Outro tipo de memória não consciente que interfere com o
comportamento compulsivo é o fenômeno da sensibilização.
Quando um rato recebe doses diárias de anfetamina, morfina ou cocaína,
por uma ou duas semanas, cada dose sucessiva provoca uma resposta mais
intensa: o animal balança a cabeça e se movimenta mais depressa
pela gaiola, e mais dopamina (o neurotransmissor mais importante para
a sensação de prazer) se acumula em seu cérebro.
Essa resposta exagerada persiste mesmo quando o rato é deixado
em abstinência por um ano (a metade da vida de um rato).
Terry Robinson, da Universidade de Harvard, diz que a sensibilização
altera os circuitos de neurônios envolvidos nos processos normais
de incentivo, motivação, recompensa e busca. E que a alteração
da circuitaria não é mera conseqüência da ação
química da droga na estrutura desses circuitos, mas de um processo
dependente do contexto em que ocorreu a experiência.
Assim, se isolarmos um desses ratos sensibilizados por anfetamina, por
exemplo, e se administrarmos uma nova dose da droga, mas numa gaiola diferente,
na qual ele nunca tenha estado, o fenômeno de sensibilização
desaparece e o animal responde como se fosse virgem ao uso de anfetamina.
Embora cada droga ou comportamento compulsivo utilize circuitos de neurônios
e provoque prazeres específicos, todos provocam liberação
de dopamina nas áreas relacionadas com a recompensa que o prazer
traz. A repetição compulsiva do estímulo liberador
de dopamina reduz a sensibilidade a ela, tornando o cérebro mais
resistente à sua ação. Por esse mecanismo, usuários
de droga ou portadores de distúrbios comportamentais obsessivo-compulsivos
deixam de produzir dopamina aos estímulos naturais e não
sentem mais prazer em ir ao cinema, ver uma paisagem ou estar com a família.
Como diz Robinson: "O único estímulo suficientemente
intenso para ativar-lhes a liberação de dopamina nos circuitos
envolvidos na motivação é o uso da droga".
O conhecimento dos processos envolvidos no aprendizado e na memória
são decisivos para entendermos por que a repetição
intermitente de uma experiência que traz prazer, como o uso de uma
droga ou a prática de uma atividade inocente como um jogo de cartas,
pode se transformar numa compulsão que coloca a vida em risco.
Como diz o neurologista Daniele Riva, a elucidação desses
mecanismos permitirá compreender melhor por que um sistema de tanta
complexidade como o cérebro humano é incapaz de encontrar
estabilidade independentemente da cultura e da sociedade. Sem controles
culturais o cérebro é um sistema caótico.