A biologia começa a decifrar os mecanismos de criação da vida. No
passado, a vida era estudada como um produto acabado da evolução das
espécies, uma massa de atividade biológica criada por imposição de um
conjunto de genes impossíveis de manipular.
Foi nos anos 50, que
Watson e Crick descobriram a estrutura do DNA, a estante-arquivo dos
genes, e aprendemos que eles não passam de substâncias químicas, ou
seja, substâncias quimicamente iguais em todas as espécies. O que nos
diferencia de uma bactéria é simplesmente a complexidade: elas possuem
10 mil genes, e nós, 100 mil ou mais.
Como conseqüência, se
isolarmos o gene responsável pelo azul dos olhos de uma criança e, com
uma agulha, formos capazes de implantá-lo numa bactéria, ela não o
estranhará. Ao contrário, passará a considerá-lo seu na hora de
executar o ofício incansável de todos os genes: mandar produzir
proteína. Assim, uma reles bactéria pode fabricar a proteína que deixa
azul o olho da criança.
Foi o que os cientistas fizeram a partir dos
anos 60 e 70: transplantaram para bactérias o gene da insulina humana,
do interferon e de outras proteínas de interesse comercial. A
tecnologia foi chamada de DNA recombinante.
Em 1980, um grupo de pesquisadores americanos retirou células da medula óssea de um rato, introduziu nelas um novo gene e devolveu-as ao animal. Foi o primeiro animal transgênico. Pouco depois, surgiram os experimentos de transplantes de genes em óvulos e espermatozóides, procedimento muito mais radical, porque o gene transplantado fica definitivamente incorporado ao genoma e pode ser transmitido às gerações futuras.
A
transgenia não ficou limitada aos ratos. Logo apareceram as ovelhas,
porcos e bois - para não falar dos vegetais transgênicos. Diversas
proteínas de interesse para o homem começam a ser fabricadas por essa
tecnologia que mudará a medicina, a agricultura e a pecuária.
Na
edição de janeiro de 2001, na revista Science, pesquisadores do centro
de primatologia de Oregon, nos Estados Unidos, relataram um trabalho
que mais parece curiosidade de almanaque: o transplante de um gene da
água-viva para um macaco reso. O gene transplantado produz uma proteína
(GFP) que exibe coloração esverdeada quando iluminada por laser. Foi
escolhido um macaco porque a presença da luz verde nos tecidos desse
animal seria uma maneira fácil de confirmar o sucesso do transplante.
O gene foi retirado das células de uma água-viva e introduzido num vírus para funcionar como vetor do transplante. Os pesquisadores tomaram, então, 224 óvulos de macacas e introduziram neles os vírus-vetores carregando o gene em questão. Depois, fecundaram esses óvulos, in vitro, com a mesma técnica dos bebês de proveta. Os 40 embriões mais vigorosos foram finalmente implantados no útero de 20 macacas. Nasceram apenas três macaquinhos, entre eles ANDi, com traços da proteína esverdeada em seus músculos, cabelos e glóbulos brancos. Se ANDi será capaz de transmitir o gene a seus descendentes, só saberemos daqui a quatro ou cinco anos, quando atingir a maturidade sexual.
O
assunto ganhou destaque no noticiário internacional. O olhar meigo do
macaquinho no colo da pesquisadora deixou claro que os transplantes de
genes entre espécies diferentes chegaram muito próximo do homem.
Enquanto eram ratos, porcos ou ovelhas, tudo bem, mas macacos!
Esse
tipo de situação provoca os mesmos temores da época de Dolly, a
ovelhinha clonada pelo escocês de barba ruiva. Não faltam visionários
para antever hordas de crianças clonadas para atender ao desejo de
tiranos desalmados ou uma profusão de pais a inserir genes em seus
filhos para torná-los mais espertos.
Embora a tecnologia para
obtenção de macacos transgênicos esteja muito atrasada em relação à
utilizada nos ratos, há razões óbvias para desenvolvê-la: macacos são
primatas como nós. Os conhecimentos obtidos por meio deles serão
fundamentais para corrigirmos defeitos genéticos que trazem ao mundo
crianças com retardo intelectual, cegueira, deformidades físicas, além
de adultos que terminam a vida com câncer, infarto do miocárdio ou
enclausurados na solidão da demência senil.
Os transplantes de genes
encontrarão tantas aplicações no tratamento de doenças congênitas e
adquiridas que provocarão uma revolução sem precedentes na história da
medicina.
É absurdo renunciarmos a esse tipo de tecnologia por medo de possíveis aplicações criminosas. Bastará à sociedade criar leis que estabeleçam limites rígidos para esses procedimentos, como fizemos para os transplantes de órgãos, por exemplo.