Drauzio – Gostaria de abordar
um assunto bastante polêmico. O ácido fólico é
uma vitamina importante durante a gravidez porque previne formações
inadequadas do tubo neural, isto é, do sistema nervoso da criança.
No entanto, se o fumante toma betacaroteno, aumenta a possibilidade
de contrair câncer de pulmão. Como você vê
essa vitaminoterapia que se transformou numa coqueluche, não
só no Brasil, mas nos Estados Unidos e Europa também?
Anthony Wong – Tudo pode ser veneno. A mesma substância
que, usada nas doses e momentos certos, é remédio, se
usada inadequadamente, pode ser veneno. Isso vale inclusive para as
vitaminas. Estudos epidemiológicos e sistemas de análises
clínicas cada vez mais aperfeiçoados mostraram coisas
que não sabíamos. Por exemplo, as megadoses de vitaminas
não previnem nem curam doenças. Ao contrário, podem
até fazer mal. Durante muito tempo, acreditou-se que as oito
vitaminas que participam da composição do complexo B não
seriam tóxicas. Depois, descobriu-se que a tiamina, a piridoxina,
o ácido nicotínico e a niacina, quando acumulados, eram
potencialmente tóxicos. Hoje se sabe que a superdosagem desses
elementos pode causar uma série de problemas sérios.
Drauzio – Quais os cuidados que se devem
tomar com a vitamina C?
Wong – Antigamente, a única indicação
da vitamina C era para prevenir o escorbuto, a doença dos marinheiros
que ficavam muito tempo em alto mar sem ingerir alimentos frescos. Depois,
ela começou a ser conhecida como uma vitamina segura e com propriedades
antioxidantes ajudando na prevenção de diversas doenças,
entre elas o câncer. Estudos realizados há 5 anos na Inglaterra
revelaram que em doses inferiores a 200mg, ela realmente pode ser benéfica.
Em doses superiores a 250mg, porém, o efeito antioxidante desaparece
e quebram-se as pontes dentro da molécula de DNA, o nosso arquivo
genético. Tanto isso é verdade que hoje há consenso
de que as megadoses são desaconselhadas uma vez que a quantidade
de vitamina C existente na alimentação é mais do
que suficiente para preencher nossas necessidades diárias.
Drauzio – Você receita vitaminas para
uma pessoa que tenha uma dieta normal?
Wong – Só receito para crianças
abaixo de dois anos porque elas tomam pouco sol. Na realidade nem haveria
muita necessidade, mas a mãe fica mais tranqüila.
Na adolescência, principalmente para as meninas, é importante
dar uma reposição de ferro porque, estimuladas pelas
manequins excessivamente magras, deixam de lado uma alimentação
equilibrada e podem desenvolver anemia.
Por outro lado, não se pode negar que a vitamina A é
útil para a visão e o betacaroteno, um bom antioxidante.
No entanto, excesso de vitamina A pode provocar hipertensão
intracraniana, isto é, aumento da pressão dentro do
cérebro, e a criança pode sofrer convulsões.
Excesso de vitamina D também tem contra-indicações
sérias. Pode aumentar a incidência de cálculos
renais e em outros órgãos, e provocar ossificação
exagerada, ou seja, o osso perde a flexibilidade e fica mais sujeito
a fraturas. Num país ensolarado como o Brasil, a necessidade
de doses extras de vitamina D é bastante pequena.
Drauzio – Como se deve orientar as mães
que gostam de dar suplementos com ferro para as crianças?
Wong – Excesso de ferro é perigoso, pois
pode provocar problemas no fígado e nos rins. Uma cientista brasileira
publicou um estudo bem fundamentado relacionando o excesso de ferro
na infância ao desenvolvimento da doença de Parkinson no
futuro. Normalmente, o ferro presente nos alimentos é suficiente
para preencher as necessidades infantis e não há necessidade
de doses suplementares.