Drauzio – Que cuidados os diabéticos devem tomar com os pés, uma vez que poucos são informados sobre esse tipo de problema?
Marco Guedes – Verão e diabetes não combinam. Verão lembra praia, campo, pé no chão. Quantas vezes não saímos da barraca e fomos pulando até a água porque não agüentávamos a temperatura da areia na sola do pé. O diabético tira os sapatos e não sente o chão escaldante. Vai andando tranqüilo, assobiando uma ária e só à noite, já em casa, percebe que a sola dos pés está descolada e cheia de bolhas enormes. Esse é um tipo de ferimento democrático. Ocorre na praia apinhada de gente e no iate, porque a fibra do barco também esquenta e queima os pés dos ocupantes portadores de diabetes.
Conclusão: diabético com distúrbio da sensibilidade protetora dos pés não deve andar descalço. Se vai à praia, que ponha um tênis velho e entre com ele no mar. Quando sair, basta lavá-lo bem para tirar a areia e livrá-lo da contaminação pelos microorganismos presentes na água do mar.
Outro cuidado importante é a higiene com os pés. É comum a pessoa, ainda com os pés úmidos, colocar meias, sapatos ou tênis e passar horas assim calçado. A umidade aumenta a fermentação no interdígito, isto é, no vão dos dedos, e favorece o aparecimento de frieiras, porta de entrada para infecções.
Diabéticos devem cuidar das unhas num podólogo. Não em qualquer podólogo, mas num que tenha experiência com pés sensíveis. Um pequeno ferimento num canto de unha ou na cutícula pode transformar-se num foco infeccioso importante.
Além disso, é bom não esquecer que diabéticos têm pele seca. Uma das alterações dessa neuropatia é a anidrose ou desidrose, ou seja, a diminuição da sudorese dos pés. Isso faz com que a pele fique mais ressecada do joelho para baixo. Pele seca racha, faz gretas, faz fissuras que são portas também abertas para infecção. Por isso, boa hidratação das pernas do joelho para baixo e dos pés precisa ser feita com regularidade. O hidratante, porém, não deve ser passado nos interdígitos. Ali, ele funciona como uma coisa molhada que macera e parte a pele.
Por fim, quem tem diabetes deve usar meias de algodão que absorvem melhor a secreção e meias claras porque qualquer ferimento, por menor que seja, deixa sinais numa meia clara.
Drauzio – Nunca tinha ouvido falar isso. De fato, é uma ótima idéia recomendar o uso de meias claras, porque é difícil enxergar manchas numa meia escura. Há outros cuidados que os diabéticos devem tomar com os pés?
Marco Guedes – Todo mundo já usou um dia uma meia mal feita, com costura grosseira e uma saliência que machuca o dedinho. Outro dia mesmo, virei do avesso uma meia porque a costura estava me incomodando. O diabético não percebe isso, assim como não percebe pequenos objetos enfiados dentro dos sapatos que vai calçar. E pode ter de tudo. É uma meia enrolada, uma pedrinha, um grão de arroz, a pecinha de um brinquedo do netinho. Por isso, ele precisa inspecionar meias e calçados antes de colocá-los nos pés. Já vi muitos desastres que esses pequenos descuidos provocaram nas pessoas.
Pés insensíveis têm de ser examinados duas vezes por dia. Em certas situações, o próprio paciente não consegue fazê-lo sozinho. Enxerga mal ou tem problemas de equilíbrio. Se um espelho não resolve a situação, deve pedir ajuda a um familiar.
Há normas importantes que devem ser divulgadas para que os diabéticos não corram o risco de uma amputação, o que na terceira idade é sempre mais grave, pois o uso do aparelho protético para caminhar consome mais energia que os dois pés. Além disso, eles costumam ter outros problemas associados, como a doença de base, o diabetes, que impedem maior consumo de energia.