Drauzio - Você poderia explicar o que é a cirurgia minimamente invasiva?
Luiz Antonio Rivetti - A cirurgia minimamente invasiva não utiliza circulação extracorpórea. Se não há como discutir as vantagens que a circulação extracorpórea trouxe para o desenvolvimento da cirurgia cardíaca, existem dificuldades inerentes a ela que a tecnologia moderna superou apenas em parte. Por exemplo: ao sair do corpo, o sangue passa por tubulações plásticas antes de voltar para o coração. Nessa primeira circulação, perde 20% das plaquetas. Com isso, o sistema de coagulação se altera e desencadeia uma coagulopatia que não deixa de ser uma agressão ao organismo do paciente.
E mais: circular muito tempo pelos roletes da bomba que impulsiona o sangue para dentro do indivíduo novamente, faz com que as hemáceas se rompam e liberem hemoglobina para o plasma, provocando hemoglobinúria. Esse excesso de hemoglobina nos rins pode causar insuficiência renal.
Como resultado dessa alteração de plaquetas e ruptura das hemáceas, podem formar-se microtrombos que irão localizar-se nos pulmões, no cérebro, nos rins, no fígado. Embora tais alterações sejam controláveis na maioria dos casos, sempre será melhor evitar que ocorram. Desse modo, a morbidade, ou seja, as complicações operatórias, e a mortalidade baixarão mais ainda.
Drauzio – Quais são os casos que podem ser operados sem circulação extracorpórea?
Luiz Antonio Rivetti – Atualmente, 80% dos casos de problemas coronarianos podem ser operados sem circulação extracorpórea. Infelizmente, quando o problema é congênito ou valvular, isso ainda não é possível, mas já existem físicos estudando a viabilidade de introduzir um endoscópio no coração do paciente e anular, por meio da técnica de interferência de cores, a dificuldade que o vermelho do sangue representa para a visão.
Num dos últimos Congressos Brasileiros, alguns cirurgiões relataram que, no Nordeste, 100% das cirurgias estão sendo feitas sem circulação extracorpórea.
É importante considerar, ainda, que essa circulação custa muito caro, pois implica o uso de filtros, oxigenadores e tubos de silicone de alta tecnologia. Tendo em vista as dificuldades por que passou a Santa Casa na década de 1980 e por que passa agora novamente, poder substituir essa parafernália por um tubinho que custa US$40 no máximo, significa baratear em 50% cada cirurgia, o que é de fundamental importância num país como o nosso.
Drauzio - À medida que a cirurgia cardíaca tonou-se menos invasiva, a cardiologia tornou-se mais invasiva. Você poderia explicar esse aparente paradoxo?
Luiz Antonio Rivetti - A cardiologia invasiva ocorre principalmente nas doenças coronarianas. A introdução de balões que esmagam a placa de ateroma formada pelo colesterol, que se deposita na face interna das coronárias, ajuda a restabelecer o fluxo sanguíneo. Além disso, é possível colocar um stent, ou seja, uma armação muito delicada que, dentro da artéria, tentará conter novo crescimento da placa. Submetido a esse processo cirúrgico, o paciente ficará hospitalizado poucos dias e, voltando para casa, poderá levar vida normal.