DrauzioVarella.com.br

Drauzio Varella.com.br

[ minha área ] [ entre ]
adicione

plugin de busca

buscar
  • estação saúde
  • entrevistas
  • artigos
  • espaço médico
  • interativo
    • infográficos
    • aplicativos
    • testes
  • enciclopedia
  • espaço cultural
    • conversas
    • livros
    • filmes
    • blog
Carregando...

Titulo

Mensagem

ok
  • Artigos >
  • Aids

A terceira onda

AIDS

 
reduzir / aumentar

Eram invariavelmente homossexuais os primeiros brasileiros com Aids. A maioria havia adquirido o vírus em viagens aos Estados Unidos e à Europa ou através de relações sexuais com parceiros infectados no exterior. Na época, a doença era chamada de "peste gay" e considerada por muitos um castigo que Deus, em sua infinita bondade, havia criado para punir a promiscuidade humana.

Por volta de 1985, começaram a cair doentes os portadores de hemofilia e os usuários de cocaína injetável (homens, em sua maioria). Não seria de estranhar, os norte-americanos e europeus já haviam descrito a transmissão do HIV através de produtos derivados do sangue e de agulhas contaminadas. O que surpreendeu foi descobrirmos a existência de uma verdadeira epidemia de cocaína injetável na periferia das grandes cidades. Ingenuamente, na época, a cocaína era considerada droga exclusiva das classes mais abastadas.

Essa foi a primeira onda da epidemia de Aids: homens homossexuais, hemofílicos e usuários de droga injetável. Para cada 20 ou 30 homens com a doença, surgia uma mulher.

Durante a segunda metade dos anos 1980 e na década seguinte, o HIV se disseminou especialmente entre as mulheres. Não que os homens deixassem de se infectar, mas a velocidade de disseminação entre eles diminuiu, graças a dois fatores:

1) Impressionados pelo sofrimento dos doentes e pelo número de mortos nas comunidades em que viviam, os homossexuais reduziram o número de parceiros e aderiram às práticas de sexo seguro (precauções que infelizmente muitos jovens atuais abandonaram).

2) O número de usuários de cocaína injetável caiu vertiginosamente, deixando claro que o uso de drogas ilícitas também obedece aos ditames da moda. No ambiente marginal de cidades como São Paulo, a cocaína injetável foi substituída pelo crack. Para dar uma idéia, em 1989, no auge da epidemia de cocaína injetável, num estudo epidemiológico por nós conduzido na Casa de Detenção (Carandiru), encontramos 17,3% dos presos infectados pelo HIV. A repetição desse estudo em 1995, em plena era do crack, mostrou que a prevalência havia caído para 13,7%. E para 8,5%, em 1998, quando ninguém mais injetava droga na veia.

Entre as mulheres, ao contrário, a epidemia se disseminou com mais liberdade nesse período. Primeiro, porque a conformação anatômica da vagina oferece uma superfície de contato às secreções sexuais masculinas mais extensa do que a mucosa do pênis às secreções femininas. Depois, porque boa parte das mulheres brasileiras ainda vive em condições de submissão econômica e social aos homens.

Assim, da metade dos anos 1980 ao final da década seguinte, a relação homem/mulher com Aids caiu gradativamente até atingir a proporção atual de 1,8 homem para cada mulher.

A Aids feminina e os bebês infectados constituíram a segunda onda da epidemia.

A previsão dos rumos que a epidemia iria tomar daí em diante gerou debates acalorados. De um lado, os que anteviam uma terceira onda na qual o "pool" de mulheres infectadas transmitiria o vírus para seus parceiros heterossexuais; de outro, os que consideravam a transmissão sexual da mulher infectada para o homem saudável altamente improvável, por conta das diferenças anatômicas já citadas.

Em publicações científicas, entrevistas e reportagens sempre defendi a posição dos primeiros. Nunca tive dúvida de que uma subpopulação de homens heterossexuais estava sendo infectada silenciosamente por suas parceiras. A certeza era baseada em reflexões teóricas e em observações clínicas.

A teoria nos ensina que não há exemplo de doença sexualmente transmissível que poupe um dos sexos. Seria a Aids a única? Por quê? Os milhões de africanos portadores do HIV seriam todos homossexuais ou dependentes de droga injetável?

A observação prática que me permitiu confirmar a teoria ocorreu no atendimento médico a presidiários. Há anos encontro presos HIV-positivos que negam o uso de drogas injetáveis ou relações homossexuais. São mentirosos, poderíamos argumentar. É pouco provável, eu diria. Os estupros são raros no sistema penitenciário depois que o programa de visitas íntimas foi criado em meados dos anos 1980. Na cadeia, um homossexual jamais passa despercebido, impossível disfarçar, todos ficam sabendo. E os que mantêm relações com travestis presos não têm o menor pudor em confessá-las, travestis são considerados "mulheres de cadeia", não é desdouro para malandro nenhum relacionar-se com eles.

Quanto ao uso de droga injetável no passado, por que razão esconder do médico, se os que o negam confessam a condição de usuários de crack, maconha, ecstasy, cola e exibem as veias dos braços intactas?

O relatório do Ministério da Saúde que acaba de ser publicado traz a confirmação dessas evidências. Textualmente, diz: "Entre os homens, consolida-se o crescimento da categoria heterossexual como principal forma de transmissão do vírus... A incidência de Aids entre heterossexuais masculinos supera 65% das notificações".

