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Respiração

Daniel Deheinzelin é professor de Pneumologia da Faculdade de Medicina da USP, faz parte do corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês e foi diretor clínico do Hospital do Câncer.

 
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Drauzio - A respiração é uma função fisiológica do organismo diferente das demais especialmente pelo tempo em que pode deixar de ser exercida. Dois ou três minutos sem respirar, e o organismo começa a dar sinais de graves alterações. Se esse tempo for um pouquinho maior, será incompatível com a vida. Por que essa necessidade do corpo de respirar tanto assim?

Daniel Deheinzelin - Na verdade, a respiração traz embutida duas funções: uma é a oxigenação das células (o oxigênio passa do ar para o sangue a fim de alimentar todas as células do organismo); a outra é eliminar gás carbônico. É falsa a impressão de que essas funções são correlatas. Resultado da queima de todos os combustíveis necessários para o funcionamento da célula, o gás carbônico não pode permanecer no organismo. Caso isso aconteça, haverá intoxicação por CO2, a pessoa entrará em narcose e, não respirando em dois ou três minutos, poderá chegar ao coma.

Drauzio - Como se sente uma pessoa num ambiente fechado, ao perceber que lhe falta oxigênio e corre o risco de morrer por asfixia?

Daniel Deheinzelin - Ela entra em coma antes de morrer. No princípio, sente um desconforto imenso porque, à medida que o oxigênio se rarefaz, o esforço para respirar aumenta. É uma fase de muita agitação, durante a qual se busca retirar oxigênio de onde ele não mais existe. Depois, com a narcose, instala-se uma sonolência profunda e o coma. Isso acontece com clareza nos afogamentos.
Quando submerge, a pessoa sabe que não pode respirar e prende o ar, mas o grau de torpor se aprofunda e ela volta a respirar, enchendo de água os pulmões. O que caracteriza o afogamento é a entrada de água nos pulmões, conseqüência desastrosa de um reflexo espontâneo e natural: o da respiração. Uma das últimas coisas que se perde, quando em coma profundo, é o ritmo e a capacidade de respirar, visto que preservar a troca gasosa é essencial para a vida. Até que a falta de oxigênio não é o pior.
Embora a célula necessite de oxigênio para a combustão completa dos carboidratos, consegue realizá-la de forma anaeróbica durante algum tempo. É o que faz o corredor numa prova de 100m . Ele enche o pulmão e dispara. Naquele momento seu metabolismo é anaeróbico, ele não respira e o oxigênio não lhe faz falta. Agora, deixar de eliminar gás carbônico está fora de qualquer cogitação.

Drauzio - Há pessoas que se queixam de que não sabem respirar direito. Isso é possível?

Daniel Deheinzelin - Existem diferentes formas de respiração. Pode-se respirar envolvendo diferentes músculos e por diferentes vias. Pode-se respirar pela boca, pelo nariz, realizar respiração diafragmática, ou seja, usando os músculos do diafragma, ou respiração torácica, que demanda atividade da musculatura intercostal. Todas elas, porém,cumprem a mesma função.

Drauzio - Enquanto se respira, existe a consciência de que músculos estão sendo usados?

Daniel Deheinzelin - Respirar é um ato involuntário, inconsciente e não se toma conhecimento da musculatura envolvida nesse processo. Havendo esforço, a necessidade de respiração aumenta não só para manter a oxigenação adequada como para eliminar o gás carbônico que está sendo produzido em maior quantidade. Quanto mais se intensifica o esforço, mais músculos entram em ação para movimentar a caixa torácica. Em atividade normal, de 3% a 5% do oxigênio total absorvido são consumidos para manter a respiração.
Num caso mais crítico de insuficiência respiratória, esse índice pode chegar a 20%, 25%. No início, é possível respirar com maior freqüência e encher mais os pulmões, mas depois a fadiga da musculatura impede que continuemos respirando. Essa é uma situação comum nos prontos-socorros. Apesar do enorme cansaço, o indivíduo chega respirando, mas não suporta o esforço, pára de respirar e morre.

Drauzio - Há outras situações em que isso pode acontecer?

Daniel Deheinzelin - Um indivíduo pode parar de respirar não por colapso da musculatura, e sim porque se intoxicou com barbitúricos, por exemplo. A função respiratória está preservada, mas desapareceu o comando cerebral que faz da respiração um ato obrigatório, mas involuntário e inconsciente.

Drauzio - Não é uma coisa um pouco primária a natureza ter criado um mecanismo respiratório tão sofisticado e uma dependência de oxigênio tão básica que em dois ou três minutos já não se tem o oxigênio necessário à vida?

Daniel Deheinzelin - Na verdade, o problema não é tanto a falta de oxigênio, é a retenção do gás carbônico que provoca acidose. Mais ácido, o sangue interfere em todas as células e reações orgânicas, porque o PH responsável pelo equilíbrio do corpo foi seriamente alterado. Uma pessoa suporta sem respirar em torno de três minutos. Mergulhadores especializados não vão muito além disso, e são mergulhadores de profundidade, bem treinados.

