Drauzio – Marcos teve duas hérnias de disco: uma na coluna lombar que resolveu clinicamente e a outra na região cervical que precisou de intervenção cirúrgica. Você, como médico, distingue uma situação da outra?
Osmar de Moraes – De modo geral, a hérnia de disco é encarada como uma afecção benigna. Na verdade, ela não é uma doença, mas a evolução de um quadro. Obviamente, a conduta varia conforme o caso e de pessoa para pessoa, mas as estatísticas revelam que, na primeira crise, mais de 90% dos indivíduos com dor lombar melhoram com o tratamento clínico. Os que referem sentir dor por mais de uma semana acabam melhorando com o mesmo tipo de tratamento em no máximo 30 dias. Se não houver nenhum déficit motor, portanto, são aconselhados a retomar as atividades normais depois de um ou dois dias de medicação. Se a dor persistir ou outro sintoma aparecer, é necessário encaminhá-los para um exame radiológico.
Drauzio – Marcos continuou levando vida normal apesar da dor provocada pela hérnia de disco na coluna lombar. No passado, os médicos recomendavam que esses pacientes fizessem repouso. Por que essa conduta não é mais adotada?
Osmar de Moraes – O mais recente estudo sobre o assunto mostrou que o indivíduo em repouso absoluto chega a perder um grama de proteína por quilo em um dia, por causa da retração tendínea que ocorre enquanto fica na cama. Por isso, o melhor é manter algum movimento, mesmo que surja um pouco de dor que pode ser aliviada com doses mais altas da medicação.
Drauzio – O que é retração tendínea?
Osmar de Moraes – Quando não se mobiliza um segmento do corpo como a perna, a coxa ou o braço, a tendência é ele ir encurtando. Se a pessoa dobrar o cotovelo e deixá-lo assim por quatro semanas, por exemplo, no final o braço estará um pouco menor porque os tecidos (ligamentos, músculos, ossos) e a circulação, se não forem estimulados, serão progressivamente reabsorvidos. Por isso, não havendo déficit motor, o repouso absoluto não é recomendado. O aceitável é que o paciente repouse por 24, 48 horas, no máximo. Hoje, não mais se discute a importância de liberá-lo para continuar em atividade, desde que não seja pesada.
Drauzio – Acupuntura ajuda?
Osmar de Moraes – Apesar das controvérsias que cercam todas as sub-especialidades, está provado que a acupuntura funciona bem como analgésico na fase aguda.
Drauzio – Você fez acupuntura, Marcos?
Marcos Dvoskin – Fiz acupuntura na crise da coluna cervical. No meu caso, ela não funcionou, mas também tomar morfina não adiantava mais.
Osmar de Moraes – A acupuntura funciona até um determinado ponto da dor. Por isso, ao perceberem quea pessoa não responde bem ao tratamento, muitos acupunturistas a aconselham a procurar um médico especialista. Foi o que aconteceu com Marcos, que necessitou de uma intervenção cirúrgica, porque seu caso era mais grave.
Drauzio – Sempre me chamou atenção no tratamento cirúrgico da hérnia de disco, o fato de o paciente sentir dores terríveis que o obrigavam a tomar três ou quatro comprimidos de morfina por dia e estar completamente sem dorpoucas horas depois da operação. Isso aconteceu com você?
Marcos Dvoskin – Exatamente assim. A cirurgia começou às 8 horas da noite e terminou às 2 horas da madrugada. Às 4h, eu já estava no quarto sem nenhuma dor e nunca mais senti aquela dor na minha vida.
Drauzio – É sempre esse o resultado da cirurgia?
Osmar de Moraes – Quando bem indicada, se o disco estiver comprimindo mecanicamente a raiz nervosa, em geral, o resultado é esse. O grande segredo da cirurgia na coluna como um todo e principalmente na hérnia de disco é a indicação precisa. Uma vez localizado o nervo que está com o diâmetro reduzido pela metade por cauda da compressão exercida por parte do disco que estravasou, é só corrigir o defeito mecânico para obter alívio completo da dor.
Basicamente, foi o que aconteceu com Marcos. Entretanto, existe um mecanismo inflamatório que ainda não é bem conhecido e, às vezes, compromete o resultado favorável das cirurgias.
Drauzio – Quantos dias você ficou no hospital?
Marcos Dvoskin – Um dia. Fui para casa 24h depois da cirurgia com a orientação de fazer repouso e usando um colar de proteção que só devia retirar para dormir num travesseiro adequado à situação.
Drauzio – Que instruções você recebeu no pós-operatório?
Marcos Dvoskin – Eu deveria andar, mas com cuidado, usando o colar cervical. Na semana seguinte comecei as sessões de fisioterapia visando à recuperação da musculatura. Por volta de 25, 30 dias depois, voltei a caminhar e depois a correr, o que estou fazendo até hoje.
Drauzio – Nunca mais você sentiu dor?
Marcos Dvoskin – Nunca mais. Esse é um assunto encerrado em minha vida. Dele, só sobrou a marca dos pontos no meu pescoço e mais nada. Estou muito feliz, porque não posso imaginar a minha vida sem corrida.