E quem controla a velocidade de entrada e saída dos íons,
que em última análise condiciona a intensidade do impulso
nervoso? Os neurotransmissores. A afinidade que o neurotransmissor liberado
por um neurônio tem com o receptor do neurônio seguinte do
circuito, pode fechar ou abrir os canais por onde passam os íons
sódio, potássio, etc., facilitando ou inibindo a passagem
do impulso nervoso.
Imaginemos os circuitos neuronais envolvidos na captação
do estímulo doloroso causado por uma picada de abelha no pé
direito. A circuitaria começa nas terminações nervosas
da pele do pé, segue pelos nervos que vão dar na medula
espinal, e dela sobe para conectar-se aos circuitos cerebrais. O estímulo
atravessará centenas de sinapses, nas quais serão liberados
neurotransmissores que agirão sobre os receptores dos neurônios
seguintes, modificando-lhes a arquitetura através do bloqueio ou
abertura dos canais por onde passarão os íons. Num piscar
de olhos, a pessoa que recebeu a picada puxará o pé com
força e dará um tapa na abelha. Nessa fração
de segundo, a informação terá chegado na medula espinal
e disparado o reflexo de puxar o pé para trás. Simultaneamente,
atingirá diversas estações cerebrais que compararão
o estímulo recebido com os demais arquivados na memória,
até identificá-lo como resultante da picada de uma abelha
que merece ser morta a tapa.
A velocidade com a qual a informação trafega pelo sistema
nervoso é assustadora: chega a atingir de 10 a 100 metros por segundo.
Mais ainda quando se pensa que o impulso para atravessar as sinapses depende
da arquitetura molecular dos poros da membrana dos neurônios, dos
neurotransmissores que são liberados não como moléculas
isoladas, mas na forma de pacotes contendo cinco mil delas (chamados de
quanta), que se ligam a receptores específicos e provocam reações
químicas capazes de modular o fluxo de íons de acordo com
o interesse do organismo, ora reforçando ora diminuindo a intensidade
do impulso nervoso.
É lógico que tanta rapidez no processamento de dados não
surgiu da noite para o dia. A seleção natural começou
a favorecer a sobrevivência dos animais que conduziam impulsos nervosos
com maior eficácia há mais de seiscentos milhões
de anos, quando surgiram os primeiros seres multicelulares.
Poucas divisões celulares depois da fecundação do
óvulo, aparecem as primeiras células nervosas, primitivas,
que se multiplicam sem parar.