  • Tosse

    Drauzio - A Medicina parece não ter evoluído o suficiente para resolver um dos sintomas respiratórios mais freqüentes e que acarretam sérios transtornos para as pessoas: a tosse. Uma série de patologias, desde um simples resfriado até um tumor maligno, provoca tosse. Qual a explicação para a existência da tosse?

    Daniel Deheinzelin - O aparelho respiratório assemelha-se a um grande funil invertido. O ar entra pela extremidade mais estreita e, através de tubos de condução, entre eles os brônquios, chega aos pulmões, a parte mais larga do funil. Há dezessete ramificações principais de brônquios que vão se dividindo até alcançar pequenas áreas onde ocorre a troca de gases. A questão é como manter limpo esse sistema, uma vez que o contato direto com o exterior permite a entrada de sujeira e infecções. Por isso, o ideal é respirar pelo nariz: sua estrutura anatomicamente perfeita para reter o material grosseiro que o ar carrega, impede que a poeira chegue aos pulmões. Além disso, o nariz é revestido por cílios e muco. Grosso modo, pode-se descrever o processo da seguinte maneira: o muco recobre os cílios e, por impacto ou perda de velocidade, as partículas de sujeira tendem a sedimentar-se sobre ele que as empurra num movimento oscilatório semelhante ao do vento soprando num campo de trigo. Assim, o muco progride até atingir as vias aéreas mais calibrosas para ser expulso. Relembrando a figura do funil invertido, é fácil deduzir que o caminho de volta pode ser obstruído por pequenas quantidades de muco. Fechada a ponta do funil, a pressão aumenta e, para eliminá-la, a musculatura é contraída e sobrevém um acesso de tosse. Em muitos aspectos, o reflexo da tosse é natural e benéfico, pois ajuda a expulsar secreção ou corpos estranhos.

    Drauzio - Que alterações podem provocar o reflexo da tosse?

    Daniel Deheinzelin - Inúmeras são as causas da tosse: irritação da mucosa, cílios defeituosos, acúmulo de secreção, presença de material estranho. Se alguém engasga, por exemplo, a obstrução se dá primeiro na glote, a “tampa” que abre e fecha a laringe. No entanto, se chegar aos pulmões, estimulará um reflexo de tosse. Também provoca tosse o crescimento anômalo de células no pulmão ou nos brônquios. O organismo reconhece a invasão e reage acionando um reflexo de tosse que infelizmente é incapaz de eliminar o tumor.

    Drauzio - Apesar de incômoda e desgastante, a tosse pode ter efeitos benéficos. Isso sempre acontece ou há tosses inúteis, irritativas que só fazem sofrer. Como se distingue um tipo do outro?

    Daniel Deheinzelin - Há dois tipos de tosse: a tosse seca e a tosse produtiva. É pela presença ou não de muco que se estabelece a diferença. Na tosse produtiva existe um catarro que se movimenta e é eliminado. Na tosse seca, esse catarro parece não existir. Portanto, é preciso avaliar se a tosse é realmente seca ou se, por desidratação ou tratamento incorreto, ele não flui.

    Na verdade a tosse é apenas um sintoma que exige diagnóstico cuidadoso. Nas crises de asma, por exemplo, os brônquios entram em constrição. Esse fechar dos brônquios provoca a sensação de que algo estranho dentro deles deve ser expelido. A musculatura ao redor se contrai e surge tosse seca mesmo que não haja outros sintomas de asma.

    Estatísticas sugerem, todavia, que 40% das tosses secas surgem por problemas nas vias aéreas superiores, dado que se repete nos casos de tosse produtiva, com catarro.

    Vale mencionar, ainda, outra causa comum de tosse: a esofagite. O esôfago é um órgão muito próximo da traquéia e da entrada dos pulmões. Se, por problemas do aparelho digestivo, o refluxo do ácido estomacal subir pelo esôfago e atingir as vias aéreas, provocará um reflexo de tosse indicativo de uma patologia gastroesofágica que pode acarretar complicações respiratórias sérias.

  • O tratamento da tosse crônica

    Drauzio - Que medidas práticas podem ser adotadas diante de crises de tosse?

    Deheinzelin - A tosse é, em princípio, benéfica se ajuda a eliminar o catarro retido nos pulmões. Se for seca, deve-se investigar se o paciente está desidratado e, nesse caso, recomendar que beba muita água, de 2,5 a 3 litros por dia. A água é o melhor antitussígeno que se conhece, pois facilita a movimentação do muco sobre os cílios. E não fica só nisso: quando há obstrução e tosse, a respiração se acelera e o tempo necessário para umidificar e aquecer o ar externo torna-se exíguo, diminuindo a eficiência do movimento do muco. Por isso se recomenda ingerir muita água, beber água até a urina ficar clarinha, sinal de boa hidratação.

