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O caso das imagens

 
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“Existe um elemento de perigo em cada procedimento médico; aquele que cura uma pessoa pode matar outra”. Com esse ensinamento proferido por Nachmanides, médico e filósofo do século 13, começa a seção Perspectiva do “The New England Journal of Medicine” da última semana de agosto de 2009.

Nela, o americano Michael Laurel, do “National Heart, Lung and Blood Institute”, comenta um artigo publicado no mesmo número da revista por uma equipe multidisciplinar que estudou a exposição às radiações sofrida por 952.420 pessoas de 18 a 64 anos, submetidas a exames radiológicos por razões médicas.

Há muito discutimos as consequências das radiações que o corpo humano recebe durante os exames radiológicos de rotina, mas fica difícil tirar conclusões validadas cientificamente, por duas razões:

1) as doses de radiação envolvidas em cada exame são baixas;.

2) a complicação mais temível, o aparecimento de tumores malignos induzidos por elas, só ocorre depois de décadas.

Em 2007, no entanto, foi publicado na mesma revista um estudo intrigante: mostrava que, nos Estados Unidos, o número de tomografias computadorizadas havia quadruplicado nos últimos 15 anos. E que, possivelmente, cerca de 2% dos casos de câncer ocorridos naquele país pudessem ser atribuídos ao emprego dessa técnica radiológica. No Brasil, esses números são bem mais modestos, mas a tendência de aumento talvez seja comparável.

Para dar idéia da ordem de grandeza das doses recebidas em cada exame, vamos lembrar que os técnicos empregados em serviços de radiologia e em centros industriais que trabalham com materiais radioativos são submetidos a controles rígidos dos níveis de radiação a que estão expostos. As doses máximas que podem receber sem danos à saúde são de 100 mSv (milisieverts) a cada 5 anos, ou seja, 20 mSv por ano. Ainda assim, ninguém deve ser exposto a mais de 50 mSv num mesmo ano.

Em contraste, pacientes submetidos a exames de imagem não são monitorados, apesar de eventualmente realizar múltiplos procedimentos.

Vamos relacionar as doses (em mSv) recebidas em alguns dos principais exames radiológicos: cintilografia do miocárdio (15,6), cateterismo cardíaco (15), tomografias computadorizadas: do abdômen (8), do tórax (7), da pélvis (6) e do crânio (2), da coluna lombar (6) e da coluna cervical (6), cintilografia óssea (6,3), mamografia (0,4), raio X de tórax (0,02), raio X de abdômen (0,7).

No período de três anos de duração do acompanhamento, cerca de 70% da população estudada fizeram pelo menos um desses exames. Embora a maioria tenha recebido menos de 3mSv por ano, doses acima de 20 mSv foram administradas em uma minoria substancial.

Os dados, extrapolados para os demais habitantes do país, permitiram concluir que cerca de 4 milhões de americanos são expostos anualmente a níveis de radiação considerados perigosos, segundo as  normas de segurança adotadas para os técnicos que trabalham com equipamentos radioativos.

O problema é que nós, médicos, não costumamos levar em conta os riscos associados às doses de radiação que nossos pacientes receberão inadvertidamente ao realizar determinado exame, porque só pensamos nos benefícios obtidos através da análise das imagens. Poucos se preocupam com o fato de esses riscos serem cumulativos, com consequências que só se manifestarão depois de muitos anos.

É evidente que jamais voltaremos à era em que a medicina não contava com recursos radiológicos, mas é fundamental encontrar formas que nos permitam controlar as doses totais de radiação recebidas por nossos pacientes no decorrer da vida e informá-los de que o risco associado a elas é baixo, mas acima de zero. E, principalmente, evitar exames desnecessários que encarecem a prática da medicina e podem ser prejudiciais à saúde.

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