Há cinco mil anos, os egípcios, que descreveram diversos
sinais de doenças neurológicas, consideravam o coração
como o templo da alma e a biblioteca das memórias.
O coração permaneceu como sede da consciência até
Hipócrates (460a 379 AC), o pai da Medicina ocidental. Para ele,
o órgão que controlava as sensações e a inteligência
era o cérebro. Nem todos os gregos aceitavam essa idéia,
no entanto, o célebre Aristóteles, por exemplo, continuava
acreditando no coração como albergue do intelecto. Para
ele, o cérebro seria um simples radiador para esfriar o sangue
esquentado pelas batidas do coração.
Então, no ano de 200 AC, nasceu Galeno, e a Anatomia nunca mais
foi a mesma. Galeno era médico dos gladiadores que se batiam nas
arenas romanas, dissecava animais e, possivelmente, cadáveres,
também. O cérebro para o grande anatomista era constituído
pela parte da frente, o cerebrum, e pela de trás, o cerebellum.
Como a consistência do cerebelo é endurecida, ele supôs
que aí estivesse a sede do comando dos músculos. O cérebro
teria consistência mais tenra para receber as sensações
e gravar memórias. Apesar da estranheza do raciocínio, sua
intuição estava próxima da verdade, como ficou claro
mais tarde.
Essa visão de Galeno, como tantas outras de sua autoria, foi incontestável
durante 1500 anos. Na Renascença, os franceses ainda defendiam
a idéia de que o cérebro funcionaria como uma bomba capaz
de impulsionar o líquido contido em seu interior para o interior
dos nervos (que seriam ocos), a fim de contrair os músculos. O
matemático e filósofo Descartes, há 300 anos, imaginava
que o cérebro controlaria apenas a parte do comportamento humano
que se assemelha ao das feras. A mente seria uma entidade espiritual,
extracorpórea, que receberia sensações e comandaria
os movimentos comunicando-se com o resto do cérebro por intermédio
da glândula pineal.