    Muita cautela com o uso de xaropes, já que vários medicamentos englobados nessa categoria são vendidos livremente nas farmácias. Há os xaropes ditos expectorantes, de eficácia discutível, que facilitam o transporte do muco e os sedativos da tosse, em geral com codeína ou outra substância análoga, que inibem o reflexo de tosse. Há os que, paradoxalmente, associam as duas indicações, mas nenhum deles supera o valor terapêutico da água. Acredite, água é ótimo para tosse.

    Em relação aos xaropes broncodilatadores, a coisa muda de figura. Esses são eficientes para quem apresenta broncoespasmo e devem ser prescritos.

    Tosse crônica nunca é natural mesmo em se tratando de fumantes inveterados. É imprescindível procurar atendimento médico para uma avaliação precisa do quadro clínico se a tosse persistir por duas semanas.

  • Afinal, tomar gelado faz mal?

    Drauzio - O primeiro conselho é beber bastante água. Em relação ao gelado ou quente, o que se deve observar?
    Daniel Deheinzelin - A resposta admite algumas considerações. É voz corrente que o gelado é um veneno para a tosse. Nem sempre é assim. Se a temperatura exterior está baixa e o corpo frio, o gelado piora a tosse porque os cílios sofrem com baixas temperaturas e o movimento do muco se altera. Às vezes, porém, a tosse é causada por irritação nas vias aéreas superiores. Nessas circunstâncias, o frio pode ser benéfico, pois é um bom antiinflamatório. Por isso os médicos prometem sorvete às crianças operadas das amígdalas. Superadas as dificuldades do pós-operatório, ele se torna uma das possibilidades de alimentação uma vez que o gelado é também anestésico.

    O problema não é o que se faz quando se está com tosse, é saber se tomar gelado dá tosse. Isso depende da causa da doença. Se for uma crise asmática, não faz a menor diferença. Se for sinusite, com secreção que desce dos seios da face pela retrofaringe ,cai na glote e provoca tosse, o gelado piorará o quadro.

    Drauzio - As pessoas costumam reconhecer a sinusite por uma dor na região frontal da face. Sinusite também dá tosse?

    Daniel Deheinzelin
    - Sinusite pode dar dor na região frontal, corrimento nasal, coriza, provocar o aparecimento de catarro amarelado, e pode também estimular a tosse. Não saindo pelo nariz, a secreção, rica em histamina, será drenada pela retrofaringe. Como a histamina irrita as vias aéreas, tosse também é sintoma de sinusite.

  • A ação do fumo

    Drauzio - É inquestionável que o cigarro compromete a qualidade de vida das pessoas. O vício geralmente se instala na adolescência e se prolonga vida afora. Que malefícios traz o cigarro para o aparelho respiratório?

    Deheinzelin - Logo que se começa a fumar, desenvolve-se uma reação inflamatória, pois a fumaça inalada numa temperatura extremamente alta queima as vias aéreas. O fumante, porém, não sente o estrago, ou melhor, no início sente, tem tosse, engasga.

    Depois esses sintomas desaparecem, mas a ação deletéria do cigarro permanece não só nos pulmões, mas em todo o aparelho respiratório e surgem rinites, sinusites e bronquites renitentes.

    Isso é simples de entender: o revestimento das vias aéreas superiores não agüenta a alta temperatura da fumaça nem a toxicidade de seus compostos químicos e o organismo passa a produzir mais muco para expulsar o elemento irritante. Nos brônquios e nos alvéolos, a fumaça provoca reações inflamatórias que acarretam destruição seqüencial dos brônquios e da estrutura arquitetônica dos pulmões. Além disso, corrói por onde passa e gera partículas de oxigênio, os radicais livres, que têm a capacidade de oxidar e destruir as estruturas celulares. Esse processo irreversível nem sempre é acompanhado de sintomas perceptíveis pelo fumante que vai perdendo os parâmetros da normalidade. Ele julga ter desempenho satisfatório em todas as atividades, pois desconhece qual seria sua performance sem o cigarro. O pulmão do fumante envelhece mais depressa e fica mais vulnerável a diferentes patologias.

    Muitos pensam que doenças broncopulmonares aparecem depois de anos que se começou a fumar. Estão enganados. Elas começam com o primeiro cigarro. Como o pulmão tem uma enorme reserva funcional, não denuncia que está perdendo superfície e área de troca gasosa. Quando os sintomas se evidenciam, grande parte dele já foi destruída irremediavelmente. Isso acontece nos casos de enfisema pulmonar, doença progressiva e irreversível que se caracteriza pela destruição dos alvéolos, de bronquite e em muitos tipos de câncer.

    As lesões causadas pelo cigarro vão além do aparelho respiratório. O organismo funciona em uníssono, harmonicamente: um descompasso aqui, uma conseqüência ali. Por isso o fumante corre mais riscos de apresentar distúrbios cardiovasculares, hipertensão e, é claro, câncer em outros órgãos.

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