Jadeildo Rodrigues da Silva – Recife/PE – É possível saber em que órgão a célula-tronco vai se transformar?
Mayana Zatz – Ainda não. Precisamos aprender a direcionar a célula-tronco para produzir o órgão que se deseja. Temos recebido inúmeros e-mails de pessoas que se oferecem para serem cobaias nas pesquisas com células-tronco embrionárias. Não podem. Aliás, é importante lembrar que se aparecer alguém oferecendo esse tipo de tratamento, é preciso tomar cuidado e pensar que o mundo está cheio de charlatões.
Drauzio – É preciso ficar claro que não temos conhecimento científico nesse momento para aplicar esse tipo de tratamento em seres humanos.
Mayana Zatz – Certamente, não temos. Além disso, sem saber o destino da célula-tronco embrionária no corpo humano, corre-se o risco de que ela se transforme em tumores, por exemplo, e a emenda seria pior do que o soneto.
Ana Lúcia Costa –São Paulo/SP – Como as pesquisas com células-tronco irão ajudar pessoas com diabetes?
Mayana Zatz – A idéia é que as células-tronco possam substituir as ilhotas de Langerhans do pâncreas, que fabricam insulina. Essa pesquisa já está sendo feita por um grupo liderado pela Dra. Meire Sogayar do Instituto de Química da USP.
Eduardo Lourenço –Ribeirão Preto/SP – Os bancos de cordão umbilical seriam uma alternativa para as pesquisas com células-tronco?
Mayana Zatz – É importante que as pessoas entendam que os bancos de cordão umbilical só vão ser úteis para a população quando forem criados bancos públicos de cordões que funcionem da mesma maneira que os bancos de sangue. Acredito que, se houver de 12 mil a 15 mil amostras num banco de cordões, a chance de encontrar uma célula-tronco compatível vai ser de praticamente 100%. Em São Paulo e em Porto Alegre, a iniciativa de criá-los já foi tomada, mas isso não basta. Eles deveriam existir em vários estados do Brasil, um país cuja população é constituída por vários grupos étnicos diferentes. Em Porto Alegre, por exemplo, são raros os japoneses e, no Paraná, eles são muitos. Por isso, os bancos devem ser bem estruturados e ter as características dos cordões levantadas, o que aumenta muito a chance de encontrar células-tronco compatíveis com a pessoa que delas necessita.
Drauzio – Você vê alguma vantagem em os pais guardarem o cordão umbilical quando têm um filho?
Mayana Zatz - Quando o bebê nasce, normalmente o cordão umbilical é jogado no lixo. Como já se sabe que o sangue do cordão umbilical e a placenta são ricos em células-tronco maduras, adultas (não são células-tronco embrionárias) e que elas são o melhor tratamento para leucemias, talassemias , anemias e inúmeras outras doenças do sangue, o melhor seria guardá-las num banco para atender quem delas precisasse.
Aí, começou a moda de cada casal querer congelar o cordão umbilical do filho, como garantia para o tratamento de doenças que, eventualmente, se manifestassem no futuro. No caso das leucemias, por exemplo, já ficou provado que o melhor é usar o cordão de uma pessoa compatível e, se a doença for genética, aí então, é que o cordão da própria pessoa não serve mesmo.
Os pais que pensam em guardar o cordão umbilical do filho para a suprir a eventual necessidade que possa ter, aos 50 anos, para corrigir um problema cardíaco, devem saber que talvez nem sequer seja possível mantê-lo em condições por todo esse tempo. Além disso, quem promete fazê-lo certamente não estará por perto dali a 50 anos para prestar contas. Por isso, o melhor é doar o cordão para formar bancos de cordões umbilicais.
Drauzio – Se você tivesse um filho hoje, guardaria o cordão umbilical?
Mayana Zatz – Não. Eu o doaria para um banco público, pois acho que não faz o menor sentido guardá-lo. Seria o mesmo que guardar meu sangue. Primeiro, porque posso passar a vida inteira sem necessitar de uma transfusão. Segundo, se precisar, num banco de sangue irei encontrar um tipo que seja compatível com o meu.
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