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Cigarros, cachimbos e charutos

“Ninguém contesta os males causados aos fumantes passivos”

 
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Está proibido fumar charutos, cigarrilhas e cachimbos em bares e restaurantes de São Paulo. O uso desses dispositivos engendrados para administrar nicotina aos dependentes só será permitido em locais com sistema de contenção de fumaça. A restrição deverá ser obedecida inclusive “nos atuais espaços para fumantes”.
Como as pesquisas revelaram que até os fumantes de cigarro apóiam a medida, sou forçado a concluir que o cheiro de charutos, cachimbos e cigarrilhas têm o poder de incomodar até quem se dá ao direito de encher de fumaça o ar que todos respiram.

Antes de prosseguir, leitor, vou confessar que fumei dos dezessete aos trinta e nove anos, numa época em que o fumo era considerado hábito inofensivo. Durante duas décadas obriguei pessoas a inalar de modo passivo a droga da qual eu era dependente; entre elas, algumas das que me são mais queridas.

Agora, vamos ao cerne do problema: a separação entre fumantes e não-fumantes em espaços fechados é pura ficção. Diretamente ou através do ar condicionado, a fumaça se espalha pelo ambiente inteiro, como a experiência mostra. Todos os presentes a inalam, não apenas aquela de segunda mão, em que a fuligem foi parcialmente filtrada no pulmão fumante, como a mais nociva que sai direto da ponta do cigarro enquanto queima.

Em ciência, ninguém mais contesta os males causados pela fumaça alheia. Não vem ao caso se os agentes tóxicos do cigarro em combustão são inalados por via direta ou não: o fumante passivo está sujeito às mesmas enfermidades do outro.
Se para os freqüentadores ocasionais desses ambientes o impacto não é tão pernicioso, ele é devastador para os que trabalham nessas condições. Dosagens dos metabólitos da nicotina presentes no sangue e na urina de garçons que servem em bares enfumaçados, mostram que em seis horas de trabalho alguns chegam a fumar de forma passiva o equivalente a um maço, e até mais.

Nunca entendi como os sindicatos da categoria jamais tentaram defender seus associados dessa poluição ambiental, nem exigiram pagamentos adicionais pelo trabalho em condições tão insalubres.

Todas as tentativas de proibir o fumo em bares e restaurantes são combatidas ferrenhamente pelos proprietários, temerosos de perder a clientela. Na falta de argumento, insistem que leis restritivas desse tipo atentam contra a liberdade individual. Liberdade individual?

Não sejamos ridículos. Que direito tem o indivíduo de contaminar com substâncias tóxicas o ar que seus semelhantes respiram? Pela mesma lógica, o condômino que urinasse na caixa d´água do prédio estaria exercendo o direito inalienável de esvaziar a bexiga? E, olhe, que se trata de uma função fisiológica normal e que a ingestão de urina diluída não causa câncer, derrame cerebral, ataque cardíaco nem enfisema pulmonar.

Não é dever do Estado defender o cidadão do mal que ele faz a si mesmo, mas o de impedir que ele prejudique terceiros. É disso que se trata: o cigarro deve ser banido de todos os espaços fechados, porque ninguém tem direito de obrigar os demais a fumar. Especialmente, porque apenas 20% dos adultos fumam no Brasil. Os outros 80% e as crianças que não o fazem devem ficar a mercê do comportamento ditatorial da minoria?

Os donos de bares e restaurantes que se opõem à proibição do cigarro com receio de perder a freguesia, precisam entender que as companhias aéreas já padeceram do mesmo temor, e que em estabelecimentos similares aos seus, nas cidades de Nova York, São Francisco ou Estocolmo, a proibição não causou prejuízos financeiros, pelo contrário, aumentou o movimento.

Os fumantes que se consideram perseguidos e discriminados precisam entender que todo obstáculo capaz de retardar o cigarro seguinte é um exercício de aprendizado, um auxílio para adquirir controle sobre a compulsão e as crises de abstinência. A autopiedade não ajuda ninguém a ficar livre de droga nenhuma.

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