Os sinais moleculares que orientam a maturação dos neurônios,
a migração deles para formar circuitos e a arquitetura das
sinapses, começam a exercer suas funções ainda na
vida intra-uterina, bem antes de o embrião exibir sinais de atividade
neural. Nessa fase, a organização obedece exclusivamente
ao comando todo poderoso do programa genético herdado dos pais.
A configuração básica das redes neuronais de cada
indivíduo adquiridas antes dos estímulos do meio vão
constituir o arcabouço computacional do cérebro por onde
trafegarão as informações futuras.
A atividade neural poderá ser iniciada espontaneamente pelo embrião
em fases ainda precoces do desenvolvimento. No entanto, para a circuitaria
desenvolver sua potencialidade serão imprescindíveis os
estímulos ambientais. A experiência exerce impacto decisivo
na organização das redes neuronais; sem ela, o sistema nervoso
não atinge a maturidade plena.
Por exemplo, se taparmos o olho esquerdo de um gato recém-nascido
durante trinta dias consecutivos, a visão desse olho estará
definitivamente comprometida. Do ponto de vista anatômico, os neurônios
que se dispõe na retina esquerda estão lá, os circuitos
que os conectam aos centros cerebrais envolvidos na visão, também,
mas a falta do estímulo luminoso no momento adequado comprometeu
irreversivelmente a função da rede encarregada de processá-lo.
Essa experiência clássica ilustra a característica
mais importante das redes neuronais: a plasticidade. Viemos ao mundo com
uma circuitaria montada na ordem imposta por nosso programa genético,
mas o impacto da experiência modifica a estrutura molecular das
redes, promove novas conexões e desliga outras com a finalidade
de aumentar a capacidade operacional do sistema diante dos desafios que
a vida impõe.
O conceito de plasticidade dos circuitos cerebrais sepultou de vez o velho
debate da Psicologia sobre a preponderância dos genes ou do ambiente
no comportamento e formação da personalidade. Insistir nessa
dicotomia é o mesmo que ouvir uma música ao longe e perder
tempo discutindo se ela vem do piano ou do pianista.
Na excelente revisão Pathways of Discovery, publicada na revista
Science, dois destacados neurocientistas, Eric Kandel e Larry Squire,
resumem o novo alinhamento entre Neurociência e Psicologia: “O
poder computacional do cérebro é conferido pelas interações
existentes entre bilhões de células nervosas, organizadas
em redes ou circuitos que executam operações específicas
para dar suporte ao comportamento e à cognição”.