem assessorados, os pais
passaram a oferecer ajuda muito maior, muito maior mesmo. Além
disso, eles convivem mais uns com os outros e trocam experiências
e informações. Às vezes, os que têm uma criança
em fase mais avançada do tratamento e observam que a melhora
é nítida, encorajam os que estão enfrentando o
começo da doença e até auxiliam a equipe médica
e paramédica.
Drauzio – Sabidamente, as mulheres estabelecem
uma relação com os filhos mais intensa do que os homens.
Por isso, parece estranho que elas lidem melhor do que o pai com o problema
que representa um filho com câncer.
Alois Bianchi – Acho que o termo lidar é
mesmo o que melhor se encaixa nessa situação, porque não
dá para imaginar o quanto a mulher está sofrendo por dentro.
Mas, mãe é mãe, e elas lutam e trabalham firmes
com a gente.
-
Recomendações gerais
Drauzio – Quais são
as recomendações gerais para os familiares que cuidam
de uma criança com câncer? Qual o tipo de alimentação
indicado? Ela pode sair para passear? Pode freqüentar regularmente
a escola?
Alois Bianchi – Na verdade, a criança
com câncer que está recebendo tratamento tem falta de apetite.
Portanto, deve comer como puder e o que puder. No comecinho do tratamento,
ao sair de casa, é bom fugir dos aglomerados humanos, evitar
grandes agressões climáticas e poupá-las de esforços
físicos. Nessa fase, sua resistência está baixa
e ela, mais vulnerável, pode pegar desde um simples resfriado
até moléstias infecto-contagiosas graves. Isso não
quer dizer que precise ficar trancada entre quatro paredes. Pode passear,
mas respeitando certos cuidados. Com o tempo, porém, ela ficará
mais resistente e mais livre.
Drauzio – Que conselho você dá
aos pais que descobriram recentemente que o filho tem câncer e
estão vivendo a fase inicial do tratamento?
Alois Bianchi – Que conversem conosco sempre
que sentirem necessidade. Vamos cuidar para que fiquem do nosso lado
e ajudem no tratamento. Felizmente, moramos num país religioso
e ter fé ajuda muito nesses casos. Por isso, é importante
que cada um se apegue à sua crença. Ela o ajudará
a enfrentar a doença da criança.