Chegou a vez dos homens heterossexuais que jamais injetaram droga na veia nem consideravam necessário usar preservativo por se julgarem imunes à infecção. A terceira onda da Aids está nas ruas.

    • incorporar
      fechar
    • fechar
    • imprimir
    • compartilhar
      fechar facebook del.icio.us twitter myspace yahoo! bookmarks google bookmarks windows live digg
    • indicar erro
      fechar
      enviar
    • enviar para um amigo
      fechar
      enviar
  • Pesquisar sobre A terceira onda

    Veja mais resultados de A terceira onda

    • artigos

      A terceira onda

      Eram invariavelmente homossexuais os primeiros brasileiros com Aids. A maioria havia adquirido o vírus em viagens aos Estados Unidos e à Europa ou através de relações sexuais com parcei...
    • artigos

      Por amor

      Quando vi o tamanho das filas diante dos caixas, desanimei. Tinha ido ao supermercado para comprar um mísero pacote de café, pretensão insignificante comparada à dos donos dos carr...
    • entrevistas

      O cérebro estrutura complexa

      Drauzio – A tendência sempre foi comparar o cérebro à mais sofisticada das máquinas de cada época. Na era da informática, está sendo comparado com frequência ao computador. É feliz essa...
    • artigos

      Homens que são mulheres

      De todas as discriminações sociais, a mais pérfida é a dirigida contra os travestis. Se fosse possível juntar os preconceitos manifestados contra negros, índios, pobres, homossexuais, g...
    • artigos

      De volta à circuncisão

      Circuncidar os meninos é prática que vem da antiguidade. Em que fatos terão se baseado os primeiros a preconizá-la, numa época em que ninguém sonhava com a medicina baseada em evidência...
    • artigos

      Circuncisão e parceria sexual

      Em medicina, nem sempre o que parece lógico resiste à análise criteriosa dos números. É o caso da transmissão do vírus da AIDS (HIV) nos cinco continentes. Na maior parte do mundo, a ep...
    • artigos

      As mulheres de Neandertal

      Depois de passar cinco ou seis milhões de anos na África, nossos ancestrais migraram para a Ásia e para a Europa. Em 1856, mineiros do vale de Neander (Neander Tal, em alemão) desenterr...
    • artigos

      A questão do aborto

      Desde que a pessoa tenha dinheiro para pagar, o aborto é permitido no Brasil. Se a mulher for pobre, porém, precisa provar que foi estuprada ou estar à beira da morte para ter acesso a ...
    • entrevistas

      Os olhos das crianças

      Drauzio – Quais são os defeitos visuais mais comuns nas crianças? Rosana Cunha – A hipermetopia é o distúrbio mais freqüente na população em geral e, em particular, no recém-nascido. Ca...
    • entrevistas

      Células-tronco II

      Drauzio – O que se sabe sobre o potencial das células-tronco? Mayana Zatz – As células-tronco, principalmente as embrionárias encontradas em embriões de até 14 dias, têm o potencial de ...
  • velhice
  • Gripe
  • Aids
  • Dor
  • Asma
  • Saúde
  • Hipertensão
  • sexo
  • Vídeos
  • Carandiru
  • Gravidez
  • H1N1
  • infográficos
  • IMC
  • obesidade
  • Cancer
  • Conjuntivite
  • Vacina
  • Dengue

Relacionados:

Como se transmite
 
tv: Como se transmite
Hepatite A
 
tv: Hepatite A
Hepatite B
 
tv: Hepatite B
O que é Hepatite?
 
tv: O que é Hepatite?
AIDS
 
rádio: AIDS
AIDS
 
rádio: AIDS
AIDS
 
rádio: AIDS
AIDS
 
rádio: AIDS
AIDS
 
rádio: AIDS
A Aids e os favelados da ... No tratamento da Aids, servimos de exemplo para o mundo. Nosso program...
artigos
A Aids e os favelados da ... No tratamento da Aids, servimos de exemplo para o mundo. Nosso program...
artigos
A descoberta do vírus da ... O vírus da Aids foi identificado em dois anos e meio. Jamais uma doenç...
artigos
Aids feminina O HIV se espalha entre as mulheres sexualmente ativas. O relatório do ...
artigos
As mil faces do HIV O vírus da Aids nasceu na África. Estudos genéticos conduzidos nos últ...
artigos
  • TERMOS MAIS PROCURADOS:
  • Anemia
  • Asma
  • Câncer
  • Conjuntivite
  • Gravidez
  • Gripe
  • H1N1
  • IMC
  • Malária
  • Pneumonia
  • Sinusite
  • sobre
  • sugestões
  • anuncie
  • biografia
  • serviços
  • créditos
  • prêmios
  • política de privacidade
  • termo de uso
enviar

Por determinação do Conselho Regional de Medicina estamos impossibilitados de emitir opiniões ou pareceres médicos pela Internet.
Utilize este espaço para sugestões, críticas e opiniões sobre nosso trabalho.

Atenciosamente,

EQUIPE SITE DRAUZIO VARELLA

fechar

  • apoio:
  • Siga o Dr. Drauzio Varella no Twitter
  • Prêmio